Shein estreia na bolsa com ações em queda. Agora, precisa provar que pode voltar a crescer
Shein levantou US$ 1,74 bilhão no IPO e chegou à bolsa avaliada em US$ 26,5 bilhões

As ações da Shein caíram no primeiro pregão da empresa na Bolsa de Hong Kong nesta terça-feira, 1º, com uma oferta pública inicial (IPO, em inglês) que reforçou as dúvidas dos investidores sobre a capacidade da gigante de moda de retomar o ritmo de crescimento dos últimos anos.
Os papéis (00625) chegaram a recuar 9% durante a sessão, mas fecharam o dia com recuo de 0,12%, a 48,50 dólares de Hong Kong (HK$). A companhia havia precificado sua estreia em HK$ 48,56 por ação, abaixo do teto de HK$ 49,50.
A operação movimentou cerca de 13,60 bilhões de dólares de Hong Kong, o equivalente a US$ 1,74 bilhão, com a venda de aproximadamente 280 milhões de ações.
Com o preço definido no IPO, a Shein passou a ser avaliada em cerca de US$ 26,5 bilhões, o que já era esperado, representando quase um quarto dos US$ 100 bilhões atribuídos à empresa em sua avaliação privada de 2022.
Crescimento desacelera e tarifas pressionam negócio
A queda acontece em um momento de maior pressão sobre o modelo de negócios. A Shein cresceu rapidamente ao conquistar consumidores nos Estados Unidos e na Europa com roupas de baixo custo, mas mudanças em tarifas e impostos nesses mercados tornaram a expansão mais difícil.
“Basicamente, a abertura fraca ou estável não deveria surpreender muito, dados os sinais de desaquecimento observados no período que antecedeu o IPO”, afirmou à Reuters a diretora de pesquisa de ações para a Ásia da Morningstar em Cingapura, Lorraine Tan.
Segundo ela, a forte redução da avaliação em relação ao pico de quatro anos atrás reflete preocupações com o crescimento. Além disso, os investidores ainda querem entender o impacto sobre as vendas na Europa da nova tributação sobre encomendas de menos de € 150, que entrou em vigor em julho.
A Shein registrou receita líquida de US$ 41,8 bilhões em 2025, acima dos US$ 38,7 bilhões do ano anterior. No primeiro trimestre deste ano, porém, a receita foi de US$ 9,05 bilhões e a companhia registrou prejuízo líquido de US$ 99 milhões, ante lucro em igual período do ano anterior.
Shein enfrenta concorrência de TikTok e Temu
Outro ponto de atenção é a competição. Para o diretor-gerente da Retail Cities, Bryan Gildenberg, ouvido pela CNBC, a evolução do TikTok Shop representa uma das principais preocupações para a Shein.
Ele vê que Shein e Temu se beneficiaram de uma vantagem de pioneirismo ao transformar a busca por descontos em uma experiência alusiva a games. O TikTok, porém, pode oferecer aos consumidores parte da mesma sensação de entretenimento, descoberta e "caça ao tesouro".
Gestor de portfólio da Allspring Global Investments, Gary Tan também avaliou que a estreia sem brilho foi específica da companhia, e não necessariamente um sinal de que investidores estejam rejeitando IPOs que não estejam relacionados à inteligência artificial (IA).
Ele disse à Reuters que o roadshow da oferta foi marcado mais por perguntas dos investidores. A principal dúvida é se a reformulação atual do modelo de negócios será suficiente para acelerar novamente o crescimento.
"A Shein precisa provar que consegue recuperar o 'fator X' da moda", afirmou.
O diretor de investimentos da KraneShares, Brendan Ahern, projetou ainda à CNBC que os investidores podem permanecer cautelosos no curto prazo e esperar por mais informações sobre os resultados do segundo trimestre e o balanço da empresa.
IPO ocorre após tentativas frustradas em NY e Londres
A estreia em Hong Kong também encerra um longo caminho para a abertura de capital. A companhia, fundada na China e sediada em Cingapura desde 2021, tentou anteriormente chegar às bolsas de Nova York e Londres sem sucesso.
A Shein apresentou de forma confidencial um pedido para um IPO nos Estados Unidos em 2023, mas posteriormente voltou suas atenções para Londres.
A listagem britânica não avançou depois que Pequim não concedeu aprovação em meio a preocupações relacionadas às divulgações sobre os riscos de sua cadeia de fornecimento na China.
Empresa quer investir em tecnologia e marca
Conforme o prospecto do IPO, 40% dos recursos captados serão destinados ao aprimoramento das capacidades tecnológicas da Shein e outros 40% para ampliar o reconhecimento da marca e fortalecer a presença global. O restante será destinado a iniciativas de responsabilidade corporativa e propósitos corporativos gerais.
A estratégia também inclui uma mudança gradual no modelo de negócios. Para o estrategista de mercado da Tiger Brokers, James Ooi, a Shein vem deixando de atuar apenas como varejista para se tornar uma combinação de varejista e plataforma.
O movimento pode ampliar o catálogo oferecido aos consumidores e permitir que a empresa monetize sua infraestrutura além do estoque próprio. Ao mesmo tempo, acrescenta riscos de conformidade e reputacionais relacionados à presença de vendedores terceiros, segundo relatou à Reuters.
Ooi também destacou o aumento das despesas de marketing em relação à receita em 2025. Ele enxerga que a questão central para os investidores é saber se a Shein conseguirá continuar aumentando sua base de usuários sem que o custo de aquisição de clientes fique cada vez mais alto.
