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Sacre Investimentos
Economia
15/06/2026
7 min

Tarifaço dos EUA pode afetar um terço das exportações do Brasil com tarifas de até 37,5%, diz CNI

Tarifaço dos EUA pode afetar um terço das exportações do Brasil com tarifas de até 37,5%, diz CNI

O novo tarifaço proposto pelo governo de Donald Trump pode afetar as relações comerciais com o Brasil. Segundo um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI). 31,6% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos poderão ser submetidas a uma tarifa de 37,5% caso sejam adotadas as novas medidas sugeridas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).

No momento, esses produtos estão sujeitos a uma alíquota de 10%, o que representaria um aumento de 27,5 pontos percentuais.

O levantamento também aponta que outros 3,6% dos embarques brasileiros para o mercado norte-americano passariam de uma tarifa de 10% para 12,5%, um acréscimo de 2,5 pontos percentuais.

Se as taxações forem efetivamente implementadas pela Casa Branca, 35,2% das exportações brasileiras aos Estados Unidos ficarão sujeitas às novas cobranças. Quando somadas às medidas setoriais já aplicadas com base na Seção 232, a parcela de produtos brasileiros atingidos por alguma tributação adicional poderá alcançar 54,1%.

Apesar disso, as propostas ainda não têm aplicação imediata. Antes de qualquer decisão definitiva, o governo norte-americano deverá realizar consultas públicas e audiências para discutir as medidas.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirma que a adoção das tarifas poderá gerar impactos nas cadeias produtivas dos dois países.

"A eventual imposição de novas tarifas não beneficia nenhum dos lados. Elas aumentariam custos para empresas, reduziriam a competitividade e criariam incertezas para investimentos. O caminho mais eficiente é o diálogo, baseado em critérios técnicos e na busca de soluções que preservem uma parceria econômica estratégica para ambos os países”, afirma Alban.

Entre os produtos mais afetados está o ferro gusa não ligado, que passaria a recolher uma tarifa adicional de 37,5%, ante os 10% atualmente aplicados com base na Seção 122. Em 2024, as exportações brasileiras desse item para os Estados Unidos somaram US$ 1,5 bilhão.

Produtos que podem ser submetidos à tarifa de 37,5%:

  • Ferro gusa não ligado;
  • Açúcar de cana em forma sólida;
  • Sebo não comestível;
  • Álcool etílico não desnaturado;
  • Molduras de madeira padrão de pinho.

Produtos que podem ser submetidos à tarifa de 12,5%:

  • Minério de ferro e concentrados, pelotas aglomeradas;
  • Lajes de quartzito;
  • Óleos essenciais de frutas cítricas de laranja;
  • Silício;
  • Pasta de madeira química, sulfato ou soda, graus para dissolução.

O levantamento da CNI utiliza como base as listas de exceções divulgadas pelo USTR. A metodologia considera isentas as exportações já abrangidas pelas medidas da Seção 232, segundo os relatórios publicados pelo órgão.

Investigações da Seção 301 e propostas tarifárias dos Estados Unidos

Em junho deste ano, o USTR divulgou os resultados de duas investigações conduzidas com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos, ambas com impactos potenciais sobre produtos brasileiros.

No caso da investigação direcionada ao Brasil, iniciada em julho de 2025, o órgão concluiu que práticas relacionadas ao comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e ações de combate ao desmatamento seriam consideradas restritivas ou onerosas ao comércio norte-americano.

Como resultado, foi sugerida a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A proposta prevê exceções para 1.698 códigos tarifários, incluindo itens como café, carne e suco de laranja.

Paralelamente, o USTR finalizou uma investigação sobre trabalho forçado envolvendo quase 90 países. Segundo o órgão, o Brasil integra o grupo de nações que não adotam ou não aplicam de forma efetiva restrições à importação de bens produzidos com trabalho forçado.

Nesse caso, a proposta prevê uma tarifa adicional de 12,5%, com isenção para 1.655 códigos tarifários.

Quando as duas medidas recaem sobre um mesmo produto, a sobretaxa total pode atingir 37,5%.

Medidas ainda dependem de consulta pública

As tarifas adicionais propostas pelo USTR ainda estão em fase de discussão e não entram em vigor automaticamente.

O cronograma prevê audiências públicas nos dias 6 e 7 de julho para debater os resultados das investigações e recolher contribuições de empresas, entidades representativas e governos. Também haverá a possibilidade de envio de manifestações por escrito.

Na avaliação da CNI, essa etapa oferece ao Brasil a oportunidade de apresentar dados e argumentos técnicos para contestar as propostas e demonstrar os possíveis impactos sobre a relação econômica entre os dois países.

Por que os EUA fizeram nova ameaça de tarifas?

No início de junho, os Estados Unidos anunciaram uma proposta para aplicar tarifas mínimas de 10% sobre produtos importados da maior parte de seus principais parceiros comerciais. A iniciativa surge após uma investigação relacionada à entrada de mercadorias supostamente produzidas com trabalho forçado. A informação foi divulgada inicialmente pela Bloomberg.

A medida integra os esforços do presidente Donald Trump para reconstruir a estrutura tarifária que havia sido invalidada pela Suprema Corte americana.

Segundo comunicado do Escritório do Representante Comercial dos EUA, a tarifa de 10% alcançaria importações provenientes de países e blocos como Canadá, México, União Europeia, Taiwan e Reino Unido. Já produtos originários de economias como China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Brasil e Suíça ficariam sujeitos a uma alíquota de 12,5%.

Diferenças nas taxações

De acordo com o órgão, a diferenciação das taxas leva em conta a atuação dos parceiros comerciais no combate à importação de produtos associados ao trabalho forçado. Países que adotam ou assumiram o compromisso de adotar restrições a esse tipo de mercadoria receberiam a tarifa menor. Já aqueles “que não conseguiram impor e aplicar efetivamente” essas proibições seriam enquadrados na taxa mais elevada.

A proposta marca um novo capítulo da tentativa de Trump de restaurar as tarifas aplicadas individualmente a países durante o início de seu primeiro mandato. As novas recomendações derivam de investigações conduzidas sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento jurídico distinto daquele anteriormente utilizado pela Casa Branca.

As tarifas ainda não serão implementadas. O processo prevê consultas públicas e etapas de revisão que podem resultar em alterações antes da adoção definitiva das medidas. O prazo para envio de manifestações por escrito termina em 6 de julho. Na sequência, um painel vinculado à Seção 301 deverá iniciar audiências públicas em 7 de julho.

“A falha de nossos parceiros comerciais mais importantes em abordar a importação de mercadorias fabricadas com trabalho forçado é inaceitável. Isso cria uma dinâmica em que os trabalhadores americanos são forçados a competir globalmente em condições desiguais”, disse a Representante Comercial dos EUA, Jamieson Greer, em um comunicado. “Não toleraremos mais essa disparidade.”

A iniciativa também deve servir como teste para a reação dos principais parceiros econômicos dos Estados Unidos. Até o momento, muitos deles evitaram retaliações diretas às tarifas impostas por Trump, priorizando negociações voltadas à redução de barreiras comerciais e à preservação do acesso ao mercado americano.

As apurações relacionadas ao trabalho forçado representam apenas uma parte da estratégia comercial do governo. Outras investigações conduzidas sob a mesma autoridade legal analisam questões ligadas ao excesso de capacidade produtiva em economias parceiras dos EUA.

O plano inclui exceções. Alguns produtos têxteis e de vestuário poderão ingressar no mercado americano com tarifas reduzidas, dentro de cotas calculadas a partir do volume de exportações têxteis dos EUA para esses países. Certos alimentos, como carne bovina, tomates, bananas, café e suco de laranja, ficariam totalmente isentos. Também permanecem fora do escopo da proposta metais já submetidos a outras tarifas, além de determinados combustíveis e produtos químicos.

A estratégia comercial de Trump sofreu um revés em fevereiro, quando a Suprema Corte anulou tarifas implementadas com base em poderes de emergência. A investigação relacionada ao trabalho forçado, conduzida sob a Seção 301, havia sido direcionada inicialmente a cerca de 60 economias.

As tarifas previstas pela Seção 301 são consideradas mais robustas do ponto de vista jurídico e oferecem maior flexibilidade ao governo, embora demandem mais tempo para serem implementadas. Paralelamente, Trump adotou uma tarifa global de 10% com base na Seção 122 da legislação comercial americana. Essas cobranças, porém, têm validade até julho e continuam sob análise judicial.

Greer afirmou que a intenção do governo é concluir diferentes investigações comerciais para que novas tarifas possam ser implementadas rapidamente após o encerramento das medidas atualmente em vigor.

AutorMateus Omena
FonteExame
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