Sem seguro, agro corre risco de reduzir investimentos, diz Sociedade Rural Brasileira

O agronegócio brasileiro vive um momento de forte pressão financeira e pode começar a reduzir investimentos em tecnologia e produtividade caso não haja medidas de apoio ao setor. O alerta é de Sergio Bortolozzo, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB).
Embora rejeite o termo 'crise', o dirigente afirma que os produtores enfrentam uma combinação de fatores que compromete a rentabilidade da atividade.
"Não posso dizer que é crise, mas estamos em dificuldade. Perdemos capacidade de pagamento principalmente por causa do crédito caro, dos custos elevados e dos preços baixos das commodities", afirmou.
Uma combinação de fatores de cinco anos para cá levou a esse contexto, como a queda no preço das commodities e a alta na produção, enquanto os produtores fizeram grandes investimentos — mas o principal é o aumento dos custos, especialmente dos fertilizantes. Como o Brasil importa cerca de 85% desses insumos, a valorização média do dólar nos últimos anos ampliou essa pressão.
Um estudo da Universidade de Purdue, nos EUA, com fazendas-modelo em Mato Grosso — principal estado produtor —, mostra que os custos totais cresceram 96%, passando de 172 dólares para 337 dólares por tonelada de 2021 a 2025.
No mesmo período, a produção brasileira de soja cresceu 40%, em razão de melhor produtividade e da forte demanda internacional, especialmente da China, principal compradora do grão brasileiro. As margens caem desde 2021/2022 e, na atual safra, devem atingir 3,9% — eram 55,6% em 2020, mostram dados da Cogo Consultoria.
Segundo Bortolozzo, muitos produtores já operam no limite financeiro. Em sua avaliação, aqueles que conseguem manter alta produtividade apenas empatam as contas, enquanto qualquer quebra de safra ou problema climático pode levar ao endividamento.
El Niño no agro
A preocupação aumenta diante da possibilidade de um novo episódio de El Niño nos próximos meses e da baixa cobertura do seguro rural no país. Atualmente, apenas cerca de 3% da área agrícola brasileira possui cobertura securitária, segundo dados apresentados por Bortolozzo.
A SRB defende a ampliação dos recursos destinados à subvenção do seguro rural. No ano passado, o setor solicitou R$ 4 bilhões para o programa, mas recebeu R$ 1 bilhão, dos quais parte ainda foi contingenciada pelo governo.
"Hoje, para você ter uma ideia, apenas 3% da área plantada está segurada", afirmou.
Na avaliação da entidade, a falta de proteção financeira pode agravar os efeitos dos eventos climáticos extremos, que têm se tornado mais frequentes no país.
"O maior problema é que o pequeno produtor perde a safra e perde o patrimônio. Sem seguro, ele praticamente sai da atividade", disse.
Para Bortolozzo, o governo precisa tratar o seguro rural como política de estado e ampliar os recursos destinados ao programa para evitar impactos futuros sobre a produção, o emprego e a inflação de alimentos.
"Se o produtor começar a reduzir tecnologia, adubar menos ou plantar menos, lá na frente teremos queda de produção, pressão inflacionária e perda de competitividade", afirmou.
