Startup de US$ 5 bilhões quer virar braço direito de gigantes do Brasil e encurtar meses de trabalho
Com operações em cerca de 40 países, companhia aposta em bancos, telecomunicações, saúde e varejo para acelerar seu crescimento no mercado brasileiro

RESUMO +
A startup israelense de inteligência artificial Wonderful, fundada em 2025, foi avaliada em US$ 5 bilhões após uma rodada Série C de US$ 550 milhões. Em 2026, a empresa alcançou US$ 80 milhões em receita recorrente anualizada e busca atingir US$ 100 milhões até dezembro, enquanto amplia no Brasil projetos e negociações com mais de 20 grandes companhias.
Em menos de dois anos, uma startup de inteligência artificial nascida em Israel passou de uma operação em estágio inicial para uma empresa avaliada em US$ 5 bilhões. Agora, com presença em cerca de 40 países, a Wonderful quer repetir no Brasil o crescimento que a levou a multiplicar sua receita anualizada por mais de dez vezes em menos de um ano.
A companhia encerrou 2025 com US$ 7 milhões em receita recorrente anualizada. Em 2026, alcançou um ritmo de receita anualizada de US$ 80 milhões e trabalha para atingir US$ 100 milhões até dezembro. Os valores representam a receita projetada a partir do ritmo atual de negócios, não o faturamento efetivamente acumulado no ano.
Fundada em 2025 pelos israelenses Bar Winkler e Roey Lalazar, a Wonderful desenvolve uma plataforma que permite às grandes empresas incorporar agentes de inteligência artificial a processos de atendimento, vendas, finanças e operações. A proposta é fazer a tecnologia executar tarefas que hoje dependem de diferentes funcionários e sistemas, sem exigir que as companhias substituam toda a infraestrutura existente.
"O que a gente faz é acelerar a transformação agêntica de grandes empresas", afirma Rui Brandão, vice-presidente de Growth para a América Latina da Wonderful. "Eu posso implementar um fluxo agêntico em questão de semanas e ganhar uma eficiência astronômica."
Há sete meses no Brasil, a empresa já trabalha com organizações como o Hospital Israelita Albert Einstein e a Energisa e mantém negociações e projetos em diferentes estágios com mais de 20 grandes companhias. O objetivo é transformar esses primeiros contratos em uma operação capaz de disputar espaço com fornecedores tradicionais de tecnologiacorporativa.
Como funciona o modelo de negócio da Wonderful
A Wonderful começou desenvolvendo agentes de inteligência artificial para atividades de atendimento ao consumidor, vendas e suporte. Com a expansão da plataforma, passou a oferecer soluções também para processos internos das empresas, conhecidos como back office, além de ferramentas voltadas ao desenvolvimento de software.
O diferencial está na combinação entre uma plataforma tecnológica e profissionais que trabalham diretamente com os clientes para identificar problemas, integrar sistemas e implementar soluções.
Na prática, em vez de apenas vender uma licença de software, a Wonderful envia engenheiros e especialistas para trabalhar com as equipes das empresas contratantes. Esses profissionais identificam processos que podem ser automatizados e desenvolvem agentes capazes de executar tarefas em diferentes sistemas.
Um exemplo está em um projeto realizado no Brasil para uma grande operadora de telecomunicações. A empresa precisava simplificar o processo de mudança de endereço dos clientes, uma operação que envolve entre 30 e 40 sistemas internos.
Segundo Brandão, a Wonderful conseguiu integrar os sistemas e colocar a solução em funcionamento em menos de 40 dias.
A tecnologia é organizada em uma plataforma chamada Wonderful OS, que concentra o desenvolvimento, a implementação, a segurança, o monitoramento e a avaliação dos agentes de IA. A ferramenta também permite acompanhar os resultados financeiros e operacionais das automações.
"Você tem um cockpit onde implementou toda a sua estratégia de IA e monitora tudo o que está acontecendo, inclusive as integrações com sistemas legados", explica Brandão.
Outra característica do modelo é a possibilidade de utilizar diferentes modelos de inteligência artificial, sem obrigar as empresas a adotar uma tecnologia específica. A Wonderful não desenvolve um grande modelo de linguagem próprio, mas trabalha com modelos de terceiros e oferece uma ferramenta que seleciona a alternativa mais adequada para cada tarefa, considerando desempenho e custo.
Para João Fernandez, general manager da Wonderful no Brasil, essa independência é uma vantagem na disputa com Microsofte Google, que também oferecem plataformas de inteligência artificial para empresas.
"Nós só fazemos isso. Não é mais uma funcionalidade, não é mais um sistema adicional. Nós somos o produto, a solução", afirma Fernandez.
