Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercados
27/07/2026
4 min

Shein chega ao IPO valendo metade do pico e com margens sob pressão

Shein chega ao IPO valendo metade do pico e com margens sob pressão

A Shein está prestes a lançar sua oferta pública inicial (IPO, em inglês), em Hong Kong, enfrentando um desafio de convencer os investidores de que ainda merece uma avaliação bilionária mesmo após perder quase metade do valor atribuído em sua fase de maior crescimento nos últimos anos.

A varejista de moda online busca um valuation entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões, segundo pessoas a par do assunto ouvidas pela Reuters. O valor está bem abaixo dos US$ 98,2 bilhões alcançados em uma rodada privada de captação em 2022 e também inferior aos US$ 64 bilhões estimados em uma nova captação em 2024.

O prospecto divulgado pela empresa no domingo, 26, e uma análise do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) nesta segunda-feira, 27, mostram uma companhia que continua crescendo, mas enfrenta desaceleração das vendas, margens menores e maior pressão regulatória nos principais mercados.

Do hipercrescimento à pressão sobre margens

A receita da Shein chegou a US$ 41,8 bilhões em 2025, avanço de 8% na comparação anual. Apesar do crescimento, o ritmo ficou distante da expansão acelerada registrada pela empresa nos anos anteriores. O lucro líquido, por outro lado, caiu quase 39%, para US$ 2,1 bilhões, e a margem líquida recuou de 8,7% para 4,9%.

No primeiro trimestre, a companhia registrou, ainda, prejuízo de US$ 99 milhões, afetada por alterações de remessas internacionais nos Estados Unidos e no Brasil, novas tarifas europeias sobre importações de baixo valor e um ajuste contábil de US$ 328 milhões relacionado a ações preferenciais conversíveis.

"[A Shein] enfrenta pressões regulatórias e competitivas crescentes", segundo o BTG.

Os analistas do banco veem que o momento marca a transição da Shein de uma empresa de "hipercrescimento" para uma fase de normalização. O banco afirma que o prospecto confirma a força global da plataforma, mas também revela que a rentabilidade fora de série do passado perdeu intensidade.

Regulação ameaça vantagem competitiva

O principal ponto de atenção para investidores está na dependência da empresa de mercados que passaram a endurecer regras sobre importações. Os EUA, por exemplo, responderam por cerca de 22,5% da receita da Shein em 2025, enquanto a Europa representou um terço das vendas.

Juntos, os dois mercados concentram mais da metade da receita global da companhia. E o BTG indica que as mudanças em curso podem cortar a vantagem de preços baixos da Shein, que já enfrenta pressões competitivas cada vez maiores.

O diretor-executivo do Global Public Investment Funds Forum e ex-diretor da China Investment Corporation, Winston Ma, detalhou que os investidores da bolsa de Hong Kong deverão olhar, principalmente, para a margem operacional de 2,9% da instituição.

"Os investidores reavaliarão a Shein, deixando de vê-la como uma plataforma de tecnologia de hipercrescimento puro para encará-la como um player de varejo físico e logística que opera em um cenário de comércio global de alta fricção", detalhou à Reuters.

Investidores questionam potencial de valorização

Já o diretor do banco de investimentos Chanson & Co, Shen Meng, pontuou ao canal que dificilmente a Shein conseguirá uma valorização relevante em relação à última rodada privada, seja na oferta em Hong Kong ou depois da estreia no mercado.

Algo que o analista de comércio eletrônico, Juozas Kaziukenas, complementou, ao avaliar que a listagem teria encontrado um ambiente mais favorável alguns anos atrás, quando investidores ainda buscavam empresas com forte expansão digital.

A própria Shein reconheceu no prospecto que o fim da isenção dos EUA para pequenas encomendas prejudicou o crescimento das vendas e elevou custos. Ela destacou também que avalia medidas como reajustes de preços para compensar parte do impacto.

Enquanto o Citi acrescentou que a perda de competitividade da Shein no segmento de moda de entrada na Europa pode abrir espaço para concorrentes como Primark e H&M, de acordo com a agência americana.

Brasil vira peça importante na estratégia

O Brasil segue, porém, como uma das apostas de expansão da Shein, na visão do BTG, que o vê como um mercado estruturalmente atrativo, graças à combinação entre uma grande base de consumidores, avanço do comércio eletrônico e menor penetração do segmento em comparação com economias desenvolvidas.

Dados da SensorTower citados pelo banco mostram que a Shein foi um dos aplicativos de comércio eletrônico que mais cresceu no Brasil no segundo trimestre, com alta de cerca de 34% nos usuários ativos mensais na comparação anual.

O desempenho superou concorrentes como Mercado Livre, com crescimento de 17%, Amazon, com 16%, e Shopee, com 9%, e reforça que mercados emergentes podem ganhar importância na próxima etapa de crescimento da companhia.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
Distribuído por