Sem aparições desde fevereiro, comunicação com Aiatolá é 'muito difícil', diz presidente do Irã
Mojtaba Khamenei é filho do líder supremo anterior, que ocupava o cargo até ser morto por ataques dos Estados Unidos e Israel, ocasião em que o sucessor também ficou ferido

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou nesta quarta-feira, 5, que a comunicação com Mojtaba Khamenei, o líder supremo do país, é "muito difícil neste momento". Mojtaba é filho de Ali Khamenei, que ocupava o cargo até ser morto por ataques dos Estados Unidos e Israel no dia 28 de fevereiro, ocasião em que o sucessor também ficou ferido. Desde o início da guerra no país, o líder político-religioso não faz aparições públicas ou é visto material audiovisual.
"É muito difícil se comunicar com ele neste momento, mas, de qualquer forma, sua presença é uma fonte muito grande de força para nós, que nos permite seguir em frente", disse Pezeshkian durante um discurso televisionado.
OAiatolá apenas se comunica por escrito, não tendo comparecido nem no funeral de Ali Khamenei no mês passado.
O presidente iraniano, porém, afirmou que manteve reuniões produtivas com Mojtaba, destacou a cordialidade com que foi recebido e disse que suas posições seguem uma "lógica muito sólida". "Infelizmente, a situação atual leva algumas pessoas mal-intencionadas a apresentá-lo sob uma perspectiva diferente e a transmitir uma imagem distorcida dele", afirmou.
Quem é Mojtaba Khamenei?
Após alguns dias de especulação interna e internacional, seu filho, Mojtaba Khamenei, foi selecionado para substituir o pai em uma escolha controversa, já que a transferência de cargos de poder de forma hereditária é normalmente algo que contradiz princípios morais Xiitas, a escola islâmica que é maioria no Irã.
A escolha desafia os EUA em mais de um sentido – por um lado, a queda do regime, hostil aos Estados Unidos e aosseus aliados, como Israel, é um ponto de contestação central por trás dos ataques.
Com a nova liderança tão rapidamente apontada, os líderes clericais do Irã não demonstram flexibilidade para acatar às demandas americanas, em um desdobramento que pode aumentar a duração da guerra. Além disso, a escolha do filho direto de Khamenei carrega peso simbólico, e, juntamente com o bloqueio no estreito de Ormuz, contribuiu para uma disparada nos preços do petróleo, piorandouma crise energética global cada vez mais intensa.
O presidente americano, Donald Trump, já expressou seu “desapontamento” com a nova escolha, dizendo para o jornal americano Fox News que ele “não acredita que [Mojtaba Khamenei] possa viver em paz”.
Nesta sexta-feira, 13, o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que Khamenei está ferido e “provavelmente desfigurado”. Ele não apresentou provas e não houve manifestação iraniana até o fechamento desta reportagem.
Com 56 anos, o novo líder é o terceiro a ocupar o cargo desde a revolução islâmica em 1979, e herda a responsabilidade de liderar um país com 90 milhões de pessoas fragmentado, economicamente frágil, e no epicentro de uma guerra que já engloba grande parte do Oriente Médio – aqui vão algumas das principais características do perfil de Mojtaba Khamenei, novo líder do Irã.
Mais linha dura do que seu pai – laços com as IRGC
Estudantes iranianos em uniformes militares e membros da força paramilitar Basij (parte das IRGC) carregam bandeiras iranianas enquanto participam de um comício militar no centro de Teerã (Getty Images) (Getty Images)
Conhecido por ter fortes laços com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês), uma espécie de exército paralelo ao oficial, altamente conectado com o governo, e com considerável influência política, Mojtaba é uma figura notavelmente mais bem conectada em seu próprio ambiente político e social, principalmente em questões de segurança, do que seu pai.
Essa conexão pode ter cumprido um papel importante em sua seleção – o jornal CNBC apura que, sem o apoio da guarda, Mojtaba não teria sido capaz de substituir seu pai, pois enfrentava outros candidatos igualmente conectados, incluindo pessoas com cargos sêniores dentro do clero.
Seus laços com as IRGC remontam ao fim da década de 1980, quando Mojtaba serviu nos últimos anos de um violento conflito contra o Iraque. Além disso, depois da guerra, estudou com clérigos famosos na cidade sagrada de Qom, um dos lugares de maior significado espiritual no islã Xiita. Mesmo assim, não tem nenhum papel tradicional dentro do estabelecimento religioso.
Ele se aprofundou ainda mais no conservadorismo político e clerical do país ao se casar com Zahra Haddad-Adel, a filha de um importante político conservador iraniano, Gholam-Ali Haddad Adel. Casados desde 1999, Zahra foi morta nos ataques conjuntos dos EUA e Israel, juntamente com seu sogro, Ali Khamenei, no dia 28 de fevereiro desse ano.
São seus laços às IRGC e à ala conservadora na política religiosa do país, considerados por muitos ainda mais profundos do que os de seu pai, que cementaram sua reputação como uma figura particularmente linha dura, mesmo em um cenário notório por seu conservadorismo como o Irã – foi uma das figuras principais identificadas como orquestrando a brutal repressão ao Movimento Verde de 2009, até então a maior onda de protestos desde a revolução islâmica de 1979.
Estimativas para o número de mortos são variadas, mas flutuam entre 30 e 80 mortes.
