Startup cria IA que cruza exames laboratoriais e genéticos e mira faturamento de R$ 8 milhões
PoliHealth integra exames laboratoriais, histórico familiar e hábitos de vida para apoiar decisões clínicas; startup projeta alcançar 30 mil profissionais de saúde em três anos

Reunir e analisar exames de pacientes por inúmeras folhas físicas ou arquivos de plataformas distintas ainda é parte do cotidiano dos médicos. Com experiência em gestão Rodrigo Faria Matheucci, idealizou uma startup que reduziria essa "bagunça" e ainda contribui na análise do histórico dos pacientes.
O diferencial da plataforma nomeada de PoliHealth está na integração dos exames genéticos ao prontuário. Além de reunir exames laboratoriais, histórico familiar e hábitos de vida, a plataforma cruza essas informações com variantes genéticas para destacar riscos que poderiam passar despercebidos e apoiar a tomada de decisão do médico durante a consulta.
A análise genética vem ganhando destaque no país. Neste ano, o SUS passou a incorporar o exame de exoma completo, sequenciamento que analisa os genes ligados a doenças.
"Começamos a perceber que os exames genéticos preventivos estavam se popularizando, mas não tanto quanto imaginávamos. O profissional recebia centenas de informações e aquilo acabava virando um monte de PDF sem aplicação prática", afirma Rodrigo Faria Matheucci, fundador e CEO da PoliHealth.
Nos próximos três anos, a startup pretende alcançar 30 mil profissionais de saúde usuários da plataforma e faturar R$ 8 milhões. O lançamento comercial para o mercado está previsto para agosto.
O problema estava nos relatórios, não nos exames
A origem da PoliHealth veio da experiência de Matheucci na DNA Club, empresa especializada em genética da qual também é sócio. Durante a pandemia, a operação cresceu impulsionada pelos testes de covid-19, mas outro movimento chamou atenção: a demanda por exames genéticos preventivos. Foi a partir dessa oportunidade que Matheucci estruturou a startup ao lado de Felipe Spritzer, sócio investidor e advisor da empresa.
Os exames entregavam centenas de informações sobre predisposição a doenças cardiovasculares, câncer, Alzheimer, alterações metabólicas e resposta a medicamentos. O problema aparecia depois da entrega do resultado.
"O profissional acabava recebendo essas informações do paciente, mas elas ficavam perdidas. A gente começou a discutir como transformar esse dado em apoio à conduta clínica", diz.Em vez de criar mais um software de prontuário eletrônico, a empresa decidiu construir uma camada de inteligência capaz de correlacionar exames laboratoriais, genética, histórico familiar e evolução clínica do paciente.
Antes do lançamento, a startupentrevistou dezenas de médicos e nutricionistas para entender a rotina dos consultórios. "O profissional gasta muito tempo anotando informações, procurando exames enviados por e-mail e tentando interpretar relatórios genéticos. Na consulta, isso acaba consumindo tempo que deveria estar com o paciente", afirma.
A empresa também identificou outra barreira: o crescimento acelerado das ferramentas de inteligência artificial. "Hoje tem muito barulho de IA. Muita propaganda de ferramentas que, na prática, não foram desenvolvidas para a saúde. Quando você coloca dados de pacientes em plataformas genéricas, existe uma preocupação legítima com privacidade", diz.
A plataforma foi desenvolvida para anonimizar os dados e permitir que o próprio paciente controle quais profissionais podem acessar seu histórico, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A empresa afirma que não comercializa informações com seguradoras, laboratórios ou farmacêuticas.
Da genética para a decisão clínica
A principal aposta da PoliHealth é usar inteligência artificialespecializada em genética, em vez de recorrer apenas a modelos generalistas. Durante o desenvolvimento, a empresa criou uma base própria para correlacionar alterações em exames laboratoriais com variantes genéticas e literatura científica.
Matheucci cita o próprio caso como exemplo. Seu mapeamento genético aponta para hemocromatose, condição que a mãe já foi diagnosticada. Isoladamente, seus exames não indicavam o problema. Foi o cruzamento com a evolução do ferro e da ferritina que fez a plataforma sinalizar a necessidade de acompanhamento mais próximo.
"A PoliHealth não vai substituir o médico. Ela aponta quais são os pontos críticos daquele paciente, algo que muitas vezes passa despercebido pela quantidade de exames e pela velocidade da consulta", afirma.
Consultórios antes dos hospitais
Em vez de iniciar a operação negociando com hospitais e operadoras, a startup escolheu os consultórios como porta de entrada. A decisão reduz o ciclo comercial e permite validar o produto com mais rapidez.
A PoliHealth iniciou um piloto com cerca de 20 médicos e nutricionistas. Após ajustes feitos durante aproximadamente 45 dias, lançou uma versão para um grupo de 400 profissionais.
Hoje, a plataforma reúne mais de 200 pacientes cadastrados, e parte dos profissionais que participaram do piloto tornou-se cliente pagante após a liberação da primeira versão comercial da plataforma.
Com o lançamento oficial em agosto, o tíquete médio esperado está entre R$ 300 e R$ 400 por mês.
Congressos e pacientes como divulgação
A primeira vitrine da PoliHealth será o Congresso Brasileiro de Nutrologia, que acontece em setembro, em São Paulo. A empresa terá um estande próprio para apresentar a plataforma a médicos da especialidade, público que costuma utilizar exames laboratoriais e testes genéticos na rotina clínica.
A participação em eventos especializados faz parte da estratégia para conquistar os primeiros clientes.
A startup também aposta no paciente como canal de distribuição. Até o fim de agosto, a empresa pretende lançar um aplicativo que funcionará como uma carteira digital de saúde, reunindo exames, carteira de vacinação, histórico clínico e registros feitos pelo próprio usuário. As informações poderão ser compartilhadas com médicos autorizados pelo paciente, facilitando o acesso ao histórico durante a consulta.
"Se o paciente chega ao consultório com todas as informações organizadas, ele pode convidar o médico a acessar esse histórico. Isso ajuda a conectar as duas pontas", afirma Matheucci.
No médio prazo, a empresa pretende estabelecer parcerias com instituições de ensino para aproximar a plataforma de estudantes de medicina e profissionais em formação. A ideia é que os médicos tenham contato com a ferramenta ainda durante a graduação e a residência.
A ambição da startup é se tornar uma camada de inteligência para o setor de saúde. Além de expandir a base de usuários, a empresa pretende disponibilizar sua tecnologia para integração com outras plataformas e consolidar a ferramenta como um copiloto para médicos e outros profissionais de saúde.
"Quanto mais informação e mais acesso facilitado a essas informações, melhores vão ser os atendimentos”, diz Matheucci.
