Selic de volta a 15%? O que a movimentação recente da curva de juros diz sobre as próximas decisões do BC

“Recalculando a rota”. É assim que gestores e analistas ouvidos pelo Money Times definem a mudança nas posições do mercado para a trajetória da taxa básica de juros (Selic) nas últimas semanas.
Entre o início do mês e a última quinta-feira (11), as taxas dos contratos de Depósitos Interfinanceiros (DIs) renovaram as máximas do ano após o mercado passar a considerar a manutenção da Selic em 14,50% ao ano na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para quarta-feira (17). O movimento reforçou a leitura de juros elevados por mais tempo.
Segundo os especialistas, a mudança na curva de juros foi resultado de uma combinação entre um movimento técnico do mercado, após uma onda de reprecificação dos ativos, e a deterioração dos fundamentos domésticos em meio às incertezas geopolíticas.
Antes de prosseguir, um esclarecimento: as posições dos investidores no mercado para os juros nem sempre coincidem com as projeções dos economistas. O preço dos títulos em contratos na B3 como os DIs futuros e opções de Copom indicam onde o mercado está efetivamente colocando dinheiro.
“A curva de juros embute um prêmio de risco para montar posições diferentes dos cenários estimados pelos economistas. Hoje, eu enxergo que 70% do movimento recente da curva de juros tem origem técnica, com os players zerando posições”, afirmou o gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos, em entrevista ao Money Times.
“Os outros 30% do movimento recente devem-se à piora dos fundamentos, principalmente à deterioração das expectativas de inflação”, acrescentou.
O conflito no Oriente Médio também pesou sobre as taxas dos contratos de DIs.
“O conflito impacta energia, combustíveis e contamina os demais itens da inflação. Quando olhamos para os números recentes, o cenário é crítico. Os dois cortes promovidos pelo BC, segundo a própria autoridade monetária, foram feitos pelo nível excessivamente restritivo do juro básico, mesmo com a deterioração do cenário”, afirmou o chefe de estratégia macro e de dívida pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital.
Já para Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, a mudança foi repentina, mas não necessariamente rápida. “O mercado hoje trabalha com dúvidas sobre os efeitos da guerra [no Oriente Médio] sobre inflação e câmbio”, afirmou.
Melhora recente
Entre a última quinta-feira (11) e a sexta-feira (12), porém, a curva de juros futuros voltou a apontar a possibilidade de um novo corte da taxa básica nesta semana, acompanhando a melhora do humor dos investidores e a retomada do otimismo em relação a um possível acordo entre Estados Unidos e Irã – firmado na noite de domingo (14).
Na data, a curva passou a precificar cerca de 15 pontos-base de corte na próxima decisão do Copom. Na prática, isso significa que um corte de 0,25 ponto percentual voltou a ganhar espaço entre as apostas do mercado.
O movimento também foi observado no mercado de opções da B3. Na atualização da última quarta-feira (10), a probabilidade de manutenção da Selic em 14,50% ao ano encerrou o dia em 68%, ante 32% para um corte a 14,25% ao ano.
No dia seguinte, a aposta majoritária se inverteu: a chance de um novo ajuste para baixo de 0,25 ponto percentual subiu para 49%, enquanto a probabilidade de manutenção da Selic caiu para 44% ao fim do pregão.
Credibilidade do BC em jogo
Com a recente movimentação da curva de juros, a decisão do Copom ganhou um componente adicional: a credibilidade do Banco Central diante da deterioração das expectativas de inflação.
Para Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, o principal desafio da autoridade monetária não está apenas nos dados correntes da economia, mas na necessidade de reafirmar o compromisso com a meta de inflação, hoje de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
Segundo ele, choques temporários de oferta normalmente não exigem resposta da política monetária. Contudo, o “problema” surge quando os choques passam a contaminar as expectativas de inflação para horizontes mais longos.
“Quando um choque de oferta mexe na expectativa de inflação até 2028, o que está em questão é a credibilidade do Banco Central cumprir o mandato”, afirmou.
Na avaliação do economista, um eventual corte de 0,25 ponto percentual na Selic na próxima quarta-feira poderia ser interpretado como uma sinalização de afrouxamento justamente em um momento de aumento dos riscos inflacionários. Caso o cenário piore, o BC poderia ser obrigado a reverter rapidamente a estratégia e até mesmo retomar o ciclo de alta de juros.
