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Sacre Investimentos
InternacionalACS
02/11/2026
12 min

Seu salário, imóvel e investimentos têm o mesmo CEP, mas não deveriam — como começar a investir no exterior

Do primeiro aporte à escolha entre dólar puro e proteção cambial, passando por ETFs, contas no exterior e os impostos, um passo a passo para quem nunca tirou um real do Brasil

Seu salário, imóvel e investimentos têm o mesmo CEP, mas não deveriam — como começar a investir no exterior

Imagine um investidor de carteira bem montada: títulos do Tesouro, algumas ações, um fundo de crédito privado. Ele tem emprego com salário em reais, um apartamento financiado e a aposentadoria planejada para daqui a décadas. Parece diversificado, mas não é. Se o Brasil espirrar, todo esse patrimônio pega gripe junto. 

É esse retrato que Ian Caó, sócio fundador e CIO da Gama Investimentos, usa para explicar por que o investimento no exterior deixou de ser coisa de rico.  

"A vida da pessoa está 100% exposta ao Brasil: trabalho, imóveis, renda futura, tudo dependendo do Brasil", afirma Caó.  

Ampliar os investimentos para outras fronteiras não significa apenas reduzir essa concentração — também pode abrir acesso a oportunidades que não estão disponíveis no mercado local.  

É o que defende Renato Moritz, co-CEO da corretora norte-americana do BTG Pactual. “Existe de fato a oportunidade de ter exposição a teses de investimento que estão acessíveis hoje mais do que nunca para o investidor brasileiro, de qualquer magnitude de patrimônio”, diz. 

Por que olhar para fora 

O argumento é matemático, não uma aposta: diversificar as fontes de investimento pode gerar o mesmo retorno com menos risco — ou, melhor ainda, mais retorno. 

Um dos problemas do mercado local, segundo Caó, é a falta de profundidade. O Brasil tem títulos públicos, uma bolsa com poucas ações investíveis — de 100 a 150, concentradas nos setores bancário e de materiais — e o mercado de crédito privado. 

"Não tem Nvidia, e todas as fontes investíveis ficam sempre embaixo do risco-Brasil, ou seja, vão sofrer juntas", afirma.  

Nos EUA, o cenário é outro. Em um mercado muito mais profundo, dezenas de fatores influenciam os preços de maneiras diferentes. 

"Ao se expor aos EUA, o investidor tem acesso a novas teses de investimento, a novos setores e a tudo o que acontece com a IA [inteligência artificial]. O chamado é esse: participar de teses de investimento que não estão disponíveis na economia brasileira e podem ser acessadas com poucos cliques", diz Moritz, do BTG.  

Para explicar a importância de diversificar os investimentos para além do Brasil, a estrategista da XP Investimentos Rachel de Sá recorre a uma analogia empresarial: é como uma empresa que deixa de depender de um único cliente. 

Ao ampliar a atuação, ela passa a contar com diferentes fontes de resultado, o que reduz os riscos e aumenta as possibilidades de ganho.  

Sá lembra que o brasileiro costuma concentrar no País patrimônio, renda e obrigações financeiras, o que o deixa mais exposto a eventos domésticos. 

A diversificação na aversão ao risco  

Em momentos de maior aversão ao risco, como o visto na bolsa brasileira no pós-eleição, a volatilidade pode provocar desconforto e dúvidas sobre a carteira.  

Para Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, o episódio reforça a importância de internacionalizar parte do patrimônio — uma recomendação que não deve ser vista como reação pontual às eleições ou às turbulências recentes, mas como componente permanente de uma estratégia de preservação e crescimento patrimonial. 

"Mais do que buscar oportunidades em empresas e mercados estrangeiros, essa diversificação permite incorporar moedas fortes, especialmente o dólar, à composição patrimonial, criando uma camada adicional de proteção diante de episódios de instabilidade doméstica", afirma.  

Como exemplo, Caó, da Gama Investimentos, chama atenção para um dado importante: mesmo com um mercado profundo, os investidores norte-americanos mantêm cerca de 20% de seus investimentos fora do EUA. Para ele, isso mostra que diversificar entre regiões é importante para qualquer investidor. 

Passo 1: defina o propósito e quanto alocar 

Agora que você entendeu a importância de expor parte da carteira a investimentos internacionais, chegou a hora de saber por onde começar. 

Embora a tecnologia tenha colocado o investimento no exterior ao alcance de qualquer pessoa, Moritz, do BTG, recomenda que o investidor busque informações e instituições que ofereçam algum tipo de assessoria para orientá-lo nos primeiros passos. 

"Escolha uma instituição confiável, que te traga conforto. Busque conteúdos para entender os setores, os níveis de risco e converse com profissionais dessa instituição", afirma, lembrando que o BTG mesmo oferece assessoria para clientes que queiram investir lá fora. 

Quanto à parcela da carteira que deve ser alocada no exterior, Caó, da Gama Investimentos, não vê um número único, mas sugere um caminho.  

