Selic só deve voltar a cair após El Niño e alívio do petróleo, diz economista

O cenário global de juros elevados e inflação persistente não deve ser um fenômeno passageiro. Na avaliação de Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset Management, da Franklin Templeton Brasil, o mundo entrou em um novo regime econômico, marcado por maior protecionismo, expansão fiscal permanente, investimentos bilionários em inteligência artificial e mudanças estruturais que tornam mais difícil o retorno ao ambiente de juros baixos que predominou na década passada.
Em conversa com jornalistas promovida pela Franklin Templeton Brasil, Lima afirmou que esse novo contexto também muda a dinâmica da política monetária no Brasil e nos Estados Unidos.
Para ele, o Federal Reserve (Fed) pode voltar a elevar os juros ainda neste ano, enquanto o Banco Central brasileiro deve interromper o ciclo de cortes da Selic após a redução para 14,25%, a terceira do ano, retomando a flexibilização apenas quando os efeitos inflacionários da alta do petróleo e do fenômeno El Niño perderem força.
"O mundo que a gente vive hoje é muito diferente daquele da década passada, de juros zero, liquidez abundante e inflação baixa", afirmou.
Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, mas reforçou na ata divulgada nesta terça, 23, que oambiente de expectativas desancoradas exige juros elevados por mais tempo.
Na avaliação do economista, a comunicação do Banco Central ficou inconsistente. "A ata parecia muito mais compatível com uma pausa do que com uma nova queda de juros".
Lima afirma que o cenário atual combina atividade econômica mais forte, consumo acelerando, estímulos fiscais elevados e inflação ainda pressionada, fatores que não justificariam novos cortes imediatos. "O Banco Central revisou para cima o crescimento do consumo das famílias. Isso é demanda. Não combina com novas quedas de juros agora".
Segundo o economista, a retomada da flexibilização dependerá principalmente da dissipação dos choques temporários. "Quando os efeitos do El Niño e do petróleo passarem, aí sim pode haver espaço para voltar a discutir cortes."
Mesmo assim, ele acredita que esse movimento será limitado caso o governo não enfrente o desequilíbrio fiscal. "O espaço para queda de juros no Brasil vai ser dado pela dinâmica fiscal. Se ela não mudar, o Banco Central vai continuar fazendo sozinho todo o trabalho de controlar a inflação".
Economista fala em 'brasileirização' das economias desenvolvidas
Na avaliação de Lima, o aumento dos déficits públicos, da inflação persistente e dos juros estruturalmente mais elevados, porém, vem aproximando economias desenvolvidas de características historicamente associadas a mercados emergentes. Ele chama esse fenômeno de uma "brasileirização" das economias centrais.
"O mundo está passando por um processo de brasileirização". Segundo o economista, essa mudança aparece também nas curvas de juros de longo prazo. Países como Japão, durante décadas símbolo de juros próximos de zero, passaram a apresentar prêmios mais elevados para financiamentos longos, refletindo maior percepção de risco fiscal e inflação mais persistente.
Uma mudança provocada pela pandemia de Covid-19, que acelerou uma mudança estrutural que já começava a ganhar força com o aumento das tarifas comerciais e da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, na avaliação economista. A busca por cadeias produtivas mais resilientes estimulou processos dereindustrialização e de nacionalização da produção, reduzindo a eficiência da economia global.
"Você sai de um mundo que buscava máxima produtividade e especialização para outro mais ineficiente. Isso tende a gerar mais inflação por mais tempo".
Ao mesmo tempo, governos passaram a recorrer a políticas fiscais expansionistas. Primeiro, durante a pandemia. Depois, com os subsídios ligados à crise energética provocada pela guerra entre Rússia e Ucrânia. Uma expansão de gastos públicos que está longe de ser revertida, segundo Lima.
"Os governos gostaram de gastar e se sentem mais à vontade para gastar. Esse problema fiscal ainda está longe de ser equacionado globalmente".
Fed pode voltar a subir juros neste ano
Nesse ambiente, Adauto avalia que o mercado ainda subestima a possibilidade de o Fed voltar a elevar os juros.
Sua avaliação ocorre poucos dias depois da primeira reunião comandada por Kevin Warsh à frente do banco central americano. Emborao Fed tenha mantido os juros entre 3,50% e 3,75%, o chamado dot plot mostrou que a maioria dos dirigentes passou a projetar novas altas até o fim de 2026, reforçando a leitura de um banco central mais preocupado com a inflação.
"A probabilidade de alta de juros nos Estados Unidos hoje me parece maior do que a probabilidade de corte".
O economista da Western Asset Management, da Franklin Templeton Brasil, pondera que ainda não é possível afirmar que essa elevação ocorrerá já na próxima reunião, principalmente porque Warsh abandonou o forward guidance e tem adotado uma comunicação mais enxuta. "Existe uma chance de alta ainda neste ano. O momento é que ainda não está claro."
Caso o aperto aconteça, Adauto acredita que ele será gradual. "Não vejo um cenário como 2022. Se houver alta, ela deve acontecer em passos de 0,25 ponto percentual". Naquele ano, o fed funds saiu do patamar próximo de zero (0% - 0,25%) e fechou o ano de 2022 na faixa entre 4,25% e 4,50% ao ano.
Na visão dele, diferentemente do choque inflacionário pós-pandemia, a pressão atual decorre principalmente da expansão da demanda e dos investimentos, e não de um descontrole generalizado dos preços.
