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NegóciosMPOL
09/09/2026
9 min

“Tecnologia virou ponto de partida”: a aposta da Gupy em agentes de IA para o RH

Empresa muda modelo de cobrança, leva recrutamento ao WhatsApp e lança soluções que usam agentes de IA para executar etapas de contratação e gestão de pessoas

“Tecnologia virou ponto de partida”: a aposta da Gupy em agentes de IA para o RH

Contratar uma pessoa ainda pode exigir troca de e-mails, preenchimento de formulários, análise de currículos, envio de documentos e acesso a sistemas diferentes. Com a entrada de agentes de inteligência artificial nesse processo, parte desse trabalho começa a ser feita por programas que executam tarefas sem depender de uma pessoa em cada etapa.

É nesse ponto que a Gupy quer mexer. Fundada em 2015 e conhecida pelo software de recrutamento e seleção, a empresa está mudando a forma como vende seus produtos e organiza sua operação. A ideia é deixar de oferecer apenas ferramentas para os times de recursos humanos e passar a assumir uma parte maior do trabalho que acontece dentro delas.

A mudança chega agora porque a Gupy entende que construir telas, automatizar tarefas e adicionar inteligência artificial a um software deixou de ser suficiente para separar uma empresa de outra nesse mercado. A companhia passou os últimos anos ampliando o portfólio para admissão, treinamento, engajamento e avaliação de desempenho e agora quer conectar esses dados e usar agentes de IA para executar tarefas em nome dos clientes.

“Qual é o valor que você entrega para o cliente? Não pode ser só plataforma”, diz Mariana Dias, uma das fundadoras e CEO da Gupy. “A plataforma agora é meio. O grande ponto é como a gente entrega resultado para o cliente.”

Nos próximos meses, essa estratégia deve aparecer em cinco frentes: um novo modelo de cobrança, recrutamento e admissão pelo WhatsApp, uma área maior de serviços e integrações, um produto de contratação para pequenas empresas e um portal que reúne dados sobre vagas, treinamentos, desempenho e carreira dos funcionários.

O que muda no modelo da Gupy

A Gupy nasceu há 11 anos com foco em recrutamento e seleção. Mariana Dias e Bruna Guimarães, que haviam trabalhado em recursos humanos na Ambev, fundaram a empresa com Guilherme Dias e Robson Ventura.

A proposta inