Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
TecnologiaBDR
04/09/2026
10 min

Sem Tim Cook no comando, como fica a Apple na China?

Com a saída de Tim Cook, John Ternus assume a Apple diante de tensões geopolíticas entre EUA e China e a dependência dos chips de Taiwan

Sem Tim Cook no comando, como fica a Apple na China?

Entre números e planilhas, em seus quinze anos como CEO da Apple, Tim Cook ficou conhecido como um diplomata, capaz de agradar a chineses e americanos.

Agora, essa tarefa recai sobre John Ternus, que assumiu o comando da empresa na terça-feira, 1º — justamente no momento em que as tensões comerciais entre Estados Unidos e China voltaram a se intensificar, e a Apple tenta reduzir, ainda sem sucesso total, sua dependência histórica da manufatura chinesa.

Ao longo da gestão, Cook cultivou relações pessoais tanto com o presidente chinês Xi Jinping quanto com Donald Trump — dois líderes com objetivos conflitantes entre si, mas convergentes quando o assunto é Apple. Ambos querem mais investimento da empresa em solo próprio.

Cook respondeu aos dois lados com a mesma fórmula, elogiando publicamente as prioridades de cada governo. Em 2024, disse ao jornal estatal China Daily que apoiava a doutrina econômica de Xi batizada de "novas forças produtivas de qualidade" — a aposta chinesa em liderar setores como semicondutores, inteligência artificial (IA) e manufatura avançada —, chamando-a de "essencial" e "o futuro".

Do lado americano, Cook também investiu na proximidade com Trump. Em agosto do ano passado, presenteou o presidente com uma placa comemorativa banhada a ouro, celebrando o programa de manufatura americana da Apple, no mesmo momento em que anunciava um investimento adicional de US$ 100 bilhões em produção doméstica.

Relatos da época afirmam que Cook chegou a ligar pessoalmente para Trump para resolver o que o próprio presidente descreveu como um "problema bastante grande" — provavelmente relacionado às tarifas amplas impostas pelo governo americano sobre produtos fabricados na China.

A aposta em relação pessoal parece ter funcionado e, em abril de 2025, Trump isentou telefones, computadores e chips das tarifas mais amplas contra a China, ainda que tenha seguido pressionando a Apple a trazer mais produção para os Estados Unidos.

Em maio deste ano, Cook chegou a integrar a comitiva de cerca de uma dezena de executivos americanos que acompanharam Trump em viagem a Pequim — a primeira visita de um presidente americano em exercício à China em quase uma década —, reforçando o compromisso da Apple de seguir investindo no país, segundo resumo oficial divulgado pelo governo chinês após reunião de Cook com o ministro da indústria chinês, Li Lecheng.

Uma dependência de fábrica que remonta ao ano 2000

A relação da Apple com a China não é recente e nasceu de uma decisão estratégica do próprio Cook, tomada ainda antes de ele se tornar CEO. Segundo o livro "Apple in China: The Capture of the World's Greatest Company", em 1999, nenhum produto da Apple era fabricado na China continental; uma década depois, em 2009, praticamente todos já eram produzidos lá.

Foi Terry Gou, fundador da fabricante taiwanesa Foxconn (então Hon Hai), quem ligou pessoalmente para Cook, recém-contratado como chefe de operações da Apple, oferecendo-se para produzir os computadores iMac por US$ 40 a menos por unidade e prometendo erguer fábricas em três continentes. Foi o início de uma parceria que, ao longo de mais de duas décadas, transformou a montagem de iPhones em uma operação concentrada em enormes complexos fabris chineses, entre eles o famoso campus de Zhengzhou.

A China, que a Apple via inicialmente apenas como base barata de manufatura para exportação, também se transformou em um mercado consumidor gigantesco por conta própria.

A receita da empresa no país saltou de menos de US$ 1 bilhão em 2008 — ano em que a Apple abriu sua primeira loja física chinesa, durante as Olimpíadas de Pequim — para quase US$ 23 bilhões em 2012, um crescimento que surpreendeu a própria diretoria em Cupertino.

