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25/06/2026
7 min

Selic alta por mais tempo favorece FIDCs no crédito privado, dizem gestores

Selic alta por mais tempo favorece FIDCs no crédito privado, dizem gestores

A combinação de Selic elevada, spreads comprimidos e aumento dos riscos corporativos está mudando a forma como gestores e investidores olham para o mercado de crédito privado. Em um cenário em que o Banco Central reduziu a taxa básica para 14,25% ao ano, mas sinalizou cautela para os próximos passos, enquanto o mercado já projeta juros de 14% em 2026, ante os 13,75% anteriormente previstos, a busca por retorno deixou de ser suficiente. Agora, a palavra de ordem é proteção.

E nesse contexto um ativo tradicionalmente mais restrito aos investidores profissionais passou a ganhar protagonismo: os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).

De acordo com gestores e especialistas, essas estruturas vêm oferecendo uma "combinação rara" no atual ciclo ao ofertar rentabilidade superior à das debêntures de alta qualidade e mecanismos de proteção capazes de reduzir o impacto de eventuais deteriorações de crédito.

A mudança de preferência acontece em um momento em que o mercado de capitais tenta se manter resiliente. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que as ofertas acumuladas somaram R$ 283 bilhões no ano até maio. Apenas naquele mês, foram R$ 47 bilhões em emissões, dos quais R$ 39,9 bilhões vieram da renda fixa.

As debêntures continuaram liderando as captações, com R$ 26,6 bilhões emitidos, seguidas pelos FIDCs, que movimentaram R$ 5,3 bilhões.

Entre os instrumentos de securitização, os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) registraram captações de R$ 2,9 bi, enquanto os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) alcançaram R$ 1,4 bi em maio. Mas o crescimento do mercado esconde uma mudança importante na percepção de risco.

O problema dos spreads baixos

Durante boa parte de 2024 e do início do ano passado, o crédito privado viveu uma forte compressão de spreads,  o "prêmio" ou taxa extra que um título de crédito privado paga. Na prática, os investidores aceitaram receber retornos menores para financiar empresas.

Segundo Rodrigo Mendonça, diretor gestor de renda fixa abertos da Valora Investimentos, esse movimento teve mais relação com fluxo de recursos do que com melhora efetiva dos fundamentos das companhias.

"Parte grande dessa compressão veio de um movimento técnico forte na indústria de crédito e renda fixa como um todo. A Selic elevada puxou uma captação enorme para os fundos, e esse volume de recurso perseguindo uma oferta de papel limitada comprime spread independentemente do fundamento", afirmou.

Um levantamento realizado por Eduardo Furuie, cofundador e CIO da Nexa Finance, indica que o spread médio das debêntures sobre o (Certificado de Depósito Interbancário) CDI caiu de cerca de 269 pontos-base em junho de 2023 para 163 pontos-base em janeiro de 2026. Mas o agravante, de acordo com o executivo, foi que a redução dos prêmios aconteceu justamente enquanto os indicadores de crédito pioravam.

"As empresas inadimplentes somaram 8,9 milhões em dezembro de 2025, avanço de 45% em relação ao fim de 2020. As recuperações judiciais também atingiram nível recorde. O investidor está recebendo menos prêmio em um momento em que o risco de crédito aumentou", afirma Furuie.

Nos últimos meses, contudo, parte dessa distorção começou a ser corrigida. Os spreads das debêntures abriram novamente, especialmente após episódios de estresse envolvendo grandes emissores e uma onda de resgates em fundos de crédito.

Por que os FIDCs estão ganhando espaço

Em meio a esse cenário, algumas gestoras passaram aaumentar sua exposição a FIDCs. Na Franklin Templeton Brasil, por exemplo, Adriano Casarotto, gestor de crédito da casa, explicou que a decisão começou ainda no fim de 2024, quando a equipe avaliou que as debêntures já não remuneravam adequadamente o risco.

"Os spreads começaram a ficar tão baixos que, do nosso ponto de vista, já não compensava mais investir", afirma. A solução encontrada foi direcionar parte da carteira para os fundos de investimento em direto creditórios.

"Você pega um FIDC de automóveis ou consignado pagando entre 0,8% e 1% de spread, enquanto uma debênture de prazo semelhante está em 0,5% ou 0,6%. Além disso, ele tem mais proteção", diz. A principal diferença, segundo o gestor, está na estrutura.

