Soja e tarifas: por que o encontro entre Trump e Xi interessa ao agro
Presidente americano e líder chinês se reúnem na quinta-feira, 24, em Washington, com o grão no centro das negociações

O encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder da China, Xi Jinping, marcado para quinta-feira, 24, em Washington, será acompanhado de perto pelo agronegócio brasileiro. No centro das negociações estão temas como soja e tarifas comerciais, que podem alterar a relação entre as duas maiores economias do mundo e influenciar o mercado global de commodities.
Desde o retorno de Trump à Casa Branca, em novembro de 2024, a disputa comercial entreEUA e China colocou a agricultura como uma das principais moedas de troca entre os países. A soja ganhou destaque nesse cenário por ser um dos principais produtos exportados pelos americanos para o mercado chinês e também uma das principais fontes de receita do agronegócio brasileiro.
Para o Brasil, maior fornecedor de soja para a China, qualquer mudança na relação comercial entre Pequim e Washington pode ter reflexos sobre preços internacionais, demanda e competitividade dos produtores nacionais.
No caso da oleaginosa, as atenções estão voltadas para o ritmo das compras chinesas de soja americana e para a possibilidade de retomada da participação dos Estados Unidos no principal mercado consumidor mundial do grão.
No ano passado, as exportações americanas desoja para a China recuaram em meio à guerra comercial iniciada por Trump. Como consequência, o Brasil ampliou sua presença no mercado chinês, com exportações que somaram 87 milhões de toneladas.
Já os Estados Unidos venderam cerca de 15 milhões de toneladas, volume abaixo da média histórica, próxima de 22 milhões. O cenário aumentou a pressão de produtores americanos, que enfrentam custos elevados e menor competitividade no comércio internacional.
Após a disputa tarifária, que favoreceu o avanço das exportações brasileiras para a China em 2025, os EUA anunciaram que Pequim compraria 25 milhões de toneladas de soja por ano até 2028.
Até julho, a China importou 44,53 milhões de toneladas de soja do Brasil, volume 5,4% superior ao registrado no mesmo período de 2025, quando as compras somaram 42,26 milhões de toneladas. No mesmo intervalo, as importações de soja americana recuaram 31,2%, para 10,7 milhões de toneladas, segundo dados da Amius, casa de derivativos.
A diferença também aparece em valores. Entre janeiro e agosto de 2026, as importações chinesas de soja brasileira somaram US$ 26,10 bilhões, alta de 13% em relação ao mesmo período de 2025. No caso dos EUA, as compras chinesas recuaram para US$ 5,20 bilhões, queda de 32,7% ante os oito meses do ano passado.
Segundo Giovana Cavalca, analista de grãos da Amius, a sazonalidade das colheitas também influencia o ritmo das compras chinesas.
“A internalização da soja depende da janela de colheita e exportação de cada país. No caso brasileiro, os maiores volumes costumam sair entre abril e maio, que são meses importantes para os embarques. Esses dados aparecem posteriormente nas estatísticas chinesas por causa do tempo de transporte e do processo de liberação do produto”, diz.
Segundo ela, o primeiro semestre concentra a maior parte da entrada da soja brasileira na China, enquanto os EUA costumam ganhar maior relevância em uma segunda janela de compras.
O governo Trump também afirmou que Pequim teria concordado em adicionar outros US$ 17 bilhões em compras anuais de produtos agrícolas durante a visita do presidente americano à China em maio.
A China, porém, não confirmou publicamente esses acordos. Mesmo assim, autoridades americanas afirmam que Pequim está no caminho para cumprir o compromisso relacionado à soja.
Para a safra 2026/27, os EUA projetam uma produção de aproximadamente 121 milhões de toneladas de soja, com exportações estimadas em 46,3 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Tarifas de Trump
A guerra comercial entre Estados Unidos e China deixou tarifas adicionais sobre diversos produtos dos dois países. Atualmente, Pequim mantém uma tarifa extra de 10% sobre produtos americanos, incluindo itens agrícolas, como resultado das medidas de retaliação adotadas durante o conflito comercial.
Para o setor agrícola americano, a retirada dessa cobrança é vista como um ponto importante para recuperar competitividade no mercado chinês.
“A soja já tem um compromisso de compra estabelecido, mas existe uma expectativa de que esse volume possa aumentar. Outro ponto importante é a possibilidade de retirada da tarifa de 10% sobre produtos agrícolas, o que permitiria a entrada da soja americana em condições mais competitivas”, afirma Cavalca.
Segundo a analista, produtos de outros países, como a Argentina, não estão sujeitos à mesma cobrança, o que reduz a competitividade dos Estados Unidos.
“Essas compras recentes de soja americana foram realizadas, em grande parte, por compradores estatais. Enquanto essa tarifa continuar, o produto dos Estados Unidos segue menos competitivo para compradores privados chineses”, explica.
Uma redução das tarifas poderia estimular empresas chinesas a retomarem compras maiores de fornecedores americanos, depois de anos em que as barreiras comerciais reduziram a participação dos Estados Unidos no mercado.
O Representante Comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou em setembro que poderiam ocorrer anúncios para incentivar as vendas agrícolas americanas para a China. As declarações aumentaram as expectativas sobre possíveis avanços durante a reunião entre Trump e Xi.
