Seara cresce no Oriente Médio e operação já fatura US$ 500 milhões, diz CEO

O Oriente Médio deixou de ser apenas um destino para as exportações da Seara e se tornou uma das principais apostas internacionais da companhia. Em menos de cinco anos, a empresa brasileira, que faz parte da JBS, construiu uma operação própria na região, onde alcançou faturamento de US$ 500 milhões e transformou a Arábia Saudita e os Emirados Árabes em um dos principais pilares de sua estratégia global.
Mesmo diante dos conflitos recentes envolvendo países do Oriente Médio e os Estados Unidos, a estratégia permanece inalterada.
"O Oriente Médio é um mercado extremamente importante para o consumo de frango. Se olharmos toda a população halal no mundo, são quase 2 bilhões de pessoas", afirma João Campos, CEO da Seara, em entrevista exclusiva ao De Frente com CEO, da EXAME.
Segundo o executivo, a operação da companhia na região não sofreu impactos relevantes com as recentes tensões geopolíticas, e o plano continua sendo ampliar a presença da marca.
O que é halal?
Halal é um termo em árabe que significa "permitido" ou "lícito", de acordo com a lei islâmica. No setor de alimentos, refere-se a produtos que seguem regras religiosas específicas durante toda a cadeia de produção, da criação dos animais ao abate, processamento, armazenamento e transporte.
No caso das carnes, o animal deve ser abatido por um muçulmano treinado, seguindo um ritual específico. Além disso, alimentos halal não podem conter ingredientes proibidos pelo Islã, como carne suína ou álcool.
O mercado halal vai muito além do Oriente Médio. Ele reúne cerca de 2 bilhões de consumidores muçulmanos espalhados pela Ásia, África, Europa e Américas e é um dos segmentos que mais crescem na indústria global de alimentos.
O Brasil figura entre os maiores exportadores mundiais de carnes halal, especialmente de frango e carne bovina. Empresas como a Seara adaptam suas plantas industriais para atender às exigências de certificação e exportar para mercados como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Egito, Indonésia e Malásia.
Para Campos, o principal diferencial do Oriente Médio é o tamanho do mercado consumidor muçulmano.
"O Oriente Médio é um mercado extremamente importante para o consumo de frango. É um mercado que só cresce", afirma.
A região, segundo o executivo, reúne consumidores que valorizam produtos industrializados, conveniência e marcas reconhecidas, características que aproximam o modelo de negócios da Seara daquele desenvolvido no Brasil.
Fábrica da Seara em Jeddah, na Arábia Saudita, exporta também para mercados como Catar, Kuwait, Egito, Indonésia e Malásia (Seara/Divulgação)
De exportadora para marca local
Durante décadas, a relação da Seara com o Oriente Médio era baseada principalmente na exportação de carnes produzidas no Brasil.
Nos últimos anos, porém, a companhia decidiu mudar a estratégia. Em vez de apenas vender produtos para distribuidores locais, passou a investir em uma operação própria para replicar o modelo desenvolvido no mercado brasileiro.
A marca Seara foi lançada para os consumidores da Arábia Saudita em 2021 e, atualmente, já está entre as três maiores marcas em participação de mercado no país, segundo Campos.
A empresa iniciou esse movimento com duas fábricas na Arábia Saudita (Jeddah e Dammam) e uma em Ras Al Khaimah, no Emirados Árabes.
"A fábrica de Jeddah dobrou de tamanho em apenas um ano", afirma o executivo.
Outra frente de expansão envolve uma parceria com a Arabian Company for Agricultural and Industrial Investment, que passará a produzir produtos da marca Seara para fortalecer a presença da companhia no mercado local.
Desde 2021, a JBS investiu US$ 85 milhões na Arábia Saudita. A partir da fábrica de Jeddah, a empresa já exporta produtos para Kuwait, Omã e Emirados Árabes Unidos, transformando o país em uma plataforma regional de produção. Questionado, Campos não pode abrir a capacidade produtiva, mas afirma que a produção segue em ritmo de crescimento.
Uma marca brasileira entre as maiores da região
A estratégia já aparece nos resultados. Além da operação da Seara no Oriente Médio gerar cerca de US$ 500 milhões em receita anual, outro indicador que chama atenção é o avanço do reconhecimento da marca. Entre 2022 e 2025, o índice de brand awareness (nível de reconhecimento e familiaridade que o público tem com o seu negócio) da Seara na região saltou de 22% para 92%, resultado atribuído à ampliação da distribuição, da produção local e dos investimentos em marketing.
Os conflitos recentes no Oriente Médio não alteraram os planos da companhia.
Campos afirma que a operação continuou funcionando normalmente e que a estratégia permanece voltada ao crescimento de longo prazo.
“O potencial estrutural do mercado supera as oscilações provocadas pelo cenário geopolítico”, afirma.
Próximo passo
O Oriente Médio faz parte da estratégia internacional da Seara, que exporta para mais de 140 países. Ao mesmo tempo, a companhia busca ampliar sua presença no Brasil, investir em produtos de maior valor agregado e acelerar o uso de inteligência artificial para aumentar a eficiência da operação.
Depois de investir R$ 10,2 bilhões entre 2021 e 2025 para ampliar capacidade produtiva, inovação e produtividade, a empresa entra agora em uma fase de captura de resultados. Para Campos, a operação no Oriente Médio deve continuar entre os principais motores do crescimento internacional da Seara, tendo a Arábia Saudita como hub para abastecer mercados vizinhos e fortalecer a marca em uma das regiões mais estratégicas para o consumo de proteína halal.
Apesar da presença internacional, o Brasil segue como mercado central para a Seara. “Hoje, a operação brasileira representa cerca de metade dos negócios da companhia. A outra metade vem das exportações”, afirma o CEO. “Eu vejo muita oportunidade no mercado brasileiro, mas seguimos com presença em mais 150 países”.
Veja a entrevista completa de João Campos, CEO da Seara, ao programa "De frente com CEO", da EXAME, direto da sede da companhia:
