Sete em cada dez projetos empresariais de combate a incêndio têm erros graves
Dado interno da Zeus do Brasil aponta falhas recorrentes em projetos de proteção contra incêndio e acende alerta para a gestão de riscos nas empresas

O aumento dos incêndios estruturais registrados no Brasil recoloca a prevenção no centro da gestão de riscos corporativos. Em 2025, o Instituto Sprinkler Brasil contabilizou 2.447 ocorrências divulgadas pela imprensa, variação de 2% em relação ao ano anterior. O comércio — segmento que inclui lojas, supermercados e shopping centers — concentrou 495 casos. Os depósitos responderam por 288 registros, enquanto os incêndios em indústrias avançaram 6%.
Os números, porém, mostram apenas parte do cenário. Segundo o instituto, o monitoramento contempla menos de 3% das ocorrências reais, já que o país ainda não possui uma base nacional consolidada sobre incêndios estruturais. A ausência de informações abrangentes dificulta mensurar a dimensão do problema e evidencia um desafio recorrente: em muitas empresas, a prevenção continua sendo tratada como uma exigência legal, e não como uma decisão estratégica.
É justamente nesse ponto que a experiência prática do setor revela fragilidades que vão além das estatísticas. De acordo com Fábio Hoepers, diretor executivo da Zeus do Brasil, sete em cada dez projetos encaminhados para análise técnica da Sólida — empresa do grupo especializada em avaliação e validação de sistemas de proteção contra incêndio — apresentam erros graves de execução.
O indicador é interno e não representa a totalidade do mercado brasileiro, mas reflete uma realidade observada com frequência pela companhia, que atua há 35 anos no setor de prevenção e combate a incêndios. O grupo reúne operações voltadas à fabricação, importação, distribuição, desenvolvimento de projetos e análise técnica de soluções para proteção patrimonial e de vidas.
Segundo Hoepers, a principal percepção equivocada é acreditar que a simples presença de equipamentos garante segurança. Na prática, ter extintores, hidrantes, alarmes ou sprinklers instalados não significa que o sistema funcionará adequadamente em uma situação de emergência.
“O cliente muitas vezes não sabe, de verdade, o que está comprando”, afirma. Para ele, a contratação não deve se limitar ao preço dos equipamentos, mas considerar fatores como o risco da atividade, as características da edificação, a qualidade do projeto, a instalação, as certificações, a manutenção e a integração entre todos os sistemas de proteção.
Engenharia de risco
Para a Zeus, a prevenção contra incêndios deve ser tratada como um sistema integrado. Isso significa enxergar a proteção não como um conjunto de equipamentos isolados, mas como uma combinação de engenharia, conformidade normativa, logística e gestão de riscos.
Bombas, reservatórios, tubulações, alarmes, hidrantes, extintores e sprinklers precisam operar de forma coordenada. Um erro de dimensionamento pode comprometer pressão, vazão, alcance da água ou tempo de resposta. Em uma emergência, essa diferença pode determinar se o incêndio será controlado ainda no início ou se avançará sobre toda a operação.
A Lei Federal nº 13.425, de 2017, estabeleceu diretrizes gerais para prevenção e combate a incêndios em edificações, estabelecimentos e áreas de reunião de público. A aplicação prática dessas exigências, entretanto, depende de regulamentações estaduais, normas municipais e instruções específicas dos Corpos de Bombeiros.
Embora o cumprimento dessas regras seja obrigatório, ele não elimina, por si só, os riscos técnicos. Extintores e hidrantes dependem da ação humana para funcionar. Já sistemas automáticos, como os sprinklers, podem iniciar o combate ao fogo mesmo na ausência de pessoas no ambiente. A escolha e o dimensionamento de cada solução variam de acordo com o tipo de imóvel, sua ocupação e a atividade desenvolvida no local.
O custo de não prevenir
Na avaliação de Hoepers, muitas empresas ainda enxergam a prevenção como despesa. A comparação, porém, deveria considerar o impacto potencial de um incêndio sobre a continuidade do negócio. Além de colocar vidas em risco, um incidente pode destruir estoques, danificar equipamentos, interromper operações, afetar contratos e comprometer a capacidade de recuperação da empresa. “Preventivo é o seguro que você paga para não usar”, resume o executivo.
As seguradoras também passaram a ampliar o foco sobre esse tema. Embora a penetração do seguro empresarial ainda seja considerada baixa no país, o segmento vem crescendo. Dados da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), com base em informações da Superintendência de Seguros Privados (Susep), mostram que o seguro empresarial arrecadou R$ 4,3 bilhões em 2024, avanço de 11,5% em relação ao ano anterior. O desempenho reflete uma maior percepção dos riscos operacionais e patrimoniais por parte das empresas.
Hoepers destaca que as seguradoras analisam cada vez mais se as estruturas instaladas são efetivamente capazes de proteger pessoas, patrimônio e a continuidade das operações. Dependendo das condições encontradas, a contratação do seguro pode se tornar mais difícil ou mais onerosa.
“A prevenção precisa fazer parte da estratégia do negócio. Quando um incêndio acontece, o prejuízo não se limita ao patrimônio físico. Ele afeta pessoas, interrompe operações, compromete contratos e pode colocar em risco a própria continuidade da empresa. Investir em prevenção é investir na capacidade de a empresa seguir operando diante de situações críticas”, afirma.