Ele cita como referência a fatia de 2,5% do mercado de capitais global e orienta que o investidor avance no próprio ritmo, de acordo com seu nível de conforto. 

"Comece com 5% e vá aumentando até chegar em 20%. Pare e observe como esse pedaço do seu portfólio se comportou ao longo do tempo e faça ajustes, se necessário." 

Para Spiess, da Empiricus, uma fatia entre 15% e 30% do patrimônio no exterior pode ser um ponto de partida.  

"Para muitos investidores, uma exposição internacional entre 15% e 30% do patrimônio representa um ponto de partida razoável, podendo ser superior conforme o perfil de risco, os objetivos financeiros e as necessidades de proteção cambial", afirma. 

Já Moritz recomenda uma alocação média de 30%. "Este é o percentual base para quem investe no exterior conseguir capturar ganhos de forma sustentável, com uma ótima parcela de alocação internacional. Mas esse número pode variar de pessoa para pessoa e de acordo com a estratégia de investimento", diz.  

Investir no exterior vale a pena?

Passo 2: escolha onde investir (sem inventar) 

Investir lá fora não significa necessariamente comprar ações norte-americanas. Embora os EUA representem uma parcela relevante do mercado global, há outras possibilidades: a carteira pode combinar países desenvolvidos e emergentes, diferentes setores, renda fixa internacional e exposição a moedas estrangeiras, segundo a XP. 

Essa composição depende de três decisões: onde investir, em quais classes de ativos e a quais moedas se expor. Todas devem estar alinhadas aos objetivos e ao horizonte de investimento do investidor, além de considerar os riscos que ele já assume no restante da carteira. 

Para quem está começando, o CIO da Gama Investimentos, recomenda simplicidade.  

"Faz sentido diversificar inclusive moeda, mas sem inventar: 70% nos EUA e um pouco na Europa e na Ásia. Se replicar isso, já está ótimo. O MSCI já leva isso em conta", afirma Caó.  

Os índices MSCI podem servir de referência para essa diversificação. Eles medem o desempenho de mercados de ações de diferentes regiões do planeta ou de conjuntos de ações globais. Seu valor reflete o desempenho médio das ações que os compõem.  

Gestores e investidores do mundo todo acompanham esses índices para orientar investimentos globais e comparar o desempenho de suas carteiras. Por isso, são considerados termômetros importantes dos mercados. 

A Ásia é uma das regiões que podem entrar nessa estratégia. Caó reconhece o potencial e cita vetores econômicos positivos, como os da Coreia do Sul. 

Mas ele alerta que se trata de “um ambiente diferente para o ocidental” e que poucos investidores se sentem confortáveis com a China, por questões de governança corporativa. Por isso, recomenda deixar essa exposição para quem já investe no exterior. 

Mortiz, do BTG, segue a mesma linha de recomendação. "Para quem está começando, não vejo a necessidade de iniciar essa jornada olhando para muitos países e regiões do mundo", diz. 

"A economia norte-americana é muito internacionalizada e possibilita ter exposição a diversas teses que conversam com várias partes do mundo", acrescenta.  

Passo 3: com ou sem proteção cambial? 

Aqui está uma das decisões que mais confundem quem está começando a investir no exterior: manter a exposição ao dólar — e a outras moedas — ou usar hedge, isto é, proteger o investimento das oscilações cambiais. 

"O primeiro caminho é esse", diz Caó: decidir entre as duas. 

Manter a exposição cambial pode ajudar a atravessar momentos de queda do mercado. "O mais difícil de aguentar são os movimentos duros de queda, o drawdown. No caso de quem compra bolsa nos EUA e acontece uma crise, é provável que o dólar suba aqui, e isso é um amortecedor dos drawdowns." 

Mas e se o dólar estiver muito alto? Caó não recomenda usar a cotação como gatilho para começar a investir. 

Como ninguém sabe o que vai acontecer com o câmbio, a proposta dele é construir a exposição aos poucos: começar com 5% e aumentar gradualmente, conforme o investidor ganha confiança na estratégia. 

O CIO da Gama Investimentos também alerta para a forma de avaliar o resultado. Se o real se valorizar 10% e o S&P 500 subir 10%, por exemplo, o retorno do investimento em reais pode ser nulo — e o investidor pode concluir que a aplicação foi ruim. 

Mas o S&P 500 é cotado em moeda forte, e a variação em reais afeta esse retorno. A comparação precisa levar isso em conta. 

No caso do hedge, entra em cena o chamado carry ou carrego: o ganho ou custo associado à diferença entre as moedas. OSeu Dinheiro explicou como essa operação funciona, e você pode conferir aqui. 

A XP também considera a presença ou não de proteção cambial um dos critérios centrais na escolha do produto. 

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Passo 4: escolha a porta de entrada 

Há diferentes caminhos para começar a investir no exterior. A escolha depende de fatores como custo e facilidade, além do grau de envolvimento que o investidor deseja ter na gestão da carteira. 

