Selic a 14% ao ano e ajuste fiscal só em 2028: ASA vê dívida pública perto de nível recorde e faz alerta sobre o dólar
O rating do Brasil também está em risco, segundo o ASA Investimentos. As agências de classificação de crédito devem avaliar o país meses após a eleição, com os primeiros sinais de um ajuste fiscal

Nesta terça-feira (4), os holofotes do mercado estão voltados para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que anunciará amanhã a decisão sobre a taxa básica de juros. Na visão do ASA Investimentos, a autarquia deve reduzir a Selic para 14% ao ano, mas não terá espaço para mais cortes — e a culpa é do cenário fiscal.
Em coletiva realizada com jornalistas hoje, Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia da instituição, avaliou que o período eleitoral deve criar um “limbo fiscal”, já que temas impopulares, como ajustes nas contas públicas, tendem a ficar em segundo plano.
Além disso, o Banco Central (BC) tem como diretriz não realizar movimentos na política monetária às vésperas de eleições para não afetar o debate eleitoral.
Com as discussões sobre ajuste fiscal adiadas para o pós-eleições, uma janela de corte só virá no fim do ano. Porém, segundo o analista, isso depende de indicações positivas do próximo governo em relação aos gastos.
O problema é que as perspectivas não são animadoras. O ASA projeta que a dívida pública pode atingir 86,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027, patamar muito próximo ao pico histórico, que foi registrado durante o auge da pandemia de Covid-19. E o ajuste fiscal ainda deve demorar.
“Sem a aprovação de medidas que limitem o crescimento das despesas obrigatórias ainda no segundo semestre de 2026, o orçamento de 2027 ficará comprometido, empurrando qualquer ajuste real apenas para o ano seguinte”, afirmou.
O peso do fiscal no dólar e no rating do Brasil
A questão fiscal não é uma pedra no sapato apenas do governo brasileiro. Bittencourt avalia que, desde a pandemia, criou-se um ambiente em que diversos países estão mais tolerantes a excessos de gastos.
Essa leniência global adia as discussões sobre um ajuste no Brasil. “Se essa tendência permanecer, o próximo governo, seja o atual ou uma nova gestão, terá poucos incentivos para anunciar um ajuste mais duro”, avaliou.
Por outro lado, o analista alerta que a dívida brasileira é significativamente mais cara e maior que a de seus pares emergentes, o que demanda um ajuste independente do que ocorra no resto do mundo. “O Brasil tem aspectos próprios e suficientemente graves para demandar um direcionamento da questão fiscal apesar do cenário global”, afirmou Bittencourt.
O ASA também não exclui a possibilidade de uma mudança de avaliação internacional. Esse movimento já ocorreu na história recente, após a crise de 2008. Na época, os países decidiram em conjunto, durante uma reunião do G20, que para superar os efeitos do colapso financeiro, seriam necessárias regrais fiscais mais fortes.
“Se essa alteração ocorrer, o Brasil será o primeiro a sofrer, uma vez que parte de uma posição fiscal muito mais frágil que os demais países”, disse o analista. E, para ele, o impacto será sentido no bolso: nesse cenário, o preço do dólar tende a subir.
Até o momento, a perspectiva do ASA é que a moeda norte-americana encerre o ano a R$ 5,15. A avaliação de um dólar ‘mais comportado’ é sustentada pelo elevado nível dos juros, o que atrai investidores em busca de lucro.
Pensando em um cenário em que o mercado internacional se torne menos leniente com os excessos de gastos, os investidores podem tirar o dinheiro do país por medo da dívida caso o governo não mostre um plano de ajuste fiscal após as eleições.
Porém, o rating do Brasil pode não aguentar tanto tempo. Para Bittencourt, as agências de classificação de risco de crédito devem avaliar o país meses após a eleição, com os primeiros sinais de um ajuste. E, caso o pacote de medidas seja considerado “frustrante, tímido ou pouco ousado”, o rating brasileiro tende a cair.
Perspectivas após as eleições
Para evitar esse desfecho, a aposta dos analistas gira em torno da chamada ‘Anti-PEC da Transição’, um conjunto de medidas que faria o inverso da expansão de gastos aprovada no final de 2022. A medida, que já foi sinalizada pela equipe econômica atual, foca na limitação do crescimento das despesas para o mandato de 2027 a 2030.
Porém, o analista do ASA enxerga que a fragilidade reputacional da atual gestão pode impedir uma reação positiva. Para Bittencourt, o país pode ver o cenário do final de 2024 se repetir, quando a reforma tributária foi ofuscada pelo aumento da isenção do imposto de renda.
“Existe o risco de o pacote vir acompanhado de exclusão de programas sociais do limite global, o que esvaziaria o impacto do ajuste. A aprovação de ‘pautas-bomba’ no Congresso no fim do ano também pode minar qualquer esforço”, afirmou.
O analista avalia ainda que, se o governo Lula for mantido, o plano para evitar o colapso das contas públicas deve se basear na redução do limite de crescimento real do arcabouço fiscal, passando do teto de 2,5% para entre 1,5% e 2% ao ano.
Além disso, o governo deverá focar no controle da quantidade de beneficiários. Através de um “pente-fino” rigoroso, a gestão deve direcionar esforços para combater fraudes na Previdência, no Seguro-Desemprego e, especialmente, no Benefício de Prestação Continuada (BPC), que tem apresentado um crescimento expressivo.
Já pelo lado da receita, a perspectiva do ASA é que a estratégia de aumentar a taxação dos mais ricos continuará, com foco na redução de benefícios fiscais.
