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Sacre Investimentos
InternacionalACS
14/08/2026
9 min

Só lembra da Europa nas férias? Este economista alemão diz por que o seu patrimônio também deveria viajar para lá

Achim Wambach, presidente do influente instituto de pesquisa ZEW, falou com o Seu Dinheiro e deu conselhos práticos ao investidor brasileiro, fez alertas e ainda deixou uma lição aprendida a duras penas pelos alemães

Só lembra da Europa nas férias? Este economista alemão diz por que o seu patrimônio também deveria viajar para lá

Se o seu passaporte já tem carimbos da Europa ou se cidades como Paris e Londres estão no topo da sua lista de desejos, talvez seja a hora de mandar a sua carteira de investimentos fazer essa mesma viagem. 

Na hora de internacionalizar o patrimônio, o investidor pessoa física costuma fazer escala única nos EUA. O problema é que esquecer os mercados europeus é o equivalente financeiro a ir para a França e não ver a Torre Eiffel: você está deixando passar a melhor parte da paisagem. 

Quem defende olhar para a Europa além do turismo é Achim Wambach, presidente do influente instituto de pesquisa econômica ZEW

Em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro, o economista alemão mostra como a região pode atuar como um excelente contrapeso de proteção para a carteira do investidor brasileiro — ao mesmo tempo em que analisa os dilemas econômicos e as oportunidades do Brasil sob a ótica internacional. 

A tese de diversificação na Europa 

Ao abordar a alocação de capital no exterior, Wambach defende que a inclusão de ativos europeus em uma carteira diversificada faz sentido para o brasileiro não necessariamente pela velocidade de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da região, mas pela robustez das instituições. 

“A Europa oferece uma boa exposição a esses temas porque tende a oferecer mercados pautados por regras, mercados de capital profundos e arcabouços jurídicos e regulatórios relativamente previsíveis”, diz. 

Segundo ele, em um ambiente global marcado por volatilidade e disputas geopolíticas, a previsibilidade regulatória do mercado europeu pode atuar como um porto seguro útil para equilibrar o risco de carteiras concentradas em mercados emergentes

Para o investidor que mira o horizonte da próxima década, o chefe do ZEW indica que as melhores teses de investimento estarão na intersecção entre demanda estrutural reprimida e apoio regulatório estatal. 

Entre os setores com fundamentos mais sólidos no cenário internacional, Wambach destaca eletrificação e redes elétricas, diante da modernização e expansão da transmissão de energia; infraestrutura digital, para pegar carona nas cadeias de suporte a data centers, semicondutores e conectividade; e tecnologia limpa, com foco em equipamentos e suprimentos para a transição energética. 

O economista alemão também chama atenção para a logística global, para quem está de olho em ativos imobiliários e de transporte impulsionados pela reorganização das cadeias de suprimento. 

Achim Wambach, presidente do instituto de pesquisa econômica ZEW, aparece em primeiro plano. Ele usa óculos, é calvo e está de terno preto, camisa branca e gravata listrada de tons de azul.
Achim Wambach, presidente do instituto de pesquisa econômica ZEW

O teste que você deveria fazer antes de investir 

Seja nos EUA ou na Europa, Wambach dá conselhos práticos para quem quer ter uma parte da carteira no exterior. O primeiro deles é um teste de estresse simples para avaliar empresas da bolsa

“Uma boa regra prática para o investidor é se perguntar: 'eu ainda investiria nesta empresa se a lei orçamentária de amanhã eliminasse metade dos incentivos?'”. 

Para Wambach, companhias que só entregam retorno à custa de benevolência estatal mascaram uma fragilidade estrutural que cobra seu preço assim que os subsídios encolhem. 

O olhar do chefe do ZEW sobre o Brasil, contudo, passa longe do pessimismo. Ele enxerga o país em uma posição estratégica para atrair o capital internacional, beneficiado pela agilidade do Banco Central no combate à inflação e pelo potencial na transição ecológica. 

Mas avisa: o investidor europeu ficou mais seletivo e busca previsibilidade. 

A vantagem que o Brasil não pode queimar 

O ciclo monetário global mudou de patamar. Na visão do presidente do ZEW, as taxas de juros de longo prazo nas economias desenvolvidas não retornarão aos níveis ultrabaixos vistos na década de 2010, mesmo com o alívio da inflação. 

“Os investidores agora exigem uma compensação maior para cobrir o aumento da oferta de títulos, os riscos geopolíticos e a incerteza persistente com a inflação”, diz. 

Nesse cenário de juros mais altos no mundo, o Brasil ganha relevância pelo diferencial de taxas. 

A decisão do Banco Central brasileiro de iniciar o aperto monetário muito antes dos pares globais construiu credibilidade e abriu espaço para estratégias de carry trade — operação em que o investidor toma dinheiro emprestado onde o juro é baixo e aplica onde ele é alto — e alocação em títulos locais. 

“Um diferencial de rendimento mais amplo torna os títulos em moeda local e as estratégias de carry trade em emergentes mais atraentes, o que joga a favor do Brasil”, afirma Wambach. 

O alerta, porém, recai sobre a responsabilidade fiscal. O economista adverte que o prêmio oferecido pelo juro alto pode ser rapidamente corroído se o risco fiscal desvalorizar o câmbio

“O teste decisivo é sempre saber se a política monetária local, a disciplina fiscal e os saldos externos são fortes o suficiente para evitar que a depreciação da moeda corroa essa vantagem de taxa de juros.” 

Concessões e leilões: o segredo está nos detalhes 

Especialista europeu em market design — a ciência econômica que estuda a arquitetura e o funcionamento de mercados e leilões —, Wambach acompanha com atenção a extensa agenda brasileira de concessões, privatizações e parcerias público-privadas (PPPs) em saneamento, rodovias e energia. 

Questionado pelo Seu Dinheiro sobre a recente onda de privatizações no Brasil, com atenção especial para Sabesp (SBSP3) e Copasa (CSMG3), o economista diz que privatizar é apenas o primeiro passo — o segredo do sucesso do projeto está no desenho da regra do jogo. 

“Sob a ótica do desenho de mercado, o sucesso ou o fracasso depende menos da privatização em si e mais de como os mecanismos são estruturados”, afirma. 

Na avaliação de Wambach, o capital institucional de longo prazo só se sente seguro para entrar em projetos de infraestrutura quando encontra três pilares na modelagem: alocação de risco justa, segurança contratual e critérios realistas de leilões. 

“A atração de investidores depende, por exemplo, de os leilões premiarem lances realistas, em vez de simplesmente a menor tarifa”, afirma Wambach, lembrando que tarifas irrealisticamente baixas costumam resultar em renegociações futuras ou devolução de concessões. 

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A armadilha para emergentes e o recado ao investidor 

Com o recrudescimento da política industrial no mundo — evidenciado por pacotes bilionários de incentivo nos EUA e na Europa —, países emergentes sentem a tentação de responder na mesma moeda. 

Wambach adverte que entrar em uma disputa de incentivos estatais contra potências globais é um erro estratégico para economias em desenvolvimento. 

“Competir em uma corrida por subsídios contra grandes economias é dispendioso, pois desvia recursos fiscais escassos da educação, infraestrutura e instituições para subvencionar o capital móvel”, diz. 

O economista alemão ressalta que incentivos fiscais excessivos frequentemente mascaram deficiências estruturais de produtividade sem de fato resolvê-las. 

“Isso pode se tornar autodestrutivo se as empresas começarem a se otimizar para obter subsídios governamentais em vez de focar no ganho de produtividade”, afirma. 

Para o investidor, a recomendação é priorizar empresas cujas teses operacionais parem em pé independentemente de benefícios fiscais mantidos pelo governo. 

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A superpotência verde 

A conversa com Wambach não ficou apenas nos investimentos. Defensor de que a preservação ambiental precisa fazer sentido no balanço das empresas — tese central do seu livro Klima muss sich lohnen ("O clima precisa valer a pena") —, ele vê no Brasil o potencial para se consolidar como uma superpotência verde. 

Contudo, lembra que a regulamentação do mercado de carbono no país ainda está dando os primeiros passos e pode aprender com a trajetória do Mercado de Emissões da União Europeia. 

O primeiro aprendizado, segundo o chefe do ZEW, é a credibilidade do preço do carbono, que precisa ser pautado pela escassez previsível de permissões de emissão. 

O segundo é condicionar qualquer distribuição gratuita de licenças a metas claras de reinvestimento em tecnologia limpa. O terceiro — e mais vital, de acordo com ele — é o destino do dinheiro arrecadado. 

“O sistema europeu gerou mais de 258 bilhões de euros em leilões desde 2013. Direcionar esse financiamento para gargalos específicos, como conexão de rede elétrica e infraestrutura de hidrogênio e CO₂, em vez de fornecer compensações genéricas, é o que transforma o sistema de 'limitação e negociação' (cap-and-trade) para 'limitação e investimento' (cap-and-invest)”, afirma. 

A lição da Alemanha para o Brasil 

Enquanto o Brasil tenta ancorar expectativas do mercado por meio do arcabouço fiscal, a Alemanha enfrenta duros debates políticos em torno do seu teto de endividamento. 

Para Wambach, a chave para garantir responsabilidade fiscal sem asfixiar os investimentos em infraestrutura e na transição energética está na separação rígida do destino das verbas públicas. 

“O princípio funcional é separar a disciplina de consumo do investimento produtivo, garantindo que qualquer exceção para investimentos seja genuinamente usada para esse fim e não desviada para gastos correntes”, diz. 

Segundo o presidente do ZEW, o endividamento do Estado é justificável do ponto de vista econômico quando financia obras que geram crescimento futuro, pois as gerações que se beneficiarão da infraestrutura também ajudarão a pagar a conta. O erro é usar dívida para cobrir despesas permanentes. 

E a própria Alemanha serve como exemplo de alerta para o Brasil: “o investimento público líquido alemão estagnou perto de zero por décadas. A lição é que política fiscal crível e investimento crescente podem andar de mãos dadas, mas apenas se as regras incluírem salvaguardas reais, verificação independente e consequências para o desvio de verbas de investimento para o consumo.” 

AutorCarolina Gama
FonteSeu Dinheiro
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