Startup americana quer usar espelhos em órbita para gerar energia limpa à noite

Um plano arriscado para iluminar alguns pontos da Terra à noite está um passo mais perto de se tornar realidade.
Na semana passada, autoridades americanas aprovaram uma missão para lançar um espelho gigante ao espaço, onde o dispositivo refletirá a luz solar em áreas sombreadas do globo.
A responsável é a Reflect Orbital, startup sediada na Califórnia, que promete disponibilizar "energia limpa e abundante sob demanda", que funcionaria como uma luz diurna artificial para aumentar a produtividade agrícola, auxiliar em esforços de socorro a desastres climáticos e permitir que painéis solares gerem eletricidade mesmo à noite.
O plano de longo prazo prevê 50 mil espelhos em órbita até 2035, número suficiente para produzir luminosidade equivalente ao meio-dia em pontos específicos do planeta.
A promessa central da empresa está justamente no grande dilema da energia solar: painéis fotovoltaicos param de gerar eletricidade quando o sol se põe.
Se um espelho em órbita conseguir redirecionar luz solar para uma usina solar durante o período noturno, a ideia é que essa geração não precise parar. É esse o argumento de "energia limpa sob demanda" que a Reflect Orbital usa para se posicionar como solução climática.
Mas a aprovação, concedida pela Comissão Federal de Comunicações dos EUA em 9 de julho, não resolve a controvérsia em torno da tecnologia.
Astrônomos temem que os feixes de luz dos espelhos interfiram nos equipamentos sensíveis dos telescópios terrestres e aumentem a poluição luminosa.
"Com 50.000 satélites, isso provavelmente significaria o fim da astronomia terrestre, ou pelo menos da astronomia óptica", afirma Roohi Dalal, vice-diretora de políticas públicas da Sociedade Astronômica Americana, em entrevista à Nature.
A startup rebateu a preocupação, dizendo que ela "demonstra uma falta de compreensão da solução" e afirmou que estão trabalhando em mecanismos de segurança para não interferir no trabalho de astrônomos.
Segundo um porta-voz, conversas com cientistas já influenciaram o projeto da espaçonave e os planos operacionais do negócio, e devem continuar a acontecer.
O que vem primeiro: o teste
Antes da rede de 50 mil satélites, a Reflect Orbital planeja lançar ainda este ano seu primeiro satélite, batizado de Eärendil-1, em uma órbita a 625 quilômetros de altitude.
A espaçonave, do tamanho de uma mini-geladeira, vai implantar um espelho do tamanho de uma quadra de tênis, mas 28 vezes mais fino que um fio de cabelo humano.
O objetivo é testar os mecanismos de implantação e apontamento, direcionando luz solar para múltiplos locais de teste.
O primeiro espelho deve iluminar uma área de aproximadamente 24 quilômetros quadrados na superfície terrestre, e a luz poderá ser desligada quando necessário, informou a startup.
"Este primeiro satélite será um campo de provas, e teremos a oportunidade de demonstrar como podemos gerar impacto positivo no mundo sem direcionar a luz para onde as pessoas não querem", diz Ben Nowack, cofundador da Reflect Orbital.
Segundo ele, a equipe já produziu centenas de protótipos de espelhos, e a empresa pretende lançar mais missões de teste, convidando pesquisadores independentes para estudar os efeitos dos dispositivos.
Missão arriscada, segundo cientistas
O próprio Nowack reconhece que a missão é "incrivelmente arriscada" e diz que a empresa está disposta a assumir esse risco.
Como qualquer satélite, um pequeno erro em hardware ou software pode levar a uma implantação incorreta do espelho, segundo Darren McKnight, pesquisador técnico sênior da LeoLabs, empresa de rastreamento de detritos espaciais sediada em Menlo Park, Califórnia.
Depois de implantado, o espelho também estará exposto a detritos espaciais, fragmentos de milímetros e centímetros comuns na altitude em que o satélite vai orbitar, que podem reduzir sua eficácia em impactos repetidos.
A promessa de resolver a intermitência solar não é nova. No Brasil, o mercado de armazenamento em baterias (BESS) já avança como resposta ao gargalo do setor elétrico e traz a expectativa de um leilão pioneiro em dezembro.
