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InvestMercadosFINRF
18/06/2026
7 min

Selic a 14,25% não tira apetite por FIIs de papel e fundos de renda fixa

Selic a 14,25% não tira apetite por FIIs de papel e fundos de renda fixa

A queda da taxa básica de juros, a Selic, para 14,25% ao ano, anunciada nesta quarta-feira, 17, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, muda pouco a vida do investidor no curto prazo. O corte de 0,25 ponto percentual já era amplamente esperado pelo mercado e não altera de forma relevante o cenário de juros ainda elevados que domina as decisões de investimento no Brasil. Mas isso não significa que nada mudou, de acordo com especialistas.

Como principal referência para aplicações financeiras no país, a Selic funciona como o termômetro que orienta a remuneração da renda fixa, influencia o crédito, afeta o valor das empresas na bolsa e ajuda a determinar o preço de ativos como fundos imobiliários (FIIs), fundos multimercados e fundos de ações.

A decisão do Copom ocorre em uma semana marcada também por um fator externo importante, com o acordo anunciado entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra iniciada em fevereiro e reabrir o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo.

O entendimento reduziu parte das tensões geopolíticas que vinham pressionando os mercados globais. Apesar disso, o alívio internacional não foi suficiente para impulsionar a bolsa brasileira.

Segundo gestores ouvidos pela EXAME, o fim do conflito retirou justamente um dos fatores que vinham sustentando o Ibovespa nas últimas semanas: a alta do petróleo, que beneficiava diretamente a Petrobras. Com isso, o mercado voltou a concentrar sua atenção nos problemas domésticos, como os juros elevados, as incertezas fiscais, a saída de capital estrangeiro e a aproximação das eleições de 2026.

O resultado é que, mesmo com o cenário externo mais favorável, a bolsa brasileira continua sem encontrar uma direção clara.

E o que muda para os FIIs?

Diante disso, os analistas apontam que o cenário para os FIIs praticamente não tem grandes mudanças. Ricardo Mateoli, responsável pela área de fundos imobiliários da Paramis Avantgarde, afirma que o corte já estava incorporado aos preços dos ativos.

Mateoli explica que o investidor costuma olhar excessivamente para a Selic, quando o principal fator para os fundos imobiliários é a curva de juros de longo prazo. "O que efetivamente influencia a precificação dos FIIs é a trajetória esperada para os juros nos vértices mais longos da curva. Atualmente, o mercado trabalha com a perspectiva de manutenção das taxas em patamar elevado por um período prolongado", diz.

A avaliação é compartilhada por Carol Borges, head e analista de FIIs da EQI Research. "O corte em si tem efeito marginal sobre os FIIs. Sair de 14,50% para 14,25% é um movimento pequeno e que já estava no radar do mercado. O que realmente mexe com a classe não é a Selic de curto prazo, e sim a curva de juros mais longa", diz.

Segundo Borges,os fundos imobiliários foram mais impactados ao longo do ano pela deterioração do cenário fiscal, pela inflação acima da meta e pelos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre os preços do petróleo do que pelas decisões do Copom.

"Foi essa abertura que pressionou os FIIs nas últimas semanas, muito mais do que qualquer decisão pontual do Copom. Então, a Selic caindo ajuda na margem, mas mais relevante para precificação é o juro real longo, que está mais alto do que no começo do ano. Apesar do corte de 0,25 ponto nesta reunião, avaliamos que ele deve ser o último do ciclo neste ano", afirma a head e analista de FIIS da EQI.

Para Sérgio Tormin, head de Real Estate da Blue3 Asset, os juros elevados continuam representando concorrência para os FIIs no curto prazo. "Em um cenário de juros elevados, parte dos investidores migra para ativos de renda fixa, que passam a oferecer retornos mais atrativos com menor risco percebido."

Por outro lado, ele vê oportunidades para quem investe com horizonte mais longo. "Muitos fundos negociam com desconto relevante em relação ao valor patrimonial. Isso permite ao investidor acessar dividend yields bastante atrativos e capturar potencial ganho de capital à medida que a Selic iniciar um ciclo de queda."

