SLC Agrícola (SLCE3): acordo com Radar diminui pressão, mas JP Morgan e Bradesco BBI seguem cautelosos

A decisão da SLC Agrícola (SLCE3) de reduzir a compra de terras do Grupo Radar foi recebida com alívio parcial por analistas, mas ainda insuficiente para mudar a visão cautelosa sobre as ações da companhia.
A empresa anunciou um acordo para dividir o portfólio conhecido como “Bloco Mato Grosso” entre os interessados que exerceram direito de preferência. Com isso, a SLC comprará 8,9 mil hectares agricultáveis por R$ 669 milhões, bem abaixo da proposta inicial de R$ 1,85 bilhão para adquirir toda a área.
Para o JP Morgan, a nova estrutura reduz de forma significativa a necessidade de financiamento e o impacto sobre a alavancagem em relação ao cenário anterior. Ainda assim, o banco acredita que o mercado pode continuar questionando a decisão de alocação de capital da companhia.
Os analistas destacam que a ação negocia com um desconto de cerca de 50% em relação ao valor patrimonial líquido (NAV), o que mantém vivo o debate sobre a conveniência de comprar terras em vez de priorizar recompra de ações ou desalavancagem. O banco manteve recomendação neutra, com preço-alvo de R$ 18 por ação.
O Bradesco BBIcompartilha da avaliação de que a redução do escopo da operação torna o negócio “mais fácil de digerir”, embora ainda não o considere atrativo.
Segundo a corretora, o desembolso menor reduz substancialmente o impacto financeiro da aquisição. A estimativa é que o consumo adicional de caixa caia para cerca de R$ 82 milhões por ano, ante aproximadamente R$ 217 milhões que seriam necessários caso a companhia tivesse comprado todo o portfólio originalmente previsto.
Apesar disso, o BBI ressalta que o preço pago continua elevado. Considerando apenas a terra nua, a aquisição foi fechada por cerca de R$ 72 mil por hectare, aproximadamente 21% acima do preço médio das terras agrícolas da própria SLC. Incluindo infraestrutura, o valor sobe para aproximadamente R$ 75 mil por hectare, cerca de 17% acima da média da companhia.
O BBI calcula que a operação implica uma taxa de retorno (cap rate) de aproximadamente 2,8%, considerada baixa e inferior ao custo de capital da empresa. Embora a valorização das terras possa melhorar o retorno ao longo do tempo, a avaliação é que o investimento não gera valor suficiente nas condições atuais.
Outro ponto destacado pelo BBI é que a transação deixa de representar um vetor de crescimento operacional. Como a SLC já cultivava os 17,6 mil hectares por meio de contratos de arrendamento, a compra de apenas parte da área não amplia a área plantada da companhia, diferentemente do cenário original, que poderia elevar a área cultivada em cerca de 3%.
Na avaliação dos analistas, a aquisição ainda deve elevar a alavancagem em cerca de 0,3 vez, levando a relação dívida líquida/Ebitda para 2,9 vezes ao fim de 2026. Embora o patamar seja considerado administrável, ele reduz a flexibilidade para novas expansões.
Assim como o JPMorgan, o BBI manteve recomendação neutra para as ações da SLC Agrícola. Para a casa, o potencial de valorização da companhia continua mais dependente de uma melhora no ciclo das commodities agrícolas, enquanto, no curto prazo, os riscos para produtividade relacionados ao El Niño seguem limitando os gatilhos para uma reprecificação dos papéis.
