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24/10/2026
9 min

Stablecoins e o mito do depósito que vira crédito

Bancos dos EUA dizem que remunerar stablecoins reduziria o crédito no país, mas será mesmo?

Stablecoins e o mito do depósito que vira crédito

Por John Delaney*

Em setembro, o Senado americano enterrou o Clarity Act, o projeto que definiria as regras do mercado cripto e em torno do qual a indústria brigou por mais de um ano. A maior briga, durante quase todo esse tempo, se resumia a uma pergunta: stablecoins podem pagar juros? A indústria cripto achava que sim. Os bancos achavam que de jeito nenhum, e os bancos têm muitos lobistas.

O argumento dos bancos tinha duas partes. Primeiro: se as stablecoins pagarem mais juros do que os depósitos bancários, as pessoas vão preferir as stablecoins, e o dinheiro vai sair dos bancos. Segundo: com menos dinheiro, os bancos terão menos para emprestar, o crédito vai secar, e as famílias e as pequenas empresas vão sofrer. Pensem nas famílias! (Os lobistas dos bancos sempre querem que você pense nas famílias.)

A primeira parte está obviamente correta. É na segunda que a coisa fica interessante.

O problema do refrigerante grátis

Imagine que você tem uma barraca de cachorro-quente. Do outro lado da rua, um concorrente vende o mesmo cachorro-quente pelo mesmo preço, mas dá um refrigerante de graça. Você tem um problema. O normal, nessa situação, é melhorar o seu cachorro-quente, baixar o preço ou dar um refrigerante também. Isso se chama concorrência, e em tese é uma coisa boa.

Mas existe outra opção: ligar para a Anvisa. Você explica, com voz muito séria, que refrigerante grátis é uma questão de saúde pública. Açúcar demais, gente viciada, crianças tomando refrigerante no café da manhã. E quem vai cuidar dessas famílias? (As famílias de novo.) Se a Anvisa comprar a ideia, seu concorrente fica proibido de dar refrigerante, e você pode voltar a vender cachorro-quente sem refrigerante em paz.

Foi mais ou menos isso que os bancos americanos fizeram. Ninguém foi a Washington dizer “vamos perder clientes”. O que se disse foi: se as stablecoins pagarem juros, o crédito vai secar e o sistema financeiro inteiro fica mais frágil. Troque “saúde pública” por “estabilidade financeira” e a ligação para a Anvisa é a mesma.

No Brasil, essa discussão já ficou para trás, porque os bancos locais competem com refrigerante grátis há mais de uma década. Desde que o Banco Central criou a licença de Instituição de Pagamento, uma leva de fintechs passou a pagar 100% do CDI ou mais sobre o saldo em conta. Os bancos reclamaram, depois competiram, e quem usa serviços financeiros no Brasil, em geral, saiu ganhando.

Mas os bancos não são especiais?

Justiça seja feita aos bancos americanos: o argumento deles não é só "não queremos competir". É "não queremos competir e, além disso, somos especiais". Barraca de cachorro-quente não empresta dinheiro. Banco empresta. Quando o João deposita o dinheiro dele no banco, diz a história, o banco empresta esse dinheiro para o Pedro, que compra um caminhão ou abre uma padaria, e a economia segue girando. Quando o João leva o dinheiro para uma stablecoin, o emissor da stablecoin não o empresta ao Pedro. Então o Pedro fica sem caminhão.

É assim que a maioria de nós aprendeu como os bancos funcionam. Só que, na prática, a coisa é bem diferente.

Os bancos não emprestam o seu depósito

Quando um banco empresta ao Pedro, ele não vai buscar o dinheiro do João para entregar. Ele simplesmente digita um número na conta do Pedro. O empréstimo cria um novo depósito. O saldo do Pedro sobe, a carteira de crédito do banco sobe, e o João nem fica sabendo.

E o que impede um banco de digitar números infinitamente grandes? A resposta é “capital”. Capital é, principalmente, o patrimônio dos acionistas, mais algumas dívidas de longo prazo que absorvem prejuízos antes dos depositantes. Pelas regras de Basileia, adotadas no Brasil e nos Estados Unidos, o capital de um banco precisa cobrir uma parcela mínima dos seus ativos ponderados pelo risco. Quer emprestar mais? Arrume mais capital. E aqui está o ponto central: depósitos não são capital. Depósitos são funding, ou seja, de onde o banco tira o dinheiro para operar.

Agora, depósitos importam sim. Eles cumprem duas funções para um banco. A primeira é simples: depósitos são uma máquina de lucro. O banco paga ao João muito pouco (ou nada) pelo dinheiro que ele deixa na conta, aplica esse dinheiro em ativos como títulos públicos e fica com os juros. Essa diferença entre o que o banco paga e o que ganha é o refrigerante do João, e quem bebe é o banco. A segunda é estabilidade. Quando o Pedro gasta o novo depósito num caminhão e a concessionária tem conta em outro banco, o banco do Pedro precisa de fato transferir esse dinheiro. Por isso um banco precisa de liquidez: um fluxo constante de dinheiro entrando para cobrir o que sai.

Assim, quando o João saca o seu dinheiro, o banco perde parte do seu funding mais barato e mais estável e precisa substituí-lo por algo mais caro (títulos ou depósitos de grandes instituições por exemplo) ou simplesmente remunerar o João o suficiente para ele ficar. É um custo real, mas que afeta o lucro do banco e não a oferta de crédito da economia. São coisas diferentes, e o argumento dos bancos trata as duas como se fossem a mesma coisa.

Os EUA, aliás, testaram isso na prática há pouco tempo. Quando os juros subiram em 2022 e 2023, os depósitos bancários americanos caíram por seis trimestres seguidos. Só em 2023, os fundos de money market captaram US$ 1,1 trilhão. O crédito desabou? Não. Os empréstimos bancários cresceram 8,7% em 2022 e continuaram crescendo em 2023. Os bancos buscaram recursos em outros lugares e pagaram mais aos depositantes; o custo médio de funding saltou de 0,55% para 2,13% em um único ano. Em outras palavras, começaram a dar refrigerante grátis.

Também vale lembrar que os bancos não são a única fonte de crédito. Um volume enorme de empréstimos é financiado diretamente por investidores, sem nenhum depósito envolvido. No Brasil, debêntures, FIDCs, CRIs e CRAs financiam de rodovias e safras de soja até os recebíveis da loja da esquina, e o mercado de capitais brasileiro bateu recorde em 2025, com R$838,8 bilhões em ofertas. Nada disso passa pela conta corrente do João.

O Brasil já viu esse filme

Se o argumento dos bancos colasse em algum lugar, seria aqui. No Brasil, os depósitos estão literalmente amarrados ao crédito por regra. Por décadas, 65% dos depósitos da poupança tinham que ir para o crédito imobiliário. Em tese, quando a poupança encolhe, o crédito imobiliário encolhe junto. E a poupança encolheu: foram cinco anos seguidos de saques líquidos, somando mais de R$300 bilhões.

Então o que as autoridades fizeram? Seria de se esperar que protegessem a poupança da concorrência, proibindo os refrigerantes grátis, por assim dizer. Fizeram o contrário. O Banco Central avaliou que a queda era estrutural e, em outubro de 2025, anunciou um novo modelo de crédito imobiliário. A exigência de 65% acaba depois de uma transição, com efeito pleno em janeiro de 2027, e instituições que nem captam poupança poderão financiar crédito imobiliário com recursos de mercado.

O BC não concluiu que os poupadores deveriam ganhar menos. Concluiu que os bancos deveriam buscar dinheiro em outro lugar. E lugar não falta: LCIs, letras imobiliárias garantidas, securitização. Só as LCIs já somam R$473 bilhões, quase um quinto de todo o crédito imobiliário. Tanto que, mesmo com a poupança sangrando, as concessões de crédito imobiliário bateram recorde em 2024 e cresceram de novo em 2025. E os bancos brasileiros vão bem: lucraram R$255 bilhões em 2025, também um recorde.

Quem subsidia quem?

O governo brasileiro se financia à Selic, hoje em 13,75%. Como devedor, o governo tem uma vantagem que você e eu não temos: se faltar dinheiro, ele pode aumentar os impostos de quem empresta para ele. Esse superpoder faz do governo o devedor mais seguro do país, e por isso ninguém deveria conseguir dinheiro mais barato do que ele. Ou seja, se alguém espera captar recursos a menos de 13,75%, está pedindo um subsídio. Tudo bem, subsídios existem. Mas alguém está pagando por isso.

Muitas vezes, esse alguém é o João. O João trabalha muito. O João paga seus impostos, e uma parte considerável deles vai para os juros da dívida pública. O João recebe o salário numa conta bancária. Se esse saldo não rende nada, o João está subsidiando o lucro do banco. Se está na poupança, que paga 0,5% ao mês mais TR enquanto a Selic está muito acima disso, o João está subsidiando o sistema de crédito imobiliário.

Quando o João leva o dinheiro para onde recebe os juros que merece, seja uma conta bancária melhor, uma conta de pagamento ou uma stablecoin, ele não está tirando crédito da economia. Só parou de deixar os outros beberem o refrigerante dele.

Então, o que acontece de fato?

Os bancos precisam competir. Pagam mais aos depositantes, buscam outras fontes de recursos e ficam mais enxutos. Isso é chato para os bancos, do mesmo jeito que é chato para a barraca de cachorro-quente começar a dar refrigerante.

É preciso reconhecer: algumas pesquisas sugerem que bancos menores, que dependem mais de depósitos, de fato reduzem o crédito quando os depósitos saem rápido. É um argumento válido, e é um motivo para conduzir transições com cuidado, como o Banco Central está fazendo com o crédito imobiliário. Não é motivo para deixar o dinheiro do João rendendo zero para sempre.

Para os bancos, concorrência é custo. Para o João, e para uma economia que já paga alguns dos juros reais mais altos do mundo, é progresso. E, de quebra, o João finalmente bebe o próprio refrigerante.

*John Delaney é CEO da emissora de stablecoins, Crown

AutorJohn Delaney
FonteExame
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