Suítes no avião, gastronomia e luxo: os próximos passos do grupo Abra para a Avianca
Grupo que controla Avianca e Gol amplia aposta em passageiros dispostos a pagar mais, enquanto tenta preservar a oferta considerada mais acessível

Bogotá — Por trás de uma porta privativa, uma poltrona que vira cama e uma refeição assinada por renomados chefs colombianos. O grupo Abra está tentando desenhar algo maior do que uma nova cabine de avião. O conglomerado que controla Avianca e Gol quer transformar a experiência premium em um voo numa das peças de sua estratégia para crescer na América Latina, justamente em um momento em que o setor enfrenta custos mais altos e margens pressionadas.
A estratégia ganhou forma nesta terça-feira, 8, em Bogotá, onde o grupo apresentou a executivos e autoridades públicas o que chama de "evolução" da proposta premium da Avianca. A "estrela" é a Insignia, experiência de Business Class oferecida nos voos de e para a Europa e Nova York operados pelos Boeing 787.
A partir do próximo ano, a segunda companhia aérea mais antiga do mundo em operação contínua e a mais antiga das Américas começará a incorporar uma nova cabine com suítes com poltronas reclinavéis e maior privacidade e conforto.
"Os passageiros estão buscando descanso, privacidade e conforto", afirmou Francisco Raddatz, CPO do Abra, em entrevista na sede da companhia, em Bogotá.
A aposta, contudo, não se limita ao assento. A Avianca está redesenhando a jornada do passageiro desde o aeroporto, com atendimento preferencial, salas VIP renovadas, gastronomia, entretenimento, amenidades e conectividade. A lógica é transformar aquilo que tradicionalmente era vendido como uma classe de serviço em uma experiência completa e, principalmente, em um produto pelo qual o passageiro esteja disposto a pagar mais.
A estratégia acompanha uma mudança mais ampla na aviação. Assentos premium, que durante muito tempo foram usados também como benefício para clientes fiéis e upgrades, passaram a ocupar um espaço cada vez maior na estratégia de rentabilidade das companhias aéreas. Nos Estados Unidos, empresas como Delta, American Airlines e United vêm ampliando cabines premium e reduzindo a distância entre a primeira classe tradicional e a executiva.
A American, por exemplo, anunciou há uma semana a modernização de 20 Boeing 777-300ER, que elevará de 116 para 144 o número de assentos premium, chegando a cerca de 44% da configuração da aeronave. A companhia também está eliminando gradualmente a primeira classe internacional para ampliar a oferta de classe executiva, diante de uma disposição maior dos passageiros de pagar por esse tipo de produto.
"Existe um espaço importante no segmento premium. Há passageiros que precisam de uma oferta diferenciada, de um produto diferenciado e por isso estamos investindo nisso", disse Raddatz.
A decisão ocorre apesar de um ambiente menos confortável para as companhias aéreas. No segundo trimestre, a receita do grupo Abra cresceu 17,7%, para US$ 2,59 bilhões, mas o prejuízo aumentou de US$ 178 milhões para US$ 766 milhões. Em meio à guerra entre Estados Unidos e Irã, o custo dos combustíveis de aviação subiu 80,2% na comparação anual e pressionou as margens do grupo.
Para tentar amortecer o impacto, o Abra repassou cerca de 49% da alta dos combustíveis aos passageiros, realizou US$ 88 milhões em liquidação de derivativos cambiais e de petróleo e implementou cortes de custos. Ainda assim, o grupo transportou 17,6 milhões de passageiros no trimestre, alta de 4,3%, enquanto a capacidade de voos cresceu 6,5%.
É nesse ambiente que o premium ganha importância, já que um passageiro disposto a pagar mais por uma experiência diferenciada pode representar uma oportunidade de elevar a receita sem depender exclusivamente do aumento do volume transportado.
"Independente da contingência atual do combustível, nós fizemos essas decisões de investimento antes da crise de combustível e não estamos parando nenhuma decisão porque acreditamos neste segmento que quer voar conosco, quer voar com maior conforto e com propostas diferenciadas", afirmou.
Passageiro econômico segue no radar
O movimento, porém, não significa que a Avianca esteja abandonando o passageiro econômico, algo particularmente relevante para uma companhia historicamente associada ao modelo de baixo custo. "Isso não tira a prioridade que temos também com os passageiros que querem voar mais leve, que não precisam de toda a oferta premium, [e buscam] uma passagem mais acessível", disse o CPO da dona da Avianca e da Gol.
Segundo o executivo, a estratégia é manter os dois extremos. De um lado, o passageiro que quer apenas chegar ao destino com segurança e no horário. De outro, aquele que procura uma experiência mais sofisticada, com privacidade, descanso, gastronomia e entretenimento.
"Existe um espaço importante no segmento premium. Há passageiros que precisam de uma oferta diferenciada, de um produto diferenciado e por isso estamos investindo nisso", afirma Francisco Raddatz, CPO do Abra (Foto: Divulgação)
Do lounge à suíte
Na proposta premium, o grupo vem investindo na renovação de salas VIP e, em janeiro, abriu um novo lounge Diamond em Bogotá. A empresa também anunciou a renovação da Sala Gold Internacional no aeroporto de El Salvador, com uma proposta inspirada na geografia e nos vulcões do país.
Hoje, a Avianca tem 12 salas exclusivas. A companhia também oferece atendimento preferencial no check-in para passageiros Insignia e acesso às salas VIP, além do status Magno, o nível mais alto dos programas de fidelidade Lifemiles e Smiles.
No ar, a nova Insignia terá fones Meridian com cancelamento de ruído, pijamas e pantufas desenvolvidos pela Maaji e kits de amenidades em parceria com a Mola Sasa, inspirados no trabalho de artesãs de Chimichagua, na região central do departamento de Cesar, na Colômbia. Na área da gastronomia, o novo menu foi desenvolvido pelos chefs colombianos Álvaro Clavijo, do El Chato, e Rafael Buitrago, do Elvia Barichara, com inspiração nos sabores e na biodiversidade latino-americana.
A conectividade é outro componente na proposta premium da companhia. Atualmente, a empresa afirma que um em cada quatro aviões da companhia possui wi-fi de alta velocidade. A meta é chegar a 90% dos voos de mais de três horas com conectividade até o fim deste ano. A instalação continuará de forma gradual na frota da família A320 durante 2027.
Na nova cabine dos Boeing 787, o grupo também promete telas de 19 polegadas com tecnologia 4K e conexão Bluetooth. As suítes terão portas e divisores para ampliar a privacidade.
O premium ainda não chega ao Brasil
Apesar da estratégia, o produto mais sofisticado da Avianca ainda não tem previsão de chegada ao Brasil. A Insignia, neste momento, está concentrada nosvoos de longa distância operados pelos Boeing 787 para a Europa e Nova York.
A companhia, no entanto, já oferece a Business Class Américas em todas as rotas dentro do continente. O produto inclui uma poltrona maior e mais confortável, proposta gastronômica, amenities, acesso a lounges e check-in preferencial.
A lógica é ter diferentes níveis de experiência de acordo com a aeronave e a rota. "Para os aviões de longo alcance temos a nova cabine. Para os aviões menores, temos a Business Américas", explicou Raddatz.
Não há, segundo a Avianca, uma data definida para levar a Insignia ao mercado brasileiro. A expansão dependerá também da aceitação do produto. O próprio grupo sinaliza que, assim como ocorreu com a Business Class, uma boa resposta dos passageiros pode abrir espaço para levar a proposta a outros mercados.
Com porta privativa, a nova poltrona da Avianca transforma a cabine em uma experiência mais reservada (Foto: Divulgação)
Estratégia de negócio
A tentativa de capturar o passageiro de maior renda acontece ao mesmo tempo em que a Avianca busca ampliar a consistência da experiência em toda a rede.
O presidente da Avianca, Gabriel Oliva, resume a estratégia como uma combinação entre conectividade, pessoas e produto. A companhia tem cerca de 750 voos por dia, mais de 160 rotas e 80 destinos em mais de 25 países. Em 2025, transportou cerca de 37 milhões de passageiros.
"Para poder seguir avançando em uma proposta premium, é preciso ter habilitadores", afirmou Oliva durante o evento. Mais de 850 tripulantes de cabine participaram do programa Business Class Specialist, treinamento voltado a etiqueta e hospitalidade. Para Oliva, o produto não se resume ao que está dentro da aeronave.
"Mais do que elementos específicos, refletem nossa aposta em oferecer uma experiência diferenciada, com excelência no serviço, uma experiência mais personalizada e padrões consistentes em toda a rede", afirmou.
O CEO do Abra, Adrián Neuhauser, ressaltou que a experiência premium começa antes do embarque. "É fácil pensar que a experiência de viagem é somente o assento do avião, somente a oferta gastronômica no avião, mas a verdade é que a experiência começa desde a casa", disse Neuhauser.
A reportagem viajou para Bogotá a convite da Avianca