ETFs 

Um ETF (Exchange Traded Fund ou Fundo de Índice) é um fundo de investimento cujas cotas são negociadas na B3 como se fossem ações comuns. 

Ao comprar uma cota, o investidor adquire participação em uma cesta de ativos criada para acompanhar o desempenho de um indicador de mercado. 

Para muitos especialistas, os ETFs são uma boa porta de entrada para quem quer começar a investir no exterior, pois aqueles que acompanham índices gringos refletem o comportamento dos mercados internacionais.  

A XP explica que esses fundos facilitam a estratégia: negociados em bolsa, eles dão acesso, por meio de um único papel, a carteiras diversificadas de ações, títulos de renda fixa, países, setores e moedas. 

Conta no exterior em banco ou corretora 

Abrir uma conta em um banco ou corretora no exterior permite investir diretamente nos mercados internacionais. 

Hoje, muitas instituições financeiras brasileiras oferecem esse acesso em plataformas integradas àquelas que o cliente já utiliza no Brasil. 

Além de investimentos, as contas internacionais podem incluir funcionalidades de conta corrente, com meios de pagamento no exterior. 

Segundo Moritz, do BTG, o acesso às contas internacionais do banco se dá como se o cliente fosse um cidadão norte-americano. 

Para ele, a tecnologia facilita a abertura da conta internacional pelo aplicativo do banco do qual o cliente já é correntista. Por isso, afirma, não há desculpas para deixar de buscar exposição e diversificação no exterior. 

Fundos de investimento 

Outra alternativa são os fundos locais com estratégia global.  

O CIO da Gama Investimentos lembra que, em geral, a tributação desses fundos segue a mesma lógica aplicada aos investimentos feitos diretamente no exterior, com exceção dos produtos isentos. 

BDRs 

Os BDRs (Brazilian Depositary Receipts, ou recibos de ações estrangeiras) são negociados na B3 e representam ativos emitidos no exterior. 

Neste caso como nos anteriores, a XP recomenda avaliar vários fatores em conjunto: a classe de ativo, o tipo de gestão, a concentração entre países e setores, a presença ou não de proteção cambial, a liquidez, o spread de negociação ou os custos de administração, a tributação e o prazo de liquidação.  

A recomendação se justifica porque, segundo a casa, veículos classificados como internacionais podem se comportar de maneira bastante diferente entre si.  

A bolsa brasileira conta, por exemplo, com BDRs de ações e ETFs listados no exterior, mas para o investidor pessoa física, é preferível evitar os BDRs de ativos menos conhecidos e pouco líquidos, por conta das distorções de preços que podem surgir. 

Você pode entender isso melhor nesta matéria. 

Passo 5: faça as contas dos custos e dos impostos 

Investir no exterior envolve diferentes custos, como a conversão cambial, eventuais taxas cobradas pela corretora — algumas já eliminaram essa cobrança — e os impostos. 

Caó recomenda que o investidor entenda como cada tipo de aplicação deve ser informado na declaração do Imposto de Renda (IR).  

Segundo ele, a maioria das plataformas já oferece informações para ajudar nesse processo. Ainda assim, é preciso considerar a variação cambial. “Se o investimento rendeu zero, mas houve valorização cambial, você paga a alta do dólar”. 

Moritz, do BTG, reforça que a tributação não deve ser um motivo para deixar de investir no exterior. 

"Na tributação, o conselho é entender como cada produto funciona. Cada um tem uma dinâmica e componentes próprios. Em um título de renda fixa que paga juros semestrais, por exemplo, o recebimento já é um evento tributável no Brasil, ainda que anualmente ", afirma. 

Nesta reportagem, você pode entender as regras de tributação dos investimentos no exterior para quem investe lá fora como pessoa física. Já nesta outra, você confere as regras de tributação dos BDRs. 

A mensagem para o investidor 

Para quem quer começar a investir no exterior, o ponto central é entender que diversificar internacionalmente não significa apostar em um país específico. A ideia é reduzir a dependência do Brasil como fonte de renda, patrimônio e investimentos. 

Os especialistas ouvidos pelo Seu Dinheiro recomendam começar com uma parcela pequena da carteira, de 5%, e aumentá-la gradualmente. Como referência, sugerem chegar a algo entre 20% e 30%, conforme o perfil e o conforto do investidor. 

Antes de investir, também é importante decidir se você quer manter a exposição ao dólar ou proteger a carteira das variações cambiais. As duas escolhas envolvem experiências diferentes de risco e retorno. 

Para quem está começando, os ETFs globais podem ser uma porta de entrada mais direta. 

Por fim, uma recomendação que vale para qualquer investimento: compare os produtos por custo, liquidez, tributação e prazo — e não apenas pelo retorno prometido. 

AutorCarolina Gama
FonteSeu Dinheiro
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