Fundos de papel seguem entre os favoritos

Entre os segmentos mais citados pelos especialistas estão os fundos de papel indexados ao CDI. Mateoli afirma que a tese continua válida mesmo após o novo corte de juros. "Os fundos de papel indexados ao CDI [Certificado de Depósito Interbancário] continuam apresentando rendimentos nominais bastante elevados e seguem sendo uma alternativa atrativa para investidores em busca de renda".

Tormin, da Blue3, também tem visão semelhante."Em um ambiente de Selic elevada, os fundos de papel indexados ao CDI tendem a se beneficiar diretamente do patamar mais alto da taxa de juros", afirma.

Carol Borges também considera esses fundos uma alternativa defensiva. "Com o CDI em patamar elevado e a perspectiva de juros altos por um período prolongado, os fundos de papel indexados ao CDI funcionam como um bom porto seguro dentro da carteira".

A expectativa para esses ativos é menos de valorização das cotas e mais de geração consistente de renda. "Não se deve esperar valorização relevante das cotas. São fundos de baixa volatilidade, que entregam renda elevada e consistente por um bom tempo", diz a head da EQI.

E como ficam os fundos de investimento?

Para os gestores, a principal consequência da Selic ainda em 14,25% é a manutenção da atratividade da renda fixa. Thiago Nemézio, diretor da Blue3 Investimentos, afirma que o cenário continua favorecendo aplicações pós-fixadas.

"Como nossa visão é de manutenção dos juros em patamares elevados por mais tempo, a principal alocação dentro da renda fixa hoje está em títulos pós-fixados".

Para investidores moderados, Nemézio também vê espaço para títulos indexados à inflação. "Pode fazer sentido montar uma posição parcial em Tesouro IPCA+, que oferece proteção patrimonial e preservação do poder de compra no longo prazo."

Alexandre Fernandes, CIO de crédito da Paramis, também destaca os ativos incentivados indexados à inflação. "Eles apresentaram melhora nos spreads de crédito e também representam uma boa alternativa, ainda que ganhos com fechamento da curva de juros dependam de maior visibilidade no cenário fiscal brasileiro", diz.

Sea renda fixa continua forte, a queda dos juros ajuda a abrir uma pequena janela para ativos de risco. Nemézio afirma que ações e fundos multimercados seguem importantes dentro de uma carteira diversificada, mas alerta para a dificuldade de acertar o momento ideal de entrada."Quem tenta fazer isso muitas vezes chega atrasado, depois que boa parte do movimento de valorização já aconteceu."

O principal desafio é que a renda fixa ainda oferece retornos elevados com baixo risco. "O investidor tende a preferir ativos conservadores que oferecem juros reais acima de 7% ao ano."

Ainda assim, o executivo lembra que juros reais tão elevados costumam ser difíceis de sustentar no longo prazo. Se houver melhora do ambiente econômico, ações e multimercados tendem a ser beneficiados.

Para Luciano França, sócio-fundador e gestor de renda variável da Paramis Avantgarde, o cenário exige seletividade. "Não é um ambiente em que o investidor deve simplesmente comprar bolsa de forma direcional esperando uma expansão generalizada de múltiplos."

Segundo ele, abolsa brasileira disputa recursos com dois concorrentes poderosos: a renda fixa doméstica e o mercado americano. Na penúltima decisão do BC, quando os juros caíram para 14,50% ao ano, o Ibovespa acumulava valorização de pouco mais de 17%. Mas até o fechamento desta terça, 16, o retorno do principal índice acionário da B3 estava reduzido a pouco mais de 5%.

"O mercado americano segue atraindo capital global por uma narrativa muito forte ligada à inteligência artificial, semicondutores, data centers, infraestrutura digital, energia e grandes plataformas de tecnologia."

Por isso, França acredita que a escolha das empresas será mais importante do que a aposta na alta generalizada da bolsa. "Nossos modelos tendem a favorecer empresas com maior qualidade operacional e financeira, balanços mais sólidos, menor alavancagem, geração de caixa recorrente e rentabilidade elevada", finaliza.

AutorClara Assunção
FonteExame
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