Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Mercados
18/08/2026
5 min

Sinal de alerta? Juros longos disparam com preocupações com inflação e fiscal

Os juros mais longos dos Estados Unidos operam nas máximas de décadas nesta terça-feira (18), com a crescente preocupação do mercado sobre a inflação e trajetória fiscal da maior economia do mundo, combinada com a instabilidade geopolítica e pressão dos preços de energia com a recente valorização dos petróleo. Nesta manhã, o rendimento (yield) dos […]

Sinal de alerta? Juros longos disparam com preocupações com inflação e fiscal

Os juros mais longos dos Estados Unidos operam nas máximas de décadas nesta terça-feira (18), com a crescente preocupação do mercado sobre a inflação e trajetória fiscal da maior economia do mundo, combinada com a instabilidade geopolítica e pressão dos preços de energia com a recente valorização dos petróleo.

Nesta manhã, o rendimento (yield) dos título do Tesouro norte-americano, Treasury, de 30 anos – referência para hipotecas de longo prazoatingiu 5,337%, o nível mais alto desde meados de 2002.

Já o yield do título de 10 anos – referência para empréstimos imobiliários – atingiu a máxima desde 2007, a 4,748%.

Para Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, essa disparada nos yields de longo prazo reflete uma combinação de inflação ainda resistente, petróleo mais caro, déficits fiscais elevados e maior necessidade de emissão de dívida.

“Nos EUA, o quadro é agravado por déficits anuais próximos de US$ 2 trilhões, uma dívida pública caminhando para US$ 40 trilhões e uma oferta crescente de títulos corporativos ligados aos investimentos em inteligência artificial”, afirmou Spiess.

A equipe de estratégia do ING também destaca as emissões de dívidas nos EUA como o principal fator por trás do movimento. “O fato de os spreads dos swaps de Treasuries de 30 anos não terem aumentado sugere que preocupações fiscais não são o principal fator por trás do movimento. Mais convincente é o forte volume de emissões de títulos com grau de investimento por parte das grandes empresas de tecnologia norte-americanas”, diz o relatório a clientes divulgado hoje.

As emissões desse tipo de dívida atingiram um novo recorde para o mês de agosto, de US$ 145 bilhões.

Há também uma pressão vendedora sobre os Treasuries. Dados recentes do US Treasury International Capital (TIC) mostraram que investidores estrangeiros venderam US$ 72 bilhões em títulos do Tesouro dos EUA em junho, com Japão e China liderando as vendas.

Além disso, o Departamento do Tesouro norte-americano também divulgou nesta segunda-feira (17) que principais detentores dos Treasuries — Reino Unido, China e Japão, que é o maior detentor estrangeiro dos títulos — vêm reduzindo as suas posições nos últimos dias.

Não é só nos EUA

A pressão sobre os títulos de longo prazo não se restringe ao EUA. Os rendimentos da dívida soberana de vários países também operam nas máximas históricas – o que reforça a percepção de que os investidores estão exigindo prêmios mais elevados para financiar governos em um ambiente de endividamento crescente, na avaliação de Spiess, da Empiricus.

Também nesta terça-feira, o Bund, da Alemanha, de 10 anos opera na máxima de 15 anos, enquanto o rendimento do título francês está no maior nível desde meados de 2008 e taxas dos títulos britânicos de 30 anos se aproximam dos picos atingidos em maio, quando marcaram os níveis mais altos desde 1998.

No Japão, o temor em relação à inflação e as expectativas de que o Banco Central do Japão (BoJ, na sigla em inglês) possa elevar a taxa de juros em setembro empurraram o rendimento do título JGB de 10 anos para o maior nível em três décadas, a 2,941%.

“Existe uma preocupação crescente com o cenário fiscal. O déficit público dos Estados Unidos permanece bastante expressivo, enquanto o Japão também enfrenta um quadro fiscal desafiador. Há ainda a perspectiva de que a Alemanha aumente os gastos públicos e, consequentemente, o déficit. Essas preocupações com a expansão dos gastos governamentais também contribuem para que os investidores exijam rendimentos maiores”, disse Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.

Spiess, da Empiricus, também destaca que os títulos soberanos da França, Alemanha, Reino Unido e Japão passaram a competir com os Treasuries por capital, ao mesmo tempo em que a demanda tradicional por títulos soberanos de longo prazo dá sinais de enfraquecimento.

“O resultado é uma elevação do prêmio de prazo e uma perda parcial da função tradicional desses ativos como instrumento de proteção e diversificação”, afirma.

No Brasil, as taxas de Depósito Interfinanceiro (DIs) têm um movimento de alta puxado pelo exterior, mas o avanço é limitado. Na máxima intradia, o DI para janeiro de 2036, de longo prazo, subiu cerca de 6 pontos-base, a 14,760% hoje ante 14,695% do fechamento anterior.

Sinal amarelo?

Para os analistas, a disparada recente dos títulos soberanos das maiores economias do mundo ainda não parecem precificar uma crise.

Para os estrategistas do ING, o movimento recente sugere que as taxas de juros reais estão retornando a níveis mais ‘sensatos’. “Essas taxas reais estão voltando ao patamar que vimos antes da grande crise financeira, em 2008, e dos anos de pandemia que derrubaram as taxas de juros reais. As taxas de juros reais, onde estão agora, nada mais são do que uma reversão para taxas mais normais”, afirmaram em relatório.

A equipe do banco holandês também avalia que a forte liquidação na ponta longa do mercado de Treasuries ainda não é “uma má notícia” para as moedas de mercados emergentes e para ativos de risco em geral.

“Ainda não chegamos a esse ponto, mas uma nova alta dos rendimentos pode aumentar a pressão sobre o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) para agir”, afirmaram os analistas, citando que a precificação de uma alta de juros em setembro passou de 7 para 9 pontos-base na curva a termo.

A mesma visão é compartilhada por Matheus Spiess, da Empiricus. “Os juros de curto prazo permanecem relativamente estáveis e os índices acionários seguem próximos das máximas”, afirmou.

“O ponto central, portanto, é que a principal fonte potencial de instabilidade pode estar menos no mercado acionário em si e mais na capacidade dos mercados de absorver volumes crescentes de dívida a custos cada vez mais elevados”, avaliou.

AutorLiliane de Lima
FonteMoney Times
Distribuído por