Startups globais de fundadores latino-americanos já criaram US$ 200 bilhões em valor de mercado
Segundo pesquisa da Latitud, 46% das empresas de tecnologia da região já nasceram globais em 2025. Estudo ainda analisa concentração de investimentos nos Estados Unidos e traz depoimentos de fundadores

O ecossistema de inovação da América Latina ajuda a construir grandes nomes das empresas de tecnologia globais. É o que mostra o estudoLatAm Goes Global Report, que acaba de ser lançado pela Latitud. Segundo o mapeamento, mais de US$ 200 bilhões em valor de mercado combinado foram criados por empresas com pelo menos um fundador latino-americano.
A pesquisa ainda identificou a tendência de empresas que já nascem globais. “Muitos empreendedores da América Latina, que historicamente se limitavam a construir negócios mais locais, estão entendendo que a ambição pode ser ilimitada e que hoje faz sentido construir empresas globais desde o dia um”, diz Luisa Dalla Costa, partner da Latitud.
A metodologia do estudo foi dividida em duas frentes. A primeira reuniu dados históricos do Fellowship e informações sobre o mercado para mapear a trajetória, o perfil e a relevância de founders latino-americanos no cenário global de tecnologia.
A segunda etapa foi baseada em entrevistas com cerca de 30 representantes do ecossistema de startups, entre investidores de venture capital, lideranças de redes de empreendedorismo e founders.
"O objetivo foi entender, na prática, como é investir e construir negócios com ambição global, muitas vezes começando no Brasil, ou até mesmo fora do eixo tradicional, e expandindo para atacar principalmente o mercado americano", afirma Luisa.
Um mercado de US$ 200 bilhões
As empresas latino-americanas globais já criaram mais de US$ 200 bilhões. Entre as empresas mapeadas que contribuíram para esse valor estão nomes como Nubank, Duolingo, Mercado Livre, Wellhub, Instagram e Brex.
O ecossistema de inovação passou por três eras até chegar no nível atual de internacionalização. A primeira foi a geração das dot-coms, formada por fundadores que criaram negócios de internet durante o boom do início dos anos 2000. Empresas como Mercado Livre, Despegar e Globant se tornaram referências regionais após seus IPOs e saídas.
A segunda foi marcada pela crise de 2008, com fundadores focados em desenvolver marketplaces e empresas de Software as a Service (SaaS). Já a terceira foi impulsionada pelo avanço do mobile e da computação em nuvem, período em que startups regionais se tornaram unicórnios (Nubank, Rappi, iFood, Kavak, QuintoAndar), enquanto outras já nasceram com ambição global (Brex, Auth0, Vercel, Duolingo).
Agora, as empresas de tecnologia enfrentam a quarta onda, marcada pela inteligência artificial, que quebra as fronteiras da regionalidade.
Enquanto em 2021 apenas 3% dos founders buscavam mercados globais, em 2025, 46% das startups latino-americanas já nascem globais. O número leva em consideração os inscritos do o programa de fellowship da Latitud.“É uma mudança de mentalidade: founders que saem de São Paulo, Buenos Aires, Cidade do México e Bogotá se mudam para São Francisco e começam a construir empresas globais desde o dia zero, vendendo para clientes no mundo todo”, analisa Luisa.
“Para competir com os melhores do mundo, esses founders precisam se reinventar constantemente e elevar o nível de execução, o que acaba formando uma geração de empreendedores mais fortes e mais sofisticados”, afirma Luisa.
A escala em São Francisco
Em 2025, os Estados Unidos capturaram 79% do funding global de IA, e São Francisco foi responsável por 60% desse valor, com US$ 122 bilhões investidos.
“O que a gente tem observado é que o talento está igualmente distribuído pelo mundo, mas as oportunidades não. Elas continuam concentradas, e os melhores founders estão seguindo essas oportunidades”, diz, Luisa.
Segundo dados estimados de mercado, a presença latino-americana nos EUA já é maior do que a maioria imagina: mais de 80 mil estudantes nascidos na América Latina estão matriculados em universidades americanas, incluindo nomes como Stanford, MIT e Harvard.
Mais de 50 mil já trabalham em empresas de tecnologia dos EUA; e o pool de talentos mais amplo inclui mais de 2 milhões de desenvolvedores profissionais da região.
A BeConfident, fundada por um time que representou o Brasil nas Olimpíadas de Robótica antes de criar uma plataforma de ensino de inglês com IA, é um exemplo dessa onda atual. A ideia era criar uma empresa global desde o primeiro dia.
"Mudar para San Francisco acelerou bastante esse caminho. Isso mudou como construímos e a velocidade com que avançamos, transformando nossa ambição global em algo prático e possível de executar”, disse o cofundador Robson Amorim no estudo.
Esse é um exemplo de como as empresas latino-americanas podem competir no nível global. “Podemos jogar a Champions League de tech, e não só a Copa Libertadores, quando a tese do negócio faz sentido em mercados globais. No fim, é sobre a gente aprender a calibrar a própria ambição e realmente ir atrás de dominar o mundo”, diz Luisa.
Os aprendizados das empresas globais
O estudo ainda reúne aprendizados captados com fundadores de empresas globais. Entre os pontos destacados estão transformar a ambição em etapas concretas, preparar a estrutura para o crescimento e só avançar após consolidar o negócio atual.
Henrique Dubugras, cofundador do Brex, falou sobre a distância entre o produto inicial e a tração. "Muitas vezes encontro fundadores que têm um produto pequeno funcionando, com algum product-market fit, e uma visão de longo prazo super grandiosa. Mas... não existe nada entre onde você está hoje e a visão que você tem para 10 anos. Acho que o que a gente fez foi passar bastante tempo, ao longo dos anos, descobrindo como chegar lá, entendendo quais passos precisávamos dar. Passe mais tempo nesse meio, explicando e testando na prática como você vai chegar lá."
Já David Vélez, do Nubank, apontou a importância de consolidar uma solução em vez de correr para acelerar. "Uma startup precisa conquistar o direito de dar o próximo passo. Mesmo sempre sonhando em ir além da América Latina, nos forçamos a ser apenas o 'cartão de crédito do Brasil' por mais de 5 anos. Isso nos beneficiou: focar em um único produto com um potencial enorme, enquanto construíamos as bases para a expansão regional futura. No fim, percebemos que construir negócios no Brasil é, na verdade, muito menos complexo do que na maioria dos outros mercados relevantes da América Latina”, disse.
Para Loreanne Garcia, cofundadora do Kavak, a expansão tem um ritmo, que deve ser orquestrado. "Construímos a organização para onde estaremos daqui a 18 meses, não para onde estamos hoje. Isso se traduz em três disciplinas. Primeiro, mapeamos quais equipes vão precisar de nova escala, sistemas ou capacidades antes que a demanda chegue (e contratamos antes dessa curva). Segundo, empurramos a tomada de decisão para baixo, descentralizando decisões de gastos desde cedo (quem está mais perto do problema escolhe a solução). Terceiro, fazemos do recrutamento uma responsabilidade de todos (não dá para escalar entre países se a contratação vira um gargalo)."