A companhia também aposta em um formato comercial que busca reduzir a resistência das grandes organizações à contratação de novas tecnologias: inicialmente, demonstra o resultado financeiro da automação antes de começar a cobrar pelo serviço.
"A gente prova esse ROI antes de começar a cobrar. Se o cliente não tem que pagar para ver, a gente também consegue ter um processo muito mais ágil de entrada", afirma Brandão.
Como a Wonderful pretende crescer no Brasil
A operação brasileira começou a ganhar estrutura em 2026, com a abertura de um escritório em São Paulo e a entrada de investidores interessados no potencial da inteligência artificial no país.
Em maio, a gestora de venture capital Kaszek investiu US$ 15 milhões em uma extensão da rodada Série B da companhia, movimento associado ao fortalecimento da operação brasileira e à contratação de profissionais locais.
A Wonderful também concluiu uma rodada Série C de US$ 550 milhões, liderada pela Insight Partners, que elevou seu valor de mercado estimado de US$ 2 bilhões para US$ 5 bilhões. Somente nas rodadas Série B e Série C, a companhia captou US$ 700 milhões em 2026.
No Brasil, a prioridade agora é ampliar a carteira de grandes empresas. A companhia concentra seus esforços em quatro setores: serviços financeiros, telecomunicações, saúde e varejo. São mercados com operações complexas, grandes volumes de informações e processos que frequentemente dependem de vários sistemas.
Brandão afirma que a empresa já mantém um pipeline de 20 a 25 grandes organizações brasileiras, incluindo projetos que estão em fase de testes, implementação ou negociação comercial.
A companhia também acelera as contratações. A expectativa apresentada pelos executivos é chegar a 40 profissionais no Brasil até novembro, enquanto a equipe latino-americana se aproxima de 100 pessoas. No curto prazo, a empresa pretende ampliar em pelo menos 50% seu quadro atual de profissionais dedicados à expansão comercial e à implementação das soluções.
"Tem muitos leads, muita oportunidade, e a verdade é que nós não estamos dando conta ainda de atender a todos os clientes da forma que a gente gosta", afirma Fernandez.
À frente da operação brasileira, Fernandez acumula experiências na Salesforce e na Autodesk. Sua missão é construir a estrutura comercial da Wonderful, desenvolver parcerias e ampliar a presença da companhia entre grandes organizações.
Já Brandão chegou à empresa após fundar o Zenklub, posteriormente integrado à Conexa, onde também atuou como CEO. Na Wonderful, assumiu a responsabilidade de acelerar o crescimento em toda a América Latina.
O executivo vê o Brasil como o principal mercado regional e uma oportunidade para a companhia construir uma operação de grande escala. Em entrevista à Bloomberg Línea, publicada em outubro, a Wonderful revelou planos de investir US$ 10 milhões no Brasil em 2026 e US$ 20 milhões em 2027, principalmente em talentos e infraestrutura.
A expansão brasileira faz parte de uma ambição maior: tornar a Wonderful uma referência global na implementação de inteligência artificial em grandes empresas.
O que explica o crescimento da Wonderful
A trajetória da Wonderful acompanha a corrida das empresas para transformar aplicações experimentais de inteligência artificial em ferramentas utilizadas nas operações do dia a dia.
A startup começou sua expansão internacional depois de captar US$ 100 milhões em uma rodada realizada em 2025. O modelo foi inicialmente testado em mercados como Grécia e Itália, antes de avançar para novas regiões, incluindo América Latina e Ásia.
No início de 2026, a companhia atendia aproximadamente 50 empresas. Agora, segundo Brandão, a carteira global se aproxima de 200 clientes corporativos.
O crescimento da equipe acompanha esse movimento. De acordo com o executivo, a empresa passou de cerca de 100 para aproximadamente 1.000 profissionais globalmente, número que também representa a meta de expansão anunciada pela companhia para o encerramento de 2026.
A estratégia combina o desenvolvimento centralizado da tecnologia com equipes espalhadas pelos mercados onde a Wonderful atua. Dessa forma, profissionais brasileiros podem aproveitar experiências de implementação realizadas em outros países.
Brandão afirma que a operação brasileira já recebeu especialistas de Israel, Itália e Coreia do Sul para compartilhar projetos desenvolvidos em bancos, seguradoras e empresas de telecomunicações.
O intercâmbio faz parte da estratégia de competir não apenas pela qualidade da tecnologia, mas também pela velocidade de implementação e pelo conhecimento dos processos específicos de cada setor.
A Wonderful acredita que essa combinação pode abrir espaço para uma nova categoria de fornecedores corporativos, capazes de substituir processos tradicionais por operações conduzidas por agentes de IA.
"É a primeira vez que estou trabalhando efetivamente em uma empresa nativa em IA. É surreal a velocidade de criação e transformação. Eu nunca vi nada igual", afirma Brandão.