Enquanto uma debênture depende da capacidade de pagamento de uma única empresa, os FIDCs costumam reunir centenas ou milhares de recebíveis. Além disso, possuem diferentes classes de cotas, criando uma camada de proteção para os investidores das cotas seniores.

"Quando há aumento da inadimplência, a perda atinge primeiro as cotas subordinadas. Existe um colchão de proteção muito maior. É muito difícil que um problema chegue até a cota sênior em um fundo bem estruturado", afirma Casarotto. O diretor gestor de renda fixa abertos da Valora Investimentos acrescenta que a pulverização do risco também ajuda.

"Os FIDCs conseguem combinar retorno, estrutura e proteção de forma bastante eficiente. Quando o fundo é bem estruturado, com gestor experiente e carteira pulverizada, ele tende a atravessar melhor períodos de maior aversão ao risco", diz Mendonça.

Selic alta por mais tempo muda a lógica do mercado

A manutenção dos juros em níveis elevados também altera a dinâmica de risco das empresas. Segundo Casarotto, a expectativa de uma queda mais intensa da Selic ajudava a sustentar uma visão mais otimista sobre o crédito corporativo. Mas esse cenário mudou.

No último Boletim Focus, divulgado nesta segunda, 22, os analistas do mercado aumentaram a expectativa para a Selic de 13,75% para 14% até o final deste ano.

"O mercado hoje está praticamente travado próximo dos níveis atuais. Isso torna mais difícil para as empresas carregarem suas despesas financeiras e melhora menos do que o esperado os indicadores de cobertura da dívida", diz o gestor de crédito da Franklin Templeton Brasil.

Furuie observa que esse efeito já aparece nos balanços. Segundo seus cálculos, a relação entre despesa financeira e receita líquida das companhias abertas chegou a 9,4% em 2024, contra 6,5% em 2019. "O próximo ciclo da renda fixa deve ser menos orientado pela busca genérica por CDI+ e mais pela qualidade estrutural do risco", afirma.

Vale a pena correr o risco do crédito privado?

Com a perspectiva de que a taxa básica de juros siga mais alta e por mais tempo, as taxas de títulos públicos têm alcançado nas últimas semanas níveis historicamente elevados. O papel do Tesouro IPCA+ 2032 estápagando uma quase 9% de rendimento, a maior desde a crise política no governo de Dilma Rousseff, em 2016. Assim, o investidor consegue obter retornos de dois dígitos sem assumir risco corporativo.

Ainda assim, Casarotto avalia que há espaço na carteira do investidor parao crédito privado, desde que ele entenda os riscos envolvidos. "No longo prazo, mesmo spreads pequenos fazem diferença. O crédito privado continua oferecendo um retorno adicional à taxa básica", diz o gestor.

A recomendação dos especialistas, contudo, é evitar concentração excessiva e privilegiar a gestão profissional, uma preocupação que vai além do risco financeiro. Para Daniel Magalhães, fundador da Vitrify, plataforma de dados e observância de crédito privado no Brasil, existe um problema estrutural de acesso à informação no mercado brasileiro.

"Democratizamos o crédito privado. Esquecemos de democratizar a informação". Segundo Magalhães, a expansão acelerada do setor levou milhões de investidores pessoas físicas para ativos como debêntures, CRIs e CRAs, títulos de crédito privado emitidos por securitizadoras, sem que houvesse uma infraestrutura adequada para acompanhar riscos, reestruturações e assembleias de credores.

"Quando uma empresa chega à reestruturação, quem tem equipe, acesso antecipado às informações e poder de barganha senta à mesa e negocia. Quem não tem aceita o que sobra", afirma o fundador da Vitrify.

Por isso, Magalhães defende que a proteção do investidor não está apenas na diversificação, mas também no acesso a gestão especializada e acompanhamento contínuo dos ativos.

"O acesso do investidor pessoa física ao crédito privado direto merece uma conversa honesta: num mercado em que a reestruturação é cada vez mais parte do ciclo, a proteção real vem da gestão profissional, não da ilusão de que diversificar entre dez emissores é o suficiente";

A conclusão dos especialistas é que o investidor não precisa abandonar o crédito privado. Mas, com a Selic acima de 14% e sem perspectiva de queda rápida, o jogo deixou de ser apenas buscar retorno. Agora, a vantagem está em selecionar melhor os riscos e, de preferência, fazer isso por meio de estruturas capazes de absorver choques antes que eles cheguem ao patrimônio do investidor.

AutorClara Assunção
FonteExame
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