Somos os mais preparados para capturar vendas da Casas Bahia, diz VP do Magalu
Vice-presidente de operações diz que varejista está mais preparada para absorver demanda da rival

RESUMO +
A varejista Magazine Luiza vê na crise e no fechamento de lojas da rival Casas Bahia uma oportunidade para ampliar vendas, efeito que já aparece em algumas regiões, segundo Fabrício Garcia, vice-presidente de operações do Magalu. O banco Itaú BBA estima que a companhia pode capturar R$ 7,5 bilhões adicionais em vendas até 2027.
A crise da Casas Bahia (BHIA3) virou uma oportunidade de crescimento para o Magazine Luiza (MGLU3), e os investidores já parecem ter começado a considerar esse potencial. Além de avançar na bolsa, a varejista vê espaço para absorver parte da demanda deixada pela rival com o fechamento de lojas, movimento que, segundo Fabrício Garcia, vice-presidente de operações da companhia, já se traduz em vendas maiores em algumas regiões.
“Somos o player mais capacitado para capturar essa venda que vai ficar no mercado devido ao fechamento das lojas da Casas Bahia”, afirmou à EXAME.
A avaliação ocorre em um momento de recuperação das ações da varejista na bolsa, após meses de pressão sobre os resultados. Em setembro, os papéis subiram 55,09%,lideraram os ganhos do Ibovespa e registraram a maior valorização mensal desde janeiro de 2023.
O movimento foi impulsionado por uma combinação de notícias favoráveis à companhia, incluindo novas parcerias comerciais, expectativas de redução dos juros e a possibilidade de conquistar clientes da concorrente em dificuldades financeiras.
Para Garcia, os efeitos da reestruturação da Casas Bahia já começam a aparecer na operação do Magalu, especialmente nas lojas físicas. Segundo o executivo, a companhia acumula cerca de três anos de crescimento nas vendas em suas unidades, com ganhos de participação de mercado. O avanço se torna mais expressivo em regiões onde a concorrente fecha pontos de venda.
“Logo que fecha a loja, o nosso crescimento aumenta bastante. Isso é visível”, afirmou.
ACasas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial em agosto, em um processo que envolve R$ 17,3 bilhões em passivos. O cenário abriu espaço para que investidores e analistas passassem a considerar o Magazine Luiza um dos potenciais beneficiários da reorganização do setor.
Em análise recente, o Itaú BBA estimou que a varejista pode capturar cerca de R$ 7,5 bilhões adicionais em vendas até 2027, com impacto potencial de aproximadamente R$ 300 milhões no lucro líquido.
Parte desse ganho viria do fechamento de lojas da concorrente; outra parcela poderia ser obtida em unidades que continuam abertas, mas operam com menor capacidade comercial. As parcerias com marketplaces também aparecem entre os vetores de crescimento considerados pelo banco.
Garcia, porém, ressalta que a dificuldade de uma concorrente tradicional não é motivo de comemoração. “Ficamos muito triste, não comemoramos jamais, principalmente um concorrente tão tradicional e grande quanto a Casas Bahia. Não é bom para o setor, não é legal, mas acaba se transformando em uma oportunidade para nós”, disse.
Ações sobem, mas recuperação operacional ainda precisa aparecer
Avalorização dos papéis do Magazine Luiza acontece depois de um período de desempenho irregular na bolsa. Apesar da alta de setembro, a ação ainda acumulava queda de 14,42% em 2026 até o pregão de 1º de outubro, reflexo das perdas registradas ao longo de boa parte do ano.
Neste mês, porém, as perdas se reverteram e, até no último pregão, nesta quinta-feira, 15, os papéis da companhia varejista já subiam 17,31%. O rali recente coincidiu com uma sequência de anúncios.
Em setembro, o Magalu fechou parceria com o Mercado Livre para vender produtos de estoque próprio na plataforma, lançou o Magalu Delivery em mais de 400 cidades e passou a ser visto como possível beneficiário do enfraquecimento da Casas Bahia. O ambiente macroeconômico também contribuiu, com oquinto corte consecutivo da Selic, para 13,75% ao ano.
A parceria com o Mercado Livre teve forte repercussão no mercado. No dia 2 de setembro, quando o acordo foi anunciado, as ações subiram 16,88%. O movimento reforçou a expectativa de que a companhia consiga ampliar as vendas sem depender exclusivamente do tráfego gerado por seus próprios canais digitais.
A estratégia ganhou força com a entrada do Magalu na Amazon, anunciada em junho, e com o novo acordo com a Shopee, divulgado ontem. A lógica é aproveitar a audiência de grandes plataformas para alcançar consumidores que ainda não compram diretamente da varejista, reduzindo a dependência de investimentos em mídia paga.
Garcia afirmou que o desempenho dos canais próprios também vem melhorando. A expectativa é que a combinação das iniciativas ajude a companhia a voltar a apresentar crescimento nas vendas online no quarto trimestre, período que concentra a Black Friday e o Natal.
“Temos dois grandes pontos aqui que vão mexer com o ponteiro para nós. O primeiro já era uma estratégia desde o início do ano, que é a venda nas plataformas, porque elas vão agregar no nosso volume”, disse.
O executivo afirmou que o Magalu teve um bom setembro e está otimista com os últimos três meses do ano. Ele não antecipou, contudo, indicadores específicos que possam sinalizar uma melhora mais consistente dos resultados já no terceiro trimestre.
O desafio é transformar a recuperação das ações em avanço operacional. No segundo trimestre, a companhia registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão apurado um ano antes. No primeiro trimestre, o prejuízo líquido foi de R$ 33,9 milhões.
A leitura de analistas também é de que o desempenho recente dos papéis não elimina as incertezas sobre a capacidade de a empresa recuperar margens e vendas de forma sustentável. A queda dos juros pode beneficiar o varejo, mas a companhia ainda precisa demonstrar que consegue crescer em um ambiente de crédito restrito e consumo pressionado.O Itaú BBA, por sua vez, elevou a recomendação para as ações do Magazine Luiza para compra. Segundo o banco, a varejista é provavelmente a empresa mais sensível à queda dos juros entre as companhias sob sua cobertura. Pelos cálculos da instituição, cada redução de 100 pontos-base na curva de juros adiciona cerca de 11% ao lucro por ação do Magalu.
A avaliação considera um cenário de normalização econômica, com juros reais próximos de 6%, e combina a perspectiva de alívio financeiro para o consumidor com a possibilidade de ganho de participação de mercado e expansão das vendas por novos canais.