Por outro lado, a manutenção da taxa básica permitiria ao Copom adotar uma postura mais cautelosa, interrompendo o ciclo de cortes sem comprometer sua capacidade de reação caso as condições econômicas se deteriorem.
“Hoje, a credibilidade está em jogo”, disse o economista. Para ele, o cenário mais provável é que o Banco Central mantenha a Selic inalterada na próxima reunião.
Para Vital, da Warren, ainda é cedo para uma mudança mais significativa de cenário. A casa projeta a Selic em 14,25% ao ano ao fim de 2026.
BC vai elevar os juros à frente?
Na semana passada, a curva de juros chegou a precificar uma Selic acima de 15% ao ano. Isso, porém, não significa necessariamente que o mercado espere uma nova alta dos juros nos próximos meses.
Segundo Vital, parte relevante desse movimento reflete o aumento do prêmio de risco exigido pelos investidores diante da volatilidade dos mercados.
“Quando os investidores zeram posições em DI, fazem isso com o preço que aparece na tela, mas eles não acreditam que a Selic terminará 2026 em 15%. Ou seja, o número não significa que os agentes necessariamente esperam esse cenário, mas que existe um componente importante de prêmio de risco, uma vez que o mercado está bastante volátil”, explicou.
O estrategista descarta, por ora, uma alta da Selic, já que os juros permanecem em níveis restritivos. A visão é compartilhada por Igor Campos, da Armor Capital.
“Quando olhamos para as condições macroeconômicas que levaram o Copom a elevar a Selic para 15% no ano passado e rodamos cenários nos modelos do BC, enxergamos como altamente improvável que o próximo movimento da Selic seja de alta”, afirmou.
Ainda assim, os especialistas ouvidos pelo Money Times destacam que alguns fatores podem dificultar a condução da política monetária ao longo do ano, como os programas de estímulo à economia.
A possibilidade de retomada do ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos também entrou no radar dos investidores. Na última sexta-feira, a ferramenta FedWatch, do CME Group, apontava 64,1% de probabilidade de o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) elevar a taxa de juros em dezembro. Atualmente, a taxa está entre 3,50% e 3,75% ao ano.
Para Vital, da Warren, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) deve adotar uma postura mais conservadora diante da inflação ainda acima da meta de 2%.
“Isso faz com que o banco central dos EUA volte a monitorar a inflação com mais atenção, uma vez que os preços de energia e combustíveis estão bastante pressionados. Além disso, a curva de juros americana já precifica uma alta da taxa”, afirmou.
É hora de o Tesouro intervir?
Apesar da alta recente das taxas dos DIs, os especialistas não veem necessidade de uma nova intervenção do Tesouro Nacional no mercado de títulos públicos, como ocorreu em março.
Segundo Vital, o nível dos DIs está cerca de 30 pontos-base acima do observado em meados de março, quando o Tesouro realizou uma intervenção recorde de R$ 50 bilhões.
Contudo, o estrategista avalia que o cenário mudou desde então. “Antes, os investidores estavam muito posicionados esperando um ciclo de corte de juros, então o mercado estava de forma geral aplicado”, afirmou Vital, citando que tal movimento criou uma disfunção no mercado, e a intervenção do Tesouro “enxugou” o excesso de venda de títulos para trazer de volta a “normalidade”.
“Agora, também estamos passando por uma reprecificação, é mais um ‘recalculando a rota’. Ele acontece com o mercado menos posicionado e assumindo menos riscos. Então, a necessidade de uma atuação do Tesouro para estabilizar o mercado de títulos públicos diminui”, diz Vital.
“Entendo que não é pelo nível da curva de juros, mas, sim, pelo posicionamento do mercado ou pelo funcionamento do mercado secundário. É um conjunto de fatores que explicam a intervenção do Tesouro em março, e não hoje.”
Com isso, o chefe de estratégia macro e de dívida pública da Warren avalia que o Tesouro deve enfrentar dificuldades para colocar prefixados e índices de preços, tendendo a emitir mais Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), também conhecido como Tesouro Selic – o que já foi observado nas últimas semanas.
