Sonho de ROE de 20% no Santander (SANB11) acabou? Ação tomba mais de 6% após balanço. Resultado é um alerta para Bradesco, BB e Itaú?
Lucro veio abaixo das expectativas, margens decepcionaram e provisões voltaram a pressionar; analistas explicam se o problema é só do Santander ou um alerta para o setor

A temporada de balanços dos bancões começou com um sinal amarelo na Faria Lima. O Santander Brasil (SANB11), primeiro grande banco a abrir os números do segundo trimestre, entregou um resultado abaixo das expectativas e reacendeu uma dúvida que deve acompanhar os próximos dias: o problema é do Santander ou o restante do setor também corre o risco de decepcionar?
Para os analistas, a resposta tende mais para a primeira hipótese. O Santander continua lidando com desafios muito próprios, e o balanço do segundo trimestre reforçou a percepção de que a recuperação da rentabilidade ainda está longe de convencer o mercado.
A combinação de receitas mais fracas, avanço das provisões e uma compressão das margens financeiras maior do que a esperada acabou frustrando até os analistas que já trabalhavam com um cenário conservador.
No segundo trimestre de 2026, o banco registrou lucro líquido recorrente de R$ 3,01 bilhões, queda de 17,6% em relação ao mesmo período do ano passado e abaixo das projeções do mercado.
A avaliação dos analistas é que o resultado final só não foi mais fraco porque contou com um benefício tributário. Sem esse efeito, o lucro antes dos impostos (EBT) teria ficado cerca de 40% abaixo do esperado e despencado 45% na comparação com o trimestre anterior.
No fim das contas, os números reforçam a leitura de que a estratégia de reduzir riscos na carteira ainda não conseguiu se traduzir em uma recuperação consistente da rentabilidade — e que a caminhada do Santander rumo ao ROE de 20% prometido pela administração continua mais longa do que o mercado esperava.
Enquanto os investidores tentam digerir os números do 2T26, as ações do Santander iniciaram o pregão desta quarta-feira (29) em forte queda.
Por volta das 10h50, os papéis SANB11 tombavam 6,40% e lideravam a ponta negativa do Ibovespa, cotados a R$ 25,90. Desde o início do ano, o banco amarga desvalorização da ordem de 20% na bolsa brasileira.
Veja os principais indicadores do Santander Brasil (SANB11) no 2T26:
| Indicador | Resultado 2T26 | Projeções | Variação (a/a) | Evolução (t/t) |
|---|---|---|---|---|
| Lucro líquido | R$ 3,014 bilhões | R$ 3,487 bilhões | -17,6% | -20,4% |
| ROAE | 12,5% | 14,5% | -3,8 p.p. | -3,4 p.p |
| Margem financeira | R$ 15,3 bilhões | — | -0,4% | -3% |
| Carteira de crédito ampliada | R$ 714,7 bilhões | — | +1,3% | +5,8% |
2T26 do Santander Brasil (SANB11) antecipa uma temporada difícil para os bancos?
Apesar da decepção, o Itaú BBA faz uma ressalva importante: o desempenho do Santander não deve ser usado como régua para os próximos balanços dos grandes bancos.
"A leitura para os demais bancos é limitada, já que o Santander vem apresentando uma trajetória mais fraca de receitas há anos e enfrenta problemas específicos de inadimplência. Esperamos um Bradesco mais forte na próxima semana", afirmam os analistas.
Sem um guidance para o restante do ano, o Itaú BBA avalia que os próximos trimestres precisarão provar que a estratégia de reduzir o risco da carteira conseguirá elevar a rentabilidade ajustada ao risco — e não apenas produzir spreads menores.
O que realmente incomodou o mercado no balanço do Santander Brasil
Embora o aumento das provisões já estivesse no radar dos investidores, o trimestre ainda foi impactado por uma provisão trabalhista considerada não recorrente, de R$ 291 milhões. Com esse efeito, o lucro gerencial caiu para R$ 2,72 bilhões e o lucro contábil recuou para R$ 2,67 bilhões.
Ainda assim, a maior surpresa veio da margem financeira (NII). Para o JP Morgan, a principal decepção do trimestre foi justamente a receita líquida de juros, especialmente a margem com clientes — um indicador considerado fundamental para as projeções futuras de lucro.
Segundo o banco norte-americano, a intensidade da compressão dos spreads foi difícil de justificar.
O Santander atribuiu o movimento à mudança do perfil da carteira de crédito e à redução da exposição ao segmento de menor renda. Para o JP Morgan, porém, essa explicação não basta.
"A queda parece excessivamente abrupta para ser explicada apenas por uma estratégia de redução de risco implementada há muitos anos pelo Santander", disse o banco. "É difícil entender uma compressão de spread de 40 pontos-base."
Outro ponto chamou atenção: a inadimplência acima de 90 dias permaneceu praticamente estável em 3,3%, mas isso ocorreu porque as baixas para prejuízo (write-offs) aumentaram 27% no trimestre, segundo o Itaú BBA.
"Foi um resultado fraco, negativo para as ações, que negociam a 1,0 vez o valor patrimonial", escreveram os analistas, que mantiveram recomendação market perform (equivalente à neutra) para SANB11.
ROE deve seguir pressionado
O Safra também considera que o balanço foi negativo para as ações. Para o banco, embora as provisões mais elevadas fossem amplamente esperadas, o maior problema continua sendo a deterioração da margem financeira e seus efeitos sobre os próximos resultados.
"Isso ainda sugere um ritmo forte de deterioração da carteira de crédito, principalmente nos segmentos de pessoas físicas, pequenas e médias empresas e agronegócio", afirma o banco.
O Safra prevê que a pressão sobre a margem com clientes deve continuar. "Acreditamos que essa tendência negativa da NII com clientes deve persistir, mantendo o ROE abaixo de 15% por um período prolongado."
Para o Citi, mesmo com uma normalização gradual do custo de risco nos próximos trimestres, ele continuará acima dos níveis observados em 2025, mantendo pressão sobre a rentabilidade.
Na Empiricus Research, o analista Ruy Hungria também avaliou que o balanço veio pior do que o esperado, refletindo uma carteira de crédito mais sensível em um ambiente macroeconômico ainda pressionado por juros elevados.
"Com um ROE de apenas 12,5% e um cenário que deve se manter desafiador, os resultados do 2T26 apenas reforçam a nossa cautela com o Santander. Dado o histórico de execução, a operação de crédito 'na mão' e a perspectiva de bons resultados independentemente do macro, o Itaú segue sendo o preferido da Empiricus entre os bancões."
Ainda vale apostar em SANB11?
Apesar da reação negativa ao balanço, o JP Morgan manteve recomendação overweight (compra) para as ações.
Na avaliação da instituição, o fato de SANB11 negociar próximo do valor patrimonial limita parte da pressão adicional sobre os papéis.
Além disso, as provisões mais elevadas registradas neste trimestre podem facilitar as comparações do custo de risco ao longo do segundo semestre.
"Assim, o principal ponto negativo e foco de atenção passa a ser o entendimento da dinâmica dos spreads daqui para frente", resume o banco.
