SpaceX decola em Wall Street enquanto Microsoft tenta justificar bilhões em IA

A SpaceX encostou na Microsoft e ultrapassou a Amazon em valor de mercado na terça-feira, 16. As ações da empresa de Elon Musk subiram 4,8% no fechamento, levando a capitalização de mercado a US$ 2,65 trilhões — cerca de US$ 8 bilhões acima da Amazon, que ficou em sexto lugar entre as empresas mais valiosas do mundo.
Na máxima do dia, a SpaceX chegou a superar também a própria Microsoft, tornando-se brevemente a quarta maior empresa do mundo, antes de recuar e fechar o pregão atrás da rival de Redmond.
A Microsoft, paradoxalmente, é hoje a pior ação do grupo das 7 Magníficas em 2026, em queda de cerca de 17% no ano, contra uma alta de aproximadamente 4% do S&P 500 no mesmo período.
As duas trajetórias, andando em direções opostas na mesma semana, resumem o que Wall Street está debatendo agora: o quanto vale a promessa da inteligência artificial — e quem está realmente entregando resultado?
Por que a Microsoft só cai
O problema da Microsoft tem nome e está em todos os balanços recentes da empresa: capex crescendo mais rápido do que a receita consegue justificar.
A empresa registrou o pior trimestre desde a crise financeira de 2008, com queda acumulada de cerca de 24% no primeiro trimestre do ano.
O gasto projetado em infraestrutura de IA para o ano fiscal de 2026 chega a US$ 190 bilhões, bem acima da previsão de consenso de Wall Street, de US$ 154,6 bilhões.
Em janeiro, a Microsoft perdeu US$ 357 bilhões em valor de mercado num único pregão, a maior queda diária desde março de 2020, após divulgar gastos recordes e crescimento mais lento do Azure.
Em abril, mesmo com lucro 23% maior e receita acima do esperado, a ação caiu mais de 4% — porque dois terços do capex do trimestre foram destinados a GPUs e CPUs de vida curta, ativos que se desgastam rápido e pressionam a margem.
O Copilot que não decola
O segundo problema é mais específico.
O Copilot, principal aposta de monetização de IA da Microsoft, não está convertendo na velocidade que o mercado esperava. Apenas 3,3% da base comercial do Microsoft 365 havia migrado para assentos pagos do Copilot até o início de 2026, e a participação da empresa no mercado americano de assinantes pagos de IA caiu 39% em seis meses, segundo a Tech Insider.
O UBS cortou o preço-alvo da ação de US$ 600 para US$ 510, citando especificamente essa fraqueza na adoção do Copilot — mesmo mantendo recomendação de compra.
Há ainda a questão da dependência da OpenAI. 45% das obrigações de performance remanescentes da Microsoft, totalizando US$ 625 bilhões, estão vinculadas à parceria com a criadora do ChatGPT.
Se a OpenAI não cumprir seu backlog de pedidos, a Microsoft sente o impacto direto.
Por que a SpaceX só sobe
O IPO da SpaceX, em 12 de junho, avaliou a empresa em US$ 1,77 trilhão. Em três pregões, as ações subiram mais de 60% acima do preço de abertura de US$ 135 — um ritmo de criação de valor sem precedentes na história recente das bolsas americanas, segundo dados do Yahoo Finance.
A diferença fundamental entre os dois casos é a narrativa que sustenta o preço. A Microsoft já é uma gigante estabelecida, com receita previsível e investidores acostumados a cobrar retorno trimestral sobre capital investido.
A SpaceX, recém-chegada à bolsa, ainda está na fase em que o mercado compra a história — foguetes, internet via satélite, inteligência artificial via xAI, e agora ferramentas de programação com a aquisição da Cursor por US$ 60 bilhões — sem exigir, por ora, prova imediata de retorno proporcional ao preço pago.
O contraste fica mais nítido nos números operacionais.A SpaceX faturou US$ 18,7 bilhões em 2025 e teve prejuízo de US$ 4,9 bilhões.
A Amazon, que a SpaceX acabou de superar em valor de mercado, faturou US$ 717 bilhões e teve lucro de US$ 77,7 bilhões, mais lucro do que a SpaceX teve em receita total.
É a desconexão que a CFRA citou ao abrir cobertura da SpaceX com recomendação de venda e preço-alvo de US$ 115, quase 50% abaixo do preço de fechamento de terça.
O que isso diz sobre a corrida da IA
Os dois casos, lidos juntos, mostram uma divisão clara na forma como o mercado está precificando IA.
Empresas que já existiam antes do auge e que agora precisam justificar capex crescente com receita mensurável (como a Microsoft) estão sendo punidas por qualquer sinal de que o retorno está demorando.
Empresas novas, ou que ainda não têm histórico trimestral suficiente para serem cobradas da mesma forma (como a SpaceX), estão sendo recompensadas pela promessa, não pelo resultado.
Nenhum dos hyperscalers — Microsoft, Meta, Amazon e Alphabet — demonstrou retorno positivo em escala sobre seus investimentos em infraestrutura de IA até agora.
A pergunta que conecta os dois casos é a mesma: quanto tempo o mercado está disposto a esperar e para quais empresas essa paciência ainda existe.
