Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Mundo
23/06/2026
4 min

Segurança pública vira fator decisivo em 70% das eleições na América Latina

Segurança pública vira fator decisivo em 70% das eleições na América Latina

A segurança pública se tornou a principal temática das disputas eleitorais latino-americanas nesta década. De acordo com levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), 70% das eleições ocorridas na região entre 2023 e 2026 tiveram como campanhas vencedoras as centradas no combate à criminalidade, na restauração da ordem e no enfrentamento ao crime organizado.

O cientista mapeou 19 disputas presidenciais, excluindoVenezuela, Cuba e Nicarágua, cujos processos eleitorais são contestados. Na pesquisa, ele identificou que, em 13 delas, venceram lideranças cujo discurso de campanha gravitou em torno da segurança.

Segundo Medeiros, o eleitor médio da região, que teme ser assaltado, extorquido ou viver sob influência de facções criminosas, tende a priorizar candidatos que transmitam capacidade de impor ordem. O binômio corrupção e segurança, observa ele, tornou-se uma das marcas das eleições recentes no continente.

Milei, Espriella, Fujimori e Bukele

Alguns casos centrais ilustram bem essa tendência. Na Argentina, em 2023, Javier Milei combinou discurso antissistema com promessa de endurecimento contra o crime para chegar ao poder.

No mesmo ano, Daniel Noboa venceu no Equador com a segurança pública no centro do debate e foi reeleito em 2025, com o país atravessando uma escalada de violência sem precedentes provocada por disputas entre facções do narcotráfico.

Em 2024, a reeleição deNayib Bukele em El Salvador consolidou a narrativa de tolerância zero como ativo eleitoral.

No ano seguinte, Chile, Bolívia e Honduras também realizaram eleições marcadas pelo combate ao crime organizado.José Antonio Kast venceu no Chile, Rodrigo Paz na Bolívia eNasry Asfura em Honduras.

Em fevereiro de 2026, Laura Fernández foi eleita presidente da Costa Rica com a promessa de construir megapresídios nos moldes de El Salvador para lidar com a criminalidade crescente no país.

E recentemente a Colômbia elegeu Abelardo de la Espriella, que venceu com propostas linha-dura para combater o crime organizado: prometeu uma ofensiva militar contra o narcotráfico e a construção de 10 megapresídios.

No Peru, com 99,6% das urnas apuradas, Keiko Fujimori lidera a disputa presidencial, também com agenda centrada na segurança.

O levantamento mostra ainda que, das 19 eleições entre 2023 e 2026, partidos ou candidatos de esquerda venceram apenas quatro: no Uruguai (Yamandú Orsi), na Guiana (Irfaan Ali), no Suriname (Jennifer Simons) e no México (Claudia Sheinbaum). Nenhuma dessas campanhas teve a segurança como eixo central.

As demais foram vencidas por lideranças de centro ou direita, em grande parte com plataformas de endurecimento penal.

Panorama da violência na América Latina

A ascensão da segurança pública como centro do debate político está em acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgados em 2024. O estudo do FMI aponta que, embora a região concentre apenas 8% da população mundial, ela responde por 29% dos homicídios globais, uma taxa média ao longo da última década quase 12 vezes maior do que a de economias desenvolvidas.

A taxa mediana de homicídios na região se manteve relativamente estável na última década, com variações importantes entre países. El Salvador registrou a queda mais acentuada da região, impulsionada pela intensificação das operações de segurança contra gangues.

Brasil, Colômbia e México também apresentaram quedas, mas ainda são responsáveis por 70% dos homicídios da região, tendo 60% da população.

Na direção oposta, oEquador viveu uma escalada sem precedentes, com a taxa de homicídios saltando de 5,7 para 45,1 por 100 mil habitantes entre 2018 e 2023, em razão de disputas entre facções do tráfico de drogas nos portos de Esmeraldas e Guaiaquil.

O FMI destaca que a criminalidade é um fenômeno altamente localizado. Cerca de 50% dos crimes na América Latina ocorrem em apenas 2,5% do espaço urbano. Oito dos dez países mais violentos do mundo e 40 das 50 cidades mais perigosas estão na região.

AutorPaloma Lazzaro
FonteExame
Distribuído por