Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
17/08/2026
8 min

Scania investe R$ 78 milhões no Brasil e amplia segundo maior centro logístico de peças do mundo

Em entrevista exclusiva à EXAME, presidente da montadora sueca detalha expansão e estratégia para enfrentar os novos concorrentes no Brasil: as montadoras chinesas

Scania investe R$ 78 milhões no Brasil e amplia segundo maior centro logístico de peças do mundo

Um caminhão parado é mais do que um problema mecânico. Para uma transportadora, significa um ativo que deixou de gerar receita. É com essa conta em mente que a Scaniaacaba de investir R$ 78 milhões na expansão de seu centro logístico de peças em Vinhedo, no interior de São Paulo.

A unidade, conhecida como LPC (Latin Parts Center), teve a área de armazenagem ampliada em 62%, de 15.000 para 24.400 metros quadrados. O investimento faz parte do ciclo de R$ 6 bilhões previsto pela montadora entre 2016 e 2028 no Brasil.

Com a expansão, a companhia reforça uma estrutura que já ocupa uma posição de destaque dentro da operação global: Vinhedo é o segundo maior centro logístico de peças da Scania no mundo, atrás apenas da unidade da Bélgica. A ampliação aumenta ainda mais a distância da operação brasileira em relação aos demais centros da companhia.

Por trás dos metros quadrados adicionais há uma estratégia que vai além de armazenar mais componentes. A companhia quer reduzir o tempo entre a necessidade de manutenção e a volta do veículo à estrada.

“Há 70 anos, nós nunca vendemos preço, nós sempre vendemos valor”, afirma Christopher Podgorski, CEO da Scania América Latina, em entrevista exclusiva à EXAME. “O Brasil é o nosso mercado número um, é o lugar do mundo em que a Scania mais vende.”

Não à toa a Scania tem o hub industrial em São Bernardo e 9 fábricas que se complementam com o centro de distribuição de peças, que está localizado de forma bem estratégica no Brasil.

Veja também: Exclusivo: Bauducco inaugura fábrica de US$ 200 milhões nos EUA

CD em Vinhedo, SP: O LPC, da Scania, mantém mais de 40.000 itens em estoque e funciona como o principal hub de distribuição de peças da Scania para a América Latina (Scania/Divulgação)

Por que os maiores centros logísticos da Scania ficam na Bélgica e no Brasil

A localização dos dois maiores centros logísticos de peças da Scania no mundo acompanha a geografia da própria operação da montadora.

Na Bélgica, onde está o maior deles, pesam a posição estratégica dentro da Europa, a proximidade dos fornecedores e das unidades produtivas da companhia e o acesso à infraestrutura portuária.

“A Bélgica é considerada um centro estratégico de logística na Europa. Ali temos Antuérpia e os demais portos de onde saem os despachos, com grande frequência também para a América Latina”, afirma Podgorski.

No Brasil, Vinhedo exerce papel semelhante deste lado do Atlântico. A cidade está na região de Campinas, próxima das principais rodovias do país e do Aeroporto Internacional de Viracopos, além de fazer parte de um ecossistema que concentra empresas e profissionais especializados em logística.

A própria infraestrutura, a localização geográfica, a proximidade do aeroporto de Viracopos e a conexão com as principais rodovias e regiões são fatores preponderantes”, diz Podgorski.

A escolha também está ligada ao peso do Brasil dentro da Scania. O país é atualmente o maior mercado da montadora no mundo em volume e abriga o hub industrial de São Bernardo do Campo, que se complementa com a distribuição de peças a partir de Vinhedo.

Veja também: Prime Day, expansão, IA: a estratégia de R$ 75 bilhões da Amazon para acelerar no Brasil

Mais espaço, mas não necessariamente mais estoque

Hoje, o LPC mantém mais de 40.000 itens em estoque e funciona como o principal hub de distribuição de peças da Scania para a América Latina, com exceção do México, abastecido diretamente pela operação europeia.

A expansão, porém, não significa simplesmente encher o novo espaço com componentes. Segundo Alessandro Silvério, gerente do LPC, a prioridade foi redesenhar os fluxos internos para aumentar a velocidade e a disponibilidade das peças.

“Não foi só um armazém onde a gente vai ter mais espaço para armazenar mais peças. Fizemos todo um ajuste no nosso fluxo interno para fazer com que a peça esteja disponível mais rápido e seja despachada o mais rápido possível.

A Scania monitora diariamente os estoques das concessionárias por meio de um sistema chamado Dealer Stock Management (DSM). Os pedidos de reposição recebidos em um dia são separados para despacho no dia seguinte.

“Quando há uma solicitação urgente, a peça pode sair do centro ainda no mesmo dia. Nos casos considerados “superurgentes”, a gente utiliza até entrega porta a porta”, diz Silvério.

Com a nova estrutura, a meta de disponibilidade de peças sobe de 95,5% para 96,5%. Em outras palavras, a companhia pretende ter imediatamente em estoque mais de 96 de cada 100 itens solicitados pela rede. Em uma operação com cerca de 40.000 referências diferentes, um ponto percentual representa uma diferença relevante.

Alessandro Silvério, gerente do LPC: “Hoje a gente está usando muito a IA para nos auxiliar nas análises do histórico e do que estamos vendendo" (Scania/Divulgação)

IA ajuda a decidir quais peças ficam no estoque

Parte dessa eficiência passa pela inteligência artificial. A Scania utiliza a tecnologia para analisar históricos de vendas, sazonalidade e comportamento da frota e, assim, prever quais componentes precisam estar disponíveis em Vinhedo.

“Hoje a gente está usando muito a IA para nos auxiliar nas análises do histórico e do que estamos vendendo, para entender quais peças precisamos ter e disponibilizá-las o mais rápido possível para os clientes,” diz Silvério.

O desafio está na diversidade. Segundo Podgorski, os veículos da montadora atendem 36 aplicações diferentes, de transporte de cana e madeira a mineração, construção, cargas refrigeradas e longa distância.

“A situação ideal é que a gente tivesse todas as peças em tempo real, mas não é viável, não fecha a conta”, afirma o CEO.

É justamente nessa equação que entra a IA: cruzar as diferentes aplicações e padrões de demanda para tornar o estoque mais assertivo.

A estratégia também prepara a operação para uma frota mais diversificada. À medida que veículos elétricos, a gás e a biometano ganham espaço, novos componentes precisarão entrar no estoque. O espaço adicional dá margem para incorporar essas peças sem abandonar a eficiência logística.

Veja também: Exclusivo: Farm Rio acelera expansão internacional com lojas de verão na Europa

Concorrência asiática aumenta a disputa

A expansão ocorre em um momento de aumento da competição no mercado brasileiro de veículos comerciais, com a chegada de novos fabricantes, inclusive asiáticos. Para Podgorski, porém, a disputa não será definida apenas pelo preço de aquisição do caminhão.

A aposta da Scania está justamente na estrutura construída ao longo de quase sete décadas no país: produção local, engenharia, fornecedores, concessionárias e pós-venda. O Brasil é atualmente o maior mercado da Scania no mundo em volume de caminhões e ônibus, segundo o executivo.

Há 70 anos, nós nunca vendemos preço, nós sempre vendemos valor”, diz Podgorski.

Para ele, os novos competidores podem usar o excesso de capacidade de seus países de origem para entrar no Brasil com preços agressivos, mas terão de construir uma estrutura capaz de sustentar os veículos depois da venda.

O executivo também argumenta que caminhões desenvolvidos para outros mercados precisam ser adaptados às condições brasileiras. A Scania mantém cerca de 400 engenheiros no país justamente para validar os veículos para diferentes aplicações e condições de infraestrutura.

Veja também: Exclusivo: Farmácia, serviço financeiro e postos de gasolina - os novos investimentos do Assaí

Centro de distribuição de peças da Scania em Vinhedo, São Paulo: É o segundo maior do mundo da companhia, fica atrás apenas do CD da Bélgica (Scania/Divulgação)

Brasil no centro dos investimentos

A ampliação de Vinhedo demorou cerca de 1 ano e meio e integra um ciclo de investimentos bilionário anunciado em 2016.

“Os recursos já anunciados seguem sendo direcionados principalmente à fábrica e à transição energética”, diz o CEO.

A empresa já iniciou no país a produção de chassis de ônibus elétricos e aposta em soluções a biometano. Para Podgorski, a combinação entre produto e pós-venda será uma das principais armas da Scania nos próximos anos.

“Diferentemente de automóvel, veículo comercial é dinheiro no bolso e se não operar, é prejuízo garantido”, afirma. “Se o cliente não for bem-sucedido, eu não tenho cliente amanhã. Não é retórica, é modelo de negócio.”

É esse histórico que a Scania quer continuar mantendo no Brasil, após quase 30 anos na liderança, segundo o CEO.

“Nos últimos 30 anos, o Brasil foi 28 vezes o mercado número 1 da Scania no mundo, em termos de volumes. Hoje, seguimos nessa liderança e temos condições e qualidade para continuar neste lugar.”

Veja também: Presidente da H&M revela plano para 2026 com expansão na América Latina e 7 lojas no Brasil

AutorLayane Serrano
FonteExame
Distribuído por