Sucessão na ONU: candidatos vão a nova sondagem, mas jogo do veto começa em outubro
Sem consenso na quarta rodada, a corrida por suceder Guterres pode se arrastar, como em 2016, quando levou seis sondagens

O Conselho de Segurança da ONU realiza nesta terça-feira, 29, a quarta sondagem informal da corrida para suceder António Guterres. A votação, porém, ainda não é a que decide.
O teste que vale começa em outubro, quando entram em cena as cédulas que mostram, pela primeira vez, quais dos cinco membros permanentes estão dispostos a vetar.
À medida que essa fase se aproxima, os Estados Unidos surgem como o principal obstáculo.
A fase do veto
Para vencer, um candidato precisa de ao menos nove votos favoráveis entre os 15 integrantes do Conselho e de nenhum veto entre os cinco membros permanentes, Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França.
Até aqui, as sondagens são anônimas. Portanto, não dá para saber se os votos contrários a um nome vêm de membros eleitos, sem poder de veto, ou de uma das potências.
Isso muda em outubro, quando a Grécia assume a presidência rotativa do Conselho e passam a valer as cédulas coloridas, que distinguem os votos dos permanentes dos demais.
É também a fase em que costuma aparecer o veto que enterra uma candidatura antes da votação formal.
A escolha do próprio Guterres, em 2016, só se definiu na sexta sondagem, sinal de que a disputa ainda pode ter várias rodadas pela frente.
Washington no centro
Nenhum dos cinco permanentes se manifestou publicamente contra a favorita, Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica e chefe da UNCTAD, a agência da ONU para comércio e desenvolvimento.
Nos bastidores, uma fonte próxima ouvida pela EXAME em Nova York afirmou que, embora o voto seja secreto, dois dos apoios a ela vieram de Rússia e China, o que afasta o risco de bloqueio por esse lado e joga o peso da decisão sobre Washington.
Contra a segunda colocada, os Estados Unidos já fecharam questão. Representante da Guiana na ONU desde 2020, Carolyn Rodrigues-Birkett enfrenta a oposição americana, segundo o New York Times, pela forma como classificou a ofensiva israelense em Gaza.
Em 2024, ao discursar no Conselho de Segurança, a diplomata disse haver 'um verdadeiro genocídio em curso' no território.
Embora o Departamento de Estado não tenha confirmado a intenção de barrá-la e afirme estar buscando um nome disposto a promover uma reforma profunda da ONU, com gestão mais eficiente e estrutura mais enxuta, o presidente da Guiana, Irfaan Ali, passou a pedir publicamente o apoio das potências à conterrânea.
Enquanto isso, o argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica e aposta inicial dos Estados Unidos, tenta reagir.
Nos bastidores, tem investido nas relações com os permanentes e foi visto em conversas com autoridades da Rússia e do Egito, atrás de apoios que as sondagens ainda não mostram.
E em artigo publicado há uma semana na revista The Economist, apresentou-se como o reformador que Washington diz querer, ao defender que a ONU pare de 'tentar ser tudo para todos' e faça 'menos, e melhor'.
A disputa até então
Nas prévias, cada um dos 15 integrantes do Conselho indica, em cédula anônima, se "encoraja", "desencoraja" ou "não tem opinião" sobre cada nome.
Com a desistência da chilena Michelle Bachelet, apoiada por Brasil e México, restam sete candidatos, quatro mulheres e três homens.
Na terceira consulta, em 18 de setembro, Grynspan liderou, com nove encorajamentos, cinco votos contrários e uma abstenção. Rodrigues-Birkett veio logo atrás, com oito favoráveis e seis contra.
Mais distantes e com placar apertado, aparecem o ugandês Olara Otunnu, com cinco encorajamentos, e Grossi e o senegalês Macky Sall, também com cinco cada.
O desfecho não tem data marcada, mas deve vir em outubro, quando o Conselho costuma fechar em torno de um único nome e o envia à Assembleia Geral, que referenda a escolha.
O novo secretário-geral assume em 1º de janeiro de 2027, no lugar do português, cujo segundo mandato termina em 31 de dezembro.
