'Sigo confiante', diz João Paulo Ferreira em carta de despedida da Natura
No documento obtido pela EXAME, Ferreira celebra virada digital e socioambiental da empresa antes da volta de Alessandro Carlucci ao comando

João Paulo Ferreira está de saída da presidência-executiva da Natura (NATU3) e preparou um discurso de despedida com um balanço extenso dos 17 anos em que trabalhou na companhia os dez anos como CEO do grupo. O documento interno, ao qual a EXAME teve acesso, dá sequência à comunicação que chegou na manhã desta segunda-feira, 31, ao mercado: o conselho de administração aprovou a troca no comando, com o retorno de Alessandro Carlucci como CEO a partir de 1º de outubro.
"Uma história e tanto nestes 10 anos", escreveu Ferreira, que encerra a passagem pela companhia manifestando gratidão à rede que descreve como "enorme rede de afeto". Ele resume a década como um período de transformação do negócio e diz que também o mudou pessoalmente.
Da quinta posição à liderança regional
O tom de celebração se apoia em números. Ferreira lembra que a Natura partiu da quinta posição no mercado latino-americano de beleza, em 2016, para assumir a liderança da região. A participação da marca cresceu 30% no Brasil e 40% na região hispânica no período. A receita líquida triplicou, saltando de R$ 7,3 bilhões para R$ 22,2 bilhões, com crescimento de 2,5 vezes no Brasil e de 4,4 vezes nos países de língua espanhola, que passaram a responder por 40% do negócio.
A trajetória, no entanto, contrasta com o momento mais recente da companhia, que enfrentou dois trimestres seguidos de retração de vendas e admitiu que os resultados do segundo trimestre de 2026 frustraram as expectativas, em parte por problemas internos de execução.
A aposta no multicanal
A carta detalha a transformação do modelo comercial. A rede de consultoras cresceu de 1,8 milhão em 2016 para 2,8 milhões em 2025, enquanto a companhia digitalizou a venda direta e se tornou multicanal. O negócio on-line multiplicou por 14,4 vezes e alcançou R$ 1,5 bilhão no ano passado, com operações em e-commerce, marketplaces e plataformas de social commerce como TikTok, Instagram e YouTube. No varejo físico, a Natura chegou a mais de 1.200 unidades, que faturam R$ 1,2 bilhão por ano.
Ferreira também cita a incorporação da Avon ao sistema de comercialização da Natura e o relançamento da marca em 2026, além da criação da fintech Emana Pay, que movimentou R$ 62 bilhões no último ano, e da Bluma, empresa de serviços de beleza sob demanda. A incorporação da Avon foi um dos pilares da reestruturação do grupo, que ao longo dos últimos anos desmontou a holding global e simplificou as operações.
Balanço socioambiental
Na frente socioambiental, Ferreira destaca que a Natura foi eleita a marca mais sustentável do mundo em 2025, que a atuação na Amazônia preserva 2,2 milhões de hectares de floresta em pé e que as emissões de CO2 de escopo 3 caíram 40% em relação a 2020.
O executivo dedica parte da carta ao que chama de progresso social. O índice de desenvolvimento humano das consultoras subiu de 0,59 para 0,65 no Brasil, a participação de mulheres em posições de liderança passou de 35% para 53% e a companhia eliminou diferenças salariais associadas a etnia ou gênero. Ferreira menciona ainda a expansão do Instituto Natura para seis países e o compromisso estatutário de gerar valor para todos os públicos, movimento que levou a Natura a se tornar a primeira empresa de capital aberto do mundo a virar uma B Corp.
'Sigo confiante'
Ferreira encerra reafirmando confiança na trajetória futura da companhia. "Sigo confiante de que nossas fundações são sólidas e que o futuro reserva para a Natura e para cada um de vocês conquistas ainda mais espetaculares", escreveu.
Ele assumiu o comando da Natura em outubro de 2016, no lugar de Roberto Lima, após uma carreira de duas décadas na Unilever. Carlucci, que já comandou a Natura entre 2005 e 2014, assume agora com a missão de acelerar a execução da estratégia já em curso.
