Startup de biometria para estádios expande na América Latina para chegar aos R$ 26 milhões
A Bepass prevê faturar R$ 26 milhões em 2026 e aposta em novos produtos, como pagamento facial e validação de meia-entrada

Desde junho de 2025, estádios com mais de 20 mil lugares, no Brasil, são obrigados a ter identificação biométrica para a entrada do público. Mas antes disso, uma empresa de tecnologia já entrava nesse mercado. A Bepass foi fundada em 2022, mesmo ano em que recebeu uma proposta do estádio do Palmeiras para adicionar a tecnologia de reconhecimento facial no local.
Desde então, são nove estádios brasileiros atendidos no Brasil, além de um na Argentina e no Chile. O faturamento chegou a R$ 15 milhões em 2025 e, neste ano, projeta alcançar R$ 26 milhões, com foco na internacionalização e na criação de novos produtos.
“Ainda são poucas as empresas que fazem isso no mundo, e nenhuma opera no volume que conseguimos. Como a biometria facial se tornou obrigatória no Brasil, hoje fazemos um volume de acessos a estádios que nenhuma outra empresa no mundo alcança”, diz Ricardo Cadar, fundador e CEO da Bepass.
Além dos estádios, a startup passou a adotar a tecnologia para a entrada em eventos. Neste ano, aposta na chegada em países como Argentina, Chile e Colômbia e, futuramente, no México e Estados Unidos.
Dos condomínios comerciais aos estádios
Formado em engenharia civil, Ricardo Cadar começou a empreender aos 19 anos em sua área. Foi dentro da sua primeira empresa que conheceu uma empresa de biometria facial, na qual sua construtora investiu em busca de novas frentes de negócio.
Ele se encantou pela tecnologia e passou a estudar e pesquisar sobre a solução. “Eu morei durante dois anos nos Estados Unidos, me aprofundei bastante na tecnologia de biometria facial e comecei a rodar o mundo em busca de novas tecnologias e negócios que pudessem trazer oportunidades para a empresa que tínhamos acabado de adquirir”, afirma.
De volta ao Brasil, passou a dedicar todo o seu tempo à empresa de biometria facial, abandonando as suas funções da área de engenharia. Essa empresa se especializou no atendimento governamental, especialmente escolas.
Para crescer, sugeriu que a empresa passasse a atender também o mercado privado, mas a ideia não foi bem recebida pelo sócio. Cadar, então, deixou a empresa e criou a Bepass, com foco em clientes privados.
Tecnologia de reconhecimento facial da Bepass é utilizada para agilizar e dar mais segurança ao acesso de torcedores (Divulgação)
Sua ideia inicial era resolver o problema de condomínios comerciais. Mas após receber uma proposta do Palmeiras para levar a tecnologia ao estádio do clube, o empresário pivotou. “O Palmeiras estava atrás de uma solução para combater o cambismo, que era um problema grande que o clube enfrentava naquele ano de 2022”, diz Cadar.
Em 2023, a solução já estava completamente implementada — mesmo ano em que foi anunciada a obrigatoriedade da biometria facial para os estádios de mais de 20 mil pessoas, que teriam dois anos para se adaptar.
“Isso nos permitiu conquistar uma fatia relevante do mercado brasileiro de biometria facial, especialmente nos estádios de futebol. Em 2023, percebemos que a mesma solução poderia ser aplicada também ao mercado de eventos”, afirma.
Entre os demais estádios que utilizam a tecnologia da startup estão Maracanã, MorumBIS, Nilton Santos, Vila Belmiro, Arena do Grêmio e Arena Crefisa Barueri.
No modelo de biometria, a Bepass assume todo o investimento inicial, incluindo a instalação de equipamentos, catracas e sistemas, sem custo para o clube. Em contrapartida, a empresa recebe um valor por cada acesso realizado por meio de sua tecnologia.O plano de expansão internacional
A internacionalização aconteceu pela Argentina, com o Club Atlético Vélez Sarsfield. Agora a Bepass amplia a sua atuação para o Chile. Ele acredita que a obrigatoriedade nos estádios brasileiros tenha feito torcedores da América Latina conhecerem a tecnologia e se interessarem.
“Agora, com a chegada ao Chile, conseguimos transformar essa intenção de internacionalização em uma presença concreta em diferentes mercados da América Latina. É um movimento importante para a empresa porque demonstra que a tecnologia desenvolvida e validada no Brasil pode ser aplicada em diferentes realidades e mercados”, afirma Cadar.
A empresa segue a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no Brasil e precisa adaptar a operação às legislações de proteção de dados de cada país onde atua. Segundo o CEO, porém, essas adequações não alteram a essência da solução, que busca tornar o acesso aos estádios mais rápido, fluido e seguro para os torcedores.
Neste ano, a Bepass se dedica a crescer em três países fora do Brasil: Argentina, Chile e Colômbia. Com a consolidação desse mercado, a startup espera chegar ao México e aos Estados Unidos, em 2027.
“Por questões regulatórias e de proteção de dados, a Europa ainda é uma fronteira mais fechada para nós. A legislação de proteção de dados lá é mais restritiva do que nos países da América Latina e nos Estados Unidos. Por isso, queremos focar agora na América Latina e nos Estados Unidos e, só depois, quando houver uma abertura maior na Europa, partir para esse mercado”, diz.
Meia entrada e pagamento por facial
Além do crescimento para novos países, a empresa lança, neste ano, novas funcionalidades que podem agregar na receita.
Entre os lançamentos estão o Bepass Pay, que é o pagamento dentro dos estádios utilizando a própria biometria facial, e o produto de meia-entrada, que identifica se a pessoa é elegível para esse tipo de ingresso.
“Hoje, clubes e produtores perdem muito dinheiro porque é difícil verificar quem realmente tem direito à meia-entrada. Nós fazemos essa validação previamente ao evento, ajudando a reduzir essa perda e a gerar uma receita adicional para os organizadores”, afirma Cadar.
Com o produto, a receita da Bepass também cresce, já que parte da receita adicional gerada pela validação dos beneficiários vai para a empresa.
Novos produtos somados à internacionalização devem contribuir com o faturamento de R$ 26 milhões em 2026. Para 2027, a expectativa é chegar a R$ 44 milhões.Crescimento esbarra em financiamento
Como a startup banca o investimento inicial na instalação das catracas e da biometria, seu crescimento depende de financiamentos e investimentos.
“O maior desafio, nesta fase de investimento, é justamente financiar o nosso modelo. Fazemos todo o investimento antes, nos clubes, e recuperamos esse valor ao longo de contratos de quatro ou cinco anos”, afirma o CEO.
Com os juros elevados no Brasil, a empresa considera inviável financiar a expansão por meio de dívida. Para bancar os investimentos, a Bepass recorre à venda de participação societária para fundos de investimento.
Apesar dos desafios, a empresa mantém a estratégia de expansão internacional e prevê novas frentes de receita para sustentar o crescimento nos próximos anos.
“A nossa ambição é que a Bepass deixe de ser vista apenas como uma empresa brasileira de tecnologia para grandes eventos e passe a ser reconhecida como uma empresa latino-americana”, diz.
