Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercadosACSBDR
09/10/2026
8 min

Starlink, de Elon Musk, vai virar operadora no Brasil? Os riscos para Vivo e TIM

UBS BB analisa os passos da SpaceX no país e aponta os sinais a acompanhar

Starlink, de Elon Musk, vai virar operadora no Brasil? Os riscos para Vivo e TIM

A possibilidade de a SpaceX, empresa de Elon Musk, transformar a Starlink em uma concorrente direta das operadoras tradicionais de telefonia móvel ainda não encontra respaldo nas iniciativas identificadas no Brasil. Em relatório publicado nesta sexta-feira, 9, o UBS BB afirma que o país está entre os três maiores mercados globais da Starlink, mas não encontrou evidências de que a companhia pretenda replicar aqui a estratégia de serviços sem fio que está desenvolvendo nos Estados Unidos.

A avaliação ocorre um dia depois de a SpaceX anunciar um acordo para adquirir um portfólio de frequências de 800 megahertz (MHz) nos EUA. A operação, que depende de aprovação regulatória, reforça a possibilidade de a empresa combinar conectividade via satélite e infraestrutura terrestre para ampliar sua atuação no mercado de telefonia móvel.

O anúncio provocou quedas nas ações de operadoras americanas e europeias e também repercutiu na bolsa brasileira.

Por volta das 15h desta sexta, as ações da Telefônica Brasil, dona da Vivo, caíam mais de 4% na B3 nesta sexta-feira, enquanto os papéis da TIM recuavam mais de 3%. A Claro, por sua vez, não tem ações negociadas no pregão da bolsa brasileira.

SpaceX não deve criar quarta operadora de telefonia no Brasil

Para o UBS BB, o tamanho do mercado brasileiro faz do país um dos principais casos a observar caso a SpaceX decida levar sua estratégia americana para outros mercados. Isso, porém, não significa que a companhia esteja preparando uma entrada como operadora tradicional.

"Não encontramos evidências de que a SpaceX tenha decidido replicar no Brasil o modelo mais amplo de serviços sem fio que está sendo montado atualmente nos Estados Unidos", afirmam os analistas.

O banco distingue dois movimentos: a expansão da conectividade móvel via satélite, para a qual já identifica iniciativas concretas no Brasil, e a construção de uma operação de telefonia móvel com espectro e infraestrutura terrestres próprios, para a qual não encontrou sinais equivalentes.

Starlink já busca ampliar conexão com celulares no Brasil

O UBS BB identificou evidências de que a SpaceX está avançando na frente de conectividade móvel no país. Segundo o relatório, a empresa solicitou direitos adicionais de uso da banda S, discutiu com órgãos reguladores serviços de voz, mensagens e banda larga diretamente para dispositivos e mantém uma frente regulatória dedicada ao Starlink Mobile.

A companhia também indicou ter obtido as autorizações necessárias para iniciar serviços de conexão direta entre satélites e dispositivos móveis, tecnologia conhecida como Direct-to-Device (D2D) — utilizando espectro de uma operadora brasileira parceira.

O modelo permite conectar celulares convencionais diretamente aos satélites, sem depender exclusivamente de antenas terrestres no ponto de conexão. Na avaliação do banco, os movimentos indicam que a SpaceX busca ampliar sua atuação para além da banda larga via satélite, mas ainda não demonstram uma intenção de se tornar uma operadora móvel independente no Brasil.

"Isso não significa que as parcerias sejam a única opção da empresa. Significa simplesmente que as evidências apontam atualmente para as parcerias", diz o banco.

O relatório menciona discussões envolvendo a Vivo, relatadas pela imprensa especializada em telecomunicações, e afirma que os movimentos identificados até agora se aproximam mais do modelo original da parceria entre Starlink e T-Mobile, nos EUA, do que da estratégia mais recente da SpaceX de acumular ativos de espectro terrestre.

Essa diferença é central para as operadoras brasileiras. No modelo baseado em parcerias, a tecnologia via satélite pode complementar a cobertura das redes existentes. Já uma operação própria, com frequências terrestres e infraestrutura de acesso por rádio, abriria caminho para uma concorrência mais direta com as empresas estabelecidas.

Faixa de 850 MHz é o principal ponto de atenção

O próximo sinal a acompanhar, segundo o UBS BB, é o processo envolvendo a faixa de 850 MHz no Brasil. A frequência é o paralelo mais próximo ao espectro de 800 MHz que a SpaceX anunciou ter adquirido nos Estados Unidos.

"A importância estratégica do portfólio de 800 MHz é que ele fornece a camada de cobertura em faixa baixa necessária para atender locais onde a conectividade apenas por satélite permanece menos eficaz, incluindo ambientes urbanos densos e locais fechados", afirma o UBS BB.

O banco considera que a faixa de 850 MHz poderia cumprir papel semelhante no Brasil, caso a SpaceX decidisse construir uma arquitetura híbrida de conectividade móvel. Mas ressalta que essa frequência, isoladamente, não seria suficiente para reproduzir o modelo americano.

Nos Estados Unidos, a estratégia da empresa inclui, além do espectro de baixa frequência, aquisições pendentes de ativos da EchoStar nas faixas AWS-3, AWS-4 e H-Block. O conjunto permitiria combinar frequências voltadas à cobertura com outras destinadas a ampliar a capacidade da rede.

No Brasil, o UBS BB não identificou um caminho equivalente para a formação de um portfólio mais amplo de espectro móvel terrestre. "Mesmo em um cenário em que a empresa consiga adquirir espectro de banda baixa no Brasil, provavelmente ainda seriam necessários ativos de espectro adicionais para replicar a arquitetura mais ampla dos EUA", afirma o relatório.

O banco também não encontrou evidências de que a SpaceX tenha manifestado interesse em participar de um futuro leilão de 850 MHz ou solicitado espectro móvel terrestre no país.

SpaceX poderia disputar frequências sem comprar redes das operadoras

Uma eventual entrada da SpaceX no mercado de espectro terrestre brasileiro não dependeria necessariamente da aquisição deativos da Vivo, da TIM ou da Claro. Segundo o UBS BB, a empresa poderia participar diretamente de futuros leilões promovidos pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

"Não encontramos nenhuma barreira regulatória óbvia que impedisse a SpaceX de participar de futuros leilões de espectro por meio de uma pessoa jurídica brasileira, sujeita aos mesmos requisitos de qualificação impostos a outros participantes", afirma.

A possibilidade regulatória, contudo, não deve ser confundida com uma decisão de investimento. O relatório não identificou pedidos de espectro terrestre pela companhia nem anúncios de planos para implantar uma rede própria de acesso por rádio, conhecida pela sigla RAN.

Esses seriam passos importantes para uma mudança de estratégia. A infraestrutura terrestre continua necessária para oferecer conectividade confiável em áreas de alta densidade e no interior de edifícios, enquanto uma operação móvel integrada exigiria a combinação de diferentes faixas de espectro e outros componentes de rede.

"Encontramos evidências substanciais de que a SpaceX está buscando oportunidades de conectividade móvel no Brasil", diz o UBS BB. "O que não encontramos hoje são indícios de que a SpaceX tenha decidido replicar no Brasil o modelo mais amplo de serviços sem fio que está montando nos Estados Unidos".

Por que o anúncio nos EUA preocupa o setor

Nos Estados Unidos, a compra de frequências de 800 MHz pela SpaceX acrescenta uma peça à estratégia de ampliar aindependência da Starlink em relação às operadoras tradicionais. A empresa anunciou a aquisição de 100% do portfólio nacional da Grain Management, que inclui até 14 MHz de espectro pareado nessa faixa.

O movimento se soma a transações pendentes envolvendo ativos terrestres da EchoStar e à expansão da constelação de satélites móveis. A proposta é combinar a conexão direta entre satélites e celulares com frequências e infraestrutura capazes de melhorar o desempenho em áreas nas quais a cobertura exclusivamente espacial enfrenta limitações.

A reação do mercado foi imediata. As ações da AT&T, da Verizon e da T-Mobile recuaram cerca de 6% a 8% após o anúncio, segundo o UBS BB. Nesta sexta-feira, os papéis de operadoras europeias também registravam perdas, e o índice Stoxx Europe 600 Telecommunications chegou a cair 3,3%, ao menor nível desde fevereiro.

A preocupação dos investidores é quea SpaceX avance de uma posição complementar às redes tradicionais para a de concorrente com infraestrutura própria. No Brasil, porém, o UBS BB avalia que as evidências disponíveis ainda sustentam principalmente a primeira hipótese.

O que os investidores devem monitorar

Para o UBS BB, o principal ponto não é mais saber se a SpaceX pretende expandir a conectividade móvel via satélite no Brasil, mas se começará a buscar os ativos adicionais necessários para operar de maneira mais independente.

O banco destaca quatro sinais a acompanhar: participação em futuros leilões de espectro de baixa frequência, especialmente na faixa de 850 MHz; aquisição de frequências móveis terrestres; indícios de implantação de infraestrutura terrestre; e novas iniciativas regulatórias compatíveis com uma estratégia mais ampla de telefonia móvel.

Até que esses movimentos apareçam, o relatório recomenda cautela ao extrapolar para o Brasil a estratégia que a SpaceX está desenvolvendo nos Estados Unidos. Embora o país seja um dos mercados mais relevantes da Starlink, a expansão dos serviços via satélite não representa, por si só, evidência de que a empresa pretende competir diretamente com Vivo, TIM e Claro.

AutorClara Assunção
FonteExame
Distribuído por