Hoje, a maior parte do hardware da Apple ainda é fabricada em território chinês, o que torna qualquer deterioração na relação entre Washington e Pequim, ou qualquer escalada tarifária, uma ameaça direta à cadeia de suprimentos e às margens da empresa.

Um dos pilares da estratégia que Cook construiu na China, segundo o livro, foi o que passou a ser chamado de "aperto da Apple".

A empresa nunca foi proprietária de nenhuma fábrica chinesa, mas exerceu controle quase absoluto sobre elas. Engenheiros e designers da Apple viajavam constantemente ao país para treinar exércitos de operários locais e desenhar processos de produção junto com os parceiros.

A companhia também comprou bilhões de dólares em maquinário industrial complexo, instalado diretamente nas fábricas de fornecedores.

Em troca de volumes gigantescos de pedidos, esses parceiros aceitavam operar com margens de lucro quase nulas — mas ganhavam, em contrapartida, conhecimento técnico difícil de replicar, que os transformou em líderes globais de manufatura.

Some-se a isso o peso do mercado consumidor: a China é o maior mercado da Apple fora dos Estados Unidos, o que torna a relação política entre os dois países uma variável comercial que nenhum CEO da empresa pode se dar ao luxo de ignorar.

Da crise de imagem de 2013 ao acordo secreto

Nem toda a relação de Cook com a China foi tranquila.

Em março de 2013, logo após a posse de Xi Jinping como presidente, a emissora estatal CCTV lançou uma campanha coordenada acusando a Apple de tratar consumidores chineses com arrogância e desigualdade nas políticas de garantia.

Uma resposta inicial mais defensiva só intensificou os ataques da mídia estatal e derrubou as vendas da empresa no país. Cook mudou de estratégia e escreveu uma carta pública de desculpas em mandarim, reconheceu falhas de comunicação e alterou a política de garantia local a favor dos consumidores chineses.

O episódio expôs, segundo o livro, que a Apple dependia inteiramente de parceiros como a Foxconn para lidar com governos locais, sem estratégia política própria.

A resposta foi a criação, entre 2013 e 2014, do chamado "Gang of Eight" — um grupo de diretores dedicado a assuntos governamentais, relações públicas e política regulatória, encarregado de mapear o cenário político chinês e evitar novos atritos com autoridades.

Em maio de 2016, diante da desaceleração das vendas no país e do fechamento abrupto do iBooks e do iTunes pelas autoridades chinesas, Cook viajou a Pequim e assinou um memorando secreto de US$ 275 bilhões com o governo chinês, prometendo investimentos massivos na economia local ao longo de cinco anos em troca de estabilidade regulatória — um acordo estruturado, segundo o livro, para mostrar como a Apple apoiava a agenda de "inovação indígena" do governo chinês e o plano industrial "Made in China 2025".

No mesmo ano, Cook investiu US$ 1 bilhão na Didi Chuxing, principal aplicativo chinês de transporte — movimento que, segundo o livro, funcionou como uma espécie de "proteção burocrática", garantindo à Apple guanxi (relações políticas de proximidade) com figuras influentes ligadas ao Estado chinês, aproximando a empresa do círculo do próprio partido.

Para agradar Pequim e reduzir custos operacionais, Cook também incentivou a substituição gradual de fornecedores tradicionais — taiwaneses, japoneses e americanos — por empresas nativas da China continental.

Fabricantes locais como a Luxshare, hoje responsável por montar AirPods e iPhones, além de BYD e Goertek, ganharam espaço crescente na cadeia de suprimentos da Apple, incentivados pelo próprio governo chinês com concessão de terras e aprovações regulatórias mais rápidas — superando, em representatividade, rivais tradicionais de Taiwan.

Concessões e censura como preço da permanência

A camada mais controversa dessa estratégia, segundo o livro, foi a conformidade praticamente irrestrita da Apple às exigências de censura do Partido Comunista Chinês, como forma de preservar fábricas e acesso ao mercado local.

Sob a gestão de Cook, a empresa retirou milhares de aplicativos da App Store chinesa por exigência do governo, incluindo ferramentas de VPN e o próprio aplicativo do jornal The New York Times.

A Apple também aceitou armazenar as chaves de criptografia e os dados do iCloud de cidadãos chineses em um data center em Guizhou, operado em parceria com uma estatal chinesa, e chegou a limitar o recurso AirDrop no país durante os protestos de 2022 contra os lockdowns da covid-19 — uma medida que dificultou a organização dos manifestantes.

Essa cooperação estreita fez a Apple prosperar financeiramente como nunca antes, mas também criou uma dependência que se tornou, segundo analistas, uma das maiores vulnerabilidades geopolíticas da história corporativa recente.

Taiwan: o outro lado da equação geopolítica

Se a China concentra a montagem final dos produtos, é em Taiwan que está o elo mais crítico e insubstituível da cadeia de suprimentos da Apple: a fabricação dos próprios chips.

Praticamente todo o processamento avançado da empresa — os chips das linhas A (usados em iPhones) e M (usados em Macs e iPads) — é produzido pela taiwanesa TSMC, a maior fabricante de semicondutores por contrato do mundo.

A Apple garantiu, para 2026, mais da metade de toda a capacidade de produção da TSMC no processo de 2 nanômetros (nm) — o mais avançado disponível atualmente —, um movimento estratégico que lhe dá vantagem competitiva sobre concorrentes, mas também aprofunda a dependência da ilha.

Essa concentração geográfica é, segundo analistas do setor, o "elefante na sala" da estratégia de semicondutores da Apple, já praticamente toda a produção de chips de ponta da empresa acontece numa única ilha a cerca de 160 quilômetros do território continental chinês — justamente a área que a China reivindica como sua e sobre a qual mantém pressão militar e política constante.

A Apple já vem tentando diversificar essa exposição.

A TSMC opera uma fábrica em construção no Arizona, nos Estados Unidos, que já produz o chip A16 usado no iPhone 15 e no iPad de entrada, além do chip S9 do Apple Watch.

Mas, segundo analistas do setor, a produção americana ainda responde por menos de 5% da capacidade de ponta da empresa, e não deve reduzir de forma significativa a dependência de Taiwan antes de 2028 — mesmo com um plano de investimento de dezenas de bilhões de dólares em curso na unidade americana.

A Apple também explorou, mais recentemente, conversas preliminares com Intel e Samsung para diversificar ainda mais essa produção — parte de uma reorganização interna que unificou as áreas de engenharia de hardware e tecnologias de hardware da empresa sob um único executivo, Johny Srouji, hoje chief hardware officer da companhia.

Analistas taiwaneses, porém, avaliam que tanto a Intel quanto a Samsung ainda ficam atrás da TSMC em rendimento de produção e eficiência energética, o que deve manter a fabricante taiwanesa como parceira preferencial da Apple por bastante tempo, mesmo com a diversificação em curso.

Ternus assume sem histórico público na China

É nesse cenário de dependência dupla — de fabricação na China, de chips em Taiwan — que Ternus assume o comando da Apple.

E, segundo analistas, ele chega ao cargo sem qualquer histórico público de relação com a China: o comunicado da própria Apple anunciando sua nomeação não menciona nenhum mercado internacional específico associado a ele, e seu perfil no LinkedIn, descrito como extremamente enxuto, também não faz qualquer menção ao país.

"Gostaria de ver se o novo CEO consegue encantar tanto os consumidores chineses quanto os ministros do governo, assim como Tim Cook conseguiu", disse Bryan Ma, vice-presidente de pesquisa de dispositivos de cliente da consultoria IDC, ao South China Morning Post.

Segundo a IDC, a transição de comando representa "a mudança de liderança mais consequente no setor de tecnologia de consumo em anos" — justamente porque acontece em meio a desafios crescentes da Apple na China, hoje o terceiro maior mercado da empresa.

Ternus herda também um negócio chinês que já superou os anos mais difíceis recentes, mas que ainda carrega problemas relevantes. De um lado, uma Washington protecionista; do outro, uma Pequim sensível a qualquer sinal de distanciamento; no meio, um consumidor chinês que se tornou menos automaticamente fiel a marcas ocidentais do que costumava ser.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
Distribuído por