Stablecoins mostram que era discada da internet do dinheiro está acabando

Por Hector Fardin*
A internet não transformou o mundo quando surgiu. Ela mudou o mundo quando deixou de ser percebida. Durante anos, conectar-se exigia paciência, conhecimento técnico e o som característico da internet discada. Hoje, pedir um carro, assistir a um filme ou fazer uma transferência bancária acontece sem que ninguém pense na infraestrutura que torna tudo isso possível.
As stablecoins caminham para esse mesmo destino. Embora ainda sejam frequentemente associadas ao universo das criptomoedas, elas estão deixando de ser um ativo de nicho para se consolidarem como uma nova infraestrutura de pagamentos globais.
A transformação não acontece apenas pela evolução tecnológica, mas pela combinação de três fatores que raramente avançam no mesmo ritmo: adoção, regulação e demanda do mercado. Os sinais dessa mudança já aparecem no cotidiano, ainda que passem despercebidos pela maior parte das pessoas.
Hoje, um argentino consegue pagar via Pix no Brasil sem possuir CPF nem conta bancária local. Da mesma forma, um brasileiro pode quitar a fatura de um cartão emitido no exterior utilizando apenas um Pix. Para o usuário, a experiência parece simples e familiar. Nos bastidores, porém, o dinheiro percorre outro caminho: stablecoins fazem a liquidação internacional da operação em questão de segundos.
Mercado de stablecoins
Esses exemplos ainda são pontuais, mas ilustram uma transformação muito maior. Assim como ninguém precisou entender protocolos de internet para usar o WhatsApp ou pedir um carro por aplicativo, o usuário também não precisará compreender blockchain para utilizar serviços financeiros construídos sobre essa tecnologia.
Segundo dados publicados pelo Federal Reserve, o mercado global de stablecoins alcançou aproximadamente US$ 317 bilhões em 2026, após crescer mais de 50% desde o início de 2025. Somente no último ano foram movimentados mais de US$ 33 trilhões em transações on-chain, volume que supera o processado anualmente pela rede da Visa.
As projeções seguem a mesma direção. O Citi estima que esse mercado poderá alcançar US$ 1,9 trilhão até 2030, podendo chegar a US$ 4 trilhões em um cenário mais otimista.
No Brasil, a mudança também deixou de ser apenas uma expectativa. Estudo divulgado pela Receita Federal mostra que as stablecoins já representam cerca de 80% de todo o volume de criptoativos declarado no país.
Em alguns meses, as movimentações ultrapassaram dezenas de bilhões de reais, confirmando um comportamento que o próprio Banco Central vem destacando: a maior parte da atividade envolvendo ativos digitais no Brasil não está relacionada à especulação, mas ao uso de moedas digitais lastreadas para pagamentos, remessas internacionais e proteção patrimonial.
Reconhecimento regulatório dos ativos digitais
Em outras palavras, a discussão deixou de ser se as stablecoins encontrarão aplicações práticas. Elas já encontraram. O debate agora é em que velocidade passarão a fazer parte da infraestrutura financeira utilizada diariamente por empresas e consumidores.
Se durante anos a principal crítica às stablecoins estava relacionada à falta de segurança jurídica, 2026 marca justamente a mudança desse cenário.
As principais economias do mundo caminham para reconhecer os criptoativos como instrumentos regulados de pagamento, exigindo reservas integrais, transparência, auditorias e emissores autorizados. Nos Estados Unidos, o debate regulatório entrou em uma fase decisiva. Na Europa, o MiCA encerra seu período de transição e estabelece um marco regulatório comum para os países do bloco. Hong Kong também passou a conceder suas primeiras licenças para emissores.
O Brasil acompanha esse movimento. As novas resoluções do Banco Central consolidaram um modelo de supervisão para prestadores de serviços de ativos virtuais, estabeleceram critérios para emissão de stablecoins e integraram essas operações ao arcabouço regulatório do mercado de câmbio.
Essa mudança talvez seja menos visível do que os avanços tecnológicos, mas é igualmente importante. Mercados financeiros não são construídos apenas sobre código. São construídos sobre previsibilidade.
Quando investidores institucionais, grandes empresas e instituições financeiras encontram regras claras, passam a enxergar um ambiente onde é possível investir, inovar e operar em escala. O setor deixa de ocupar uma zona cinzenta para se tornar parte da infraestrutura oficial do sistema financeiro.
Democratização do acesso
Existe um padrão recorrente na história das grandes transformações tecnológicas. Primeiro, surge uma inovação acessível apenas para especialistas. Depois, empreendedores constroem camadas de experiência capazes de esconder toda a complexidade técnica. Por fim, a tecnologia desaparece da percepção do usuário e passa a fazer parte do cotidiano.
Foi exatamente assim com a internet. Nos anos 1990, navegar exigia computadores específicos, conexões lentas e uma série de configurações que hoje parecem impensáveis. Somente anos depois, com a expansão da banda larga, dos smartphones e das lojas de aplicativos, a internet deixou de ser um assunto técnico para se tornar apenas um meio invisível através do qual usamos Uber, iFood, streaming, redes sociais e praticamente todos os serviços digitais.
Isso não será permanente, mesmo sendo comum que usuários precisem entender conceitos como carteiras digitais, redes, taxas de transação ou conversão entre moedas tradicionais e ativos digitais. Essa complexidade faz parte da fase inicial de qualquer infraestrutura.
Assim como ninguém precisa conhecer os protocolos que fazem um aplicativo de mensagens funcionar, também não será necessário compreender blockchain para enviar dinheiro entre países, investir ou realizar pagamentos internacionais. A tecnologia continuará presente. Apenas deixará de ser percebida.
*Hector Fardin é cofundador e diretor de compliance da Avenia
