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Mundo
20/10/2026
6 min

Sucessão na ONU: na estreia das cédulas do veto, os três favoritos são barrados

Guerras e rivalidades dividem as grandes potências, e a definição do novo secretário-geral pode ir a dezembro

Sucessão na ONU: na estreia das cédulas do veto, os três favoritos são barrados

A corrida para suceder António Guterres à frente da ONU entrou na fase decisiva, e a primeira votação que revela a posição dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança terminou sem vencedor - embora as sondagens sigam informais.

Na consulta mais recente, realizada no último dia 16, os votos de quem tem poder de veto passaram a sair em cédula separada, e nenhum dos três nomes à frente escapou à oposição de ao menos dois deles.

É o caso, inclusive, da costarriquenha Rebeca Grynspan, que segue na liderança, porém ainda sem conquistar o aval das potências que podem barrá-la.

Até aqui as prévias eram anônimas, e não era possível cravar se posições contrárias a um nome vinham de um integrante eleito, sem força para barrar, ou de uma das grandes potências.

O cenário mudou quando a Grécia assumiu a presidência rotativa do Conselho e entraram em cena as cédulas coloridas, em que o papel vermelho reservado a Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França converte um "desencoraja" em ameaça real de bloqueio.

Nenhum nome despontou como consenso nesta fase do pleito, que, na sondagem do dia 16, acabou em empate no topo.

Grynspan, de 70 anos, ex-vice-presidente da Costa Rica e chefe da UNCTAD, a agência da ONU para comércio e desenvolvimento, somou nove encorajamentos, três deles de permanentes, contra cinco rejeições, duas vindas desse mesmo grupo.

Se vencer, será a primeira mulher a comandar a organização em 80 anos.

O argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, e a guianense Carolyn Rodrigues-Birkett vieram logo atrás, empatados, com oito apoios e seis votos contrários cada, também com duas potências fechadas contra.

O enigma dos vetos

Para ser recomendado à Assembleia Geral, um nome precisa de pelo menos nove encorajamentos e de nenhum veto entre os permanentes. Nenhum chegou lá.

No fim de setembro, uma fonte próxima às negociações afirmou à EXAME que dois dos apoios a Grynspan partiam de Rússia e China, o que jogava sobre os Estados Unidos o peso de decidir.

Agora, os votos coloridos indicam duas potências contra ela, o que sugere ou que as posições mudaram, ou que a oposição não vem de Moscou e Pequim.

Às vésperas da prévia, em entrevista à Reuters, a própria Grynspan já havia sugerido o cenário. Na ocasião, declarou: "o jogo não acabou, teremos de seguir trabalhando".

Depois da sondagem, contudo, mudou o tom e descartou ter sido barrada: “não houve votação formal hoje e, portanto, não se pode falar em vetos”, afirmou.

Contra seus rivais, a oposição é mais fácil de mapear. Grossi, tido como preferido dos Estados Unidos, esbarraria na recusa da Rússia, que já declarou oposição, e na do Reino Unido, incomodado com a disputa pela soberania das Malvinas.

Rodrigues-Birkett, por sua vez, convive desde o início com relatos de que os americanos devem vetá-la pela maneira como classificou a ofensiva israelense em Gaza, versão que sua campanha contesta.

A vaga pende para as Américas

A rodada ainda provocou mais uma baixa na disputa, visto que a chilena Michelle Bachelet, que tinha o respaldo de Brasil e México, abandonou a corrida semanas antes.

No dia seguinte, o ex-presidente do Senegal Macky Sall deixou a corrida, depois de ver três dos cinco permanentes lhe negarem apoio.  Em comunicado, disse querer ajudar a formar um consenso e admitiu que as prévias apontavam para um nome latino-americano ou caribenho, provavelmente uma mulher.

Contou ainda que, antes de anunciar a saída, foi aconselhado pelo presidente do Burundi, que comanda a União Africana, e o atual chefe de Estado senegalês, à frente da Cedeao, o bloco econômico da África Ocidental.

Restam então seis postulantes, cinco deles das Américas. Além de Grynspan, Grossi e Rodrigues-Birkett, seguem na lista a equatoriana María Fernanda Espinosa e sua conterrânea Ivonne A-Baki, enquanto o ugandense Olara Otunnu é o único africano remanescente.

Um cofre apertado

Quem assumir o posto vai encontrar uma ONU em aperto de caixa.

O montante atrasado das contribuições ao orçamento regular e às missões de paz saltou de US$ 3,4 bilhões em 2022 para US$ 6,6 bilhões em abril deste ano, segundo levantamento da iniciativa de reforma batizada de UN80, com cortes de pessoal e de operações no caminho.

Nesse cenário, a posição de Washington é decisiva. Os Estados Unidos cortaram recursos e cobram uma máquina mais enxuta, mas usam o dinheiro como alavanca.

Em setembro, quitaram US$ 725 milhões do orçamento regular e, em outubro, prometeram novos repasses a agências sediadas em Genebra, gestos que o Departamento de Estado apresentou como reconhecimento de reformas já feitas, sem abrir mão de cobrar outras.

A retração, portanto, é seletiva, e vem casada com a exigência de um secretário-geral disposto a mexer na casa.

Por isso a favorita, Grynspan, se apresenta como a reformadora que os americanos dizem buscar, ancorando o discurso em sua trajetória.

Na UNCTAD, cortou 20% dos cargos enquanto concentrava a atuação da agência, e aponta a mediação do acordo de grãos do Mar Negro, em 2022, como modelo de uma diplomacia discreta, conduzida sem recorrer à imprensa.

Em sua entrevista à Reuters reafirmou ainda - assim como em outras manifestações públicas anteriores -, a defesa de uma organização mais disposta a arriscar.

“Acho que a ONU se tornou avessa demais ao risco”, disse a economista, para quem o cargo exige assumir “o custo da rejeição, do fracasso, e tentar de novo”.

Rumo à definição

Não há data marcada para a próxima consulta. Enquanto nenhum nome superar o teste do veto, a disputa continua aberta e pode se arrastar até dezembro ou mais adiante, a poucos dias de o mandato do português se encerrar, em 31 de dezembro.

E a disputa pode ganhar outros nomes. Diplomatas relataram à Reuters que ex-chanceleres e chefes de governo avaliam entrar na corrida, e a própria Grynspan previu novas candidaturas após a rodada de sexta.

A eleição do próprio Guterres, em 2016, fechou-se na sexta prévia. A atual já passou desse ponto sem solução, e desta vez a contagem de votos é só parte do problema.

A escolha corre num momento em que as potências mal se entendem, separadas pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e pela rivalidade entre Estados Unidos, Rússia e China, o que faz do consenso um processo ainda mais tortuoso do que há uma década.

AutorLia Rizzo
FonteExame
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