Tarifaço: EUA queriam que Brasil barrasse acesso da China a minerais críticos; leia outros pedidos

A equipe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) pediu ao governo brasileiro, em janeiro deste ano, durante as negociações sobre o tarifaço, que limitasse o acesso de "atores não orientados pelo mercado" às reservas nacionais de minerais críticos e terras raras. Integrantes do governo Lula interpretaram a proposta como uma tentativa de restringir a atuação da China, principal rival geopolítico dos EUA na disputa por esses recursos estratégicos.
Nas negociações, os americanos, encabeçados pelo representante comercial do governo Trump, Jamieson Greer, pediram ainda que o Brasil zerasse as tarifas sobre produtos industriais vindos dos EUA, sem oferecer nenhuma contrapartida, segundo pessoas familiarizadas com as tratativas.
A China é o país com a maior reserva de terras raras do mundo (49% , segundo relatório do U.S. Mineral Commodity Summaries de 2025) e detém a tecnologia de processamento desse conjunto de 17 elementos considerados estratégicos para a transição energética por serem usados na fabricação de baterias, microchips e smartphones. O Brasil tem a segunda maior reserva do planeta, com 23% do mapeado globalmente, à frente da Índia, que tem 7,7%.
Um integrante do governo Lula afirma, sob reserva, queo pedido dos americanos de uma parceria na área de minerais críticos, que previa essa limitação, foi entregue por escrito e rechaçado pelos negociadores brasileiros.
Não houve, na ocasião, nenhuma oferta de contrapartida dos EUA para desenvolver o processamento de minerais críticos e de terras raras no Brasil, tema considerado crucial pelo governo Lula. Em outras conversas com autoridades brasileiras, fora da negociação do tarifaço, emissários do governo americano chegaram a mencionar o interesse dos EUA pelos minerais críticos do Brasil e a possibilidade de investir no desenvolvimento de uma indústria de processamento no país, mas não houve avanços nesse sentido.
O ministro Márcio Elias Rosa já havia dito nesta quinta-feira, 16, ao comentar o tarifaço de 25% anunciado pelos EUA contra exportações brasileiras, que o pedido dos americanos havia sido feito, mas não mencionou a China.
"Numa das rodadas de negociação, o que foi solicitado foi que nós fizéssemos medidas que pudessem limitar investimentos por atores não orientados pelo mercado e entidades estrangeiras, a exemplo do que eles fizeram com outros países, como o Reino Unido e a Austrália. Isso chegou a não ser apresentado formalmente e, obviamente, não aceitamos e não aceitaremos, porque terras raras e minerais críticos pertencem ao povo brasileiro", disse o ministro.
A Austrália, que tem a quarta maior reserva de terras raras (com 6,3%) fechou um acordo com os EUA em outubro do ano passado para garantir aos americanos o fornecimento de minerais críticos e terras raras. O acordo inclui anúncios de investimentos e o processamento de uma indústria para processar os elementos localmente. O documento prevê que os dois países invistam US$ 8,5 bilhões no setor de mineração australiano.
Exigências tarifárias dos EUA
Na mesma ocasião em que fizeram o pleito sobre minerais críticos, os americanos exigiram que o Brasil zerasse as tarifas sobre as importações dos Estados Unidos em uma série de setores industriais. Entre as demandas por tarifa zero pleiteadas pelos EUA, estava o etanol, como a EXAME noticiou. Mas também estavam, entre outros produtos, aviões e componentes aeroespaciais, todo o mercado automotivo americano, produtos químicos, máquinas e equipamentos elétricos.
Ao abordarem o Pix, as autoridades americanas não chegaram a formular uma proposta para a infraestrutura de pagamentos do Brasil, mas indicaram que consideravam desleal que o Banco Central, autoridade que regula o mercado bancário, fosse também o detentor da ferramenta.
Nas reuniões de negociação, no entanto, os brasileiros defenderam a infraestrutura de pagamentos, que é gratuita e disponível a todas as instituições financeiras que operam no país. Além disso, ressaltaram que, desde a implementação do Pix, a movimentação em cartões de crédito não deixou de crescer, o que colocaria em xeque a afirmação do USTR de que o sistema brasileiro prejudicaria meios de pagamento americanos, como as bandeiras Visa e Mastercard.
O aceite dos termos desse acordo, considerados leoninos pelos brasileiros, não garantia a isenção do tarifaço, o que o governo brasileiro considerou inaceitável. Membros da equipe de Greer afirmaram, apenas, que poderiam considerar reduzir as tarifas propostas.
A equipe de negociadores do Brasil, chefiada pelo ministro Márcio Elias Rosa, considerou as condições americanas completamente desarrazoadas. Ao longo das cinco reuniões que teve com Greer desde maio, o ministro apresentou uma série de alternativas. Depois de janeiro, os americanos não apresentaram novas demandas.
Rosa chegou a apresentar o que chamou de Mapa do Caminho, um documento no qual o Brasil dá garantias sobre ações que pode adotar em áreas contempladas na investigação aberta pelo órgão americano com base na Seção 301: comércio digital e meios de pagamento, proteção ao meio ambiente, à propriedade intelectual, tarifas preferenciais, combate à corrupção e tratamento dado ao etanol americano. O ministro, no entanto, não obteve resposta, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.
