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InvestMercadosACS
07/10/2026
6 min

Small caps superam Ibovespa após eleição e indicam volta do investidor local

Rali do índice, mais exposto à economia doméstica, ganha força após o primeiro turno das eleições para presidente

Small caps superam Ibovespa após eleição e indicam volta do investidor local
RESUMO +

O índice de small caps subiu 9,17% na segunda-feira, 5, após o primeiro turno das eleições, e avançou mais 1,83% nesta terça-feira, 6, em um possível sinal de retorno do investidor local à bolsa. Especialistas afirmam, porém, que ainda faltam dados de fluxo e atribuem parte do rali à expectativa de juros menores e menor risco fiscal.

A disparada das small caps após o primeiro turno das eleições, no domingo, 4, pode estar dando um dos primeiros sinais de volta do investidor local à bolsa. O índice de small caps (SMLL) subiu 9,17% na segunda-feira, 5, acima da alta de 7,70% do Ibovespa, e avançou mais 1,83% nesta terça, 6, enquanto o principal índice acionário da B3 recuou 0,52%.

Ainda não há dados de fluxo suficientes para confirmar que investidores domésticos foram os responsáveis pelo movimento. Mas a alta acontece justamente em um segmento historicamente mais associado a investidores brasileiros e mais sensível aos juros e à atividade doméstica, duas variáveis que passaram por umaforte reprecificação após o resultado do 1° turno presidencial.

"O que acredito que seja uma sugestão é que sim", afirma Nícolas Merola, CNPI da EQI Research, sobre a possibilidade de a alta das small caps indicar o retorno do investidor local.

Segundo o analista, os dados oficiais de fluxo têm uma defasagem, mas, historicamente, os investidores domésticos são os maiores compradores dessas companhias de menor valor de mercado, mas que geralmente estão em fase de crescimento e apresentam maior potencial de expansão, embora também mais riscos.

O movimento das small caps ganha relevância, contudo, porque as empresas menores passaram meses na direção oposta. O SMLL subiu em janeiro e fevereiro acumulando altas de 10,15% e 1,88%, respectivamente, mas caiu de março a agosto.

Nesse período de queda, a distância entre o índice e o Ibovespa atingiu o maior nível da série histórica da Elos Ayta, que considera dados desde 2005, ou seja, a maior diferença em 20 anos. A relação chegou a 77,6 vezes, contra cerca de 54 vezes no fim de 2025. Em janeiro de 2020, quando as empresas menores estavam no auge da valorização relativa, essa relação havia chegado a 39 vezes.

Em setembro, porém, as small caps voltaram a subir com ganho de 5,23%, seguindo o fluxo do Ibovespa com o entusiasmo do mercado com o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, antes de acelerar no pós-eleição, quando a expectativa sobre o cenário político e econômico recolocou as small caps no radar.

Por que as small caps podem indicar a volta do investidor local

A associação entre as empresas menores e o investidor doméstico não é absoluta, mas faz sentido, segundo os especialistas. As companhias desse segmento têm menor liquidez e, em muitos casos, não são grandes o suficiente para receber posições relevantes defundos estrangeiros.

"É correto" associar small caps mais ao investidor doméstico, de acordo com Merola. Segundo o analista da EQI, grande parte das alocações táticas estrangeiras no Brasil é feita por meio do ETF EWZ, enquanto posições de prazo mais longo tendem a ocorrer por fundos locais que podem ter exposição a empresas menores.

"O Brasil, como um todo, tem um peso de referência dentro do mercado de emergentes de aproximadamente 4%. Ou seja, dentro de um mercado nichado como os emergentes, já somos pequenos. Por consequência, as nossas small caps são menores ainda", afirma.

Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos, faz uma ressalva semelhante. Para um fundo estrangeiro de grande porte, uma empresa pequena brasileira pode simplesmente não ter liquidez ou tamanho suficiente para justificar uma posição relevante. "De fato, quem acaba segurando um pouco mais são os institucionais brasileiros e as pessoas físicas", afirma.

É por isso que o desempenho recente pode ser um sinal relevante, ainda que não seja uma confirmação de fluxo. Se oinvestidor local começa a aumentar a exposição a ações brasileiras, as small caps estão entre os segmentos que tendem a responder de forma mais rápida. "Usualmente quem é comprador dessas empresas é o investidor local", diz Merola.

Mas o rali ainda não prova que o dinheiro doméstico voltou

O problema é que o mesmo movimento pode ser explicado, em parte, por uma mudança de expectativa sobre juros e risco fiscal sem que tenha ocorrido, até agora, uma entrada significativa de dinheiro novo de investidores brasileiros.

"O que move as small caps hoje é a mudança de expectativa sobre o próximo governo, e não a volta do investidor local", afirma Marco Aurélio de Camargos, CIO da Vault Capital.

Na avaliação do executivo, o primeiro turno aumentou a percepção de possibilidade de troca de governo, levando o mercado a apostar em um cenário de maior ajuste fiscal e juros menores no futuro. No dia seguinte à votação, os juros futuros longos caíram mais de um ponto percentual, o dólar recuou mais de 4% e a bolsa disparou.

Nesse cenário, as small caps tendem a reagir mais a esse tipo de movimento porque têm maior exposição ao crédito, à economia doméstica e ao custo de capital. "Elas costumam ter mais dívida e vender mais para o mercado interno, então sentem antes qualquer mudança no custo do dinheiro", diz Camargos.

Gustavo Bertotti, economista e head de renda variável da Fami Capital, também atribui parte importante domovimento ao fechamento da curva de juros. Segundo Bertotti, empresas de consumo, serviços públicos, indústria e setor imobiliário estão entre as mais beneficiadas por uma eventual melhora das condições financeiras.

"Small cap se valoriza também porque muitas empresas, são setores extremamente impactados com esse cenário de juros altos na nossa economia", afirma.

Mais do que small caps, o mercado está comprando Brasil doméstico

O rali de segunda-feira também mostra que a movimentação não necessariamente representa uma migração direta de empresas grandes para pequenas. O que parece mais claro, segundo os especialistas, é uma mudança em favor de companhias ligadas à economia doméstica.

A ação do Magazine Luiza (MGLU3) subiu 24,18% e liderou a alta no pregão seguinte ao primeiro turno. "Não é de empresa grande para empresa pequena. É de empresa exportadora para empresa doméstica", afirma Reis.

A diferença está relacionada também ao comportamento do câmbio. Com o dólar caindo para R$ 4,976, como encerrou nesta terça, as empresas com receitas em moeda estrangeira ficaram menos favorecidas, enquanto companhias dependentes do mercado brasileiro ganharam força.

A Petrobras (PETR4), que subiu mais de 8%, foi uma exceção entre as grandes, em um movimento que também refletiu a redução do desconto associado ao risco de interferência estatal. Para Camargos, essa distinção é importante. "Um pregão só não caracteriza migração", afirma. Segundo os especialistas, esse movimento também mostra uma reprecificação de empresas mais sensíveis aos juros e um possível início de recuperação do apetite doméstico por risco.

AutorClara Assunção
FonteExame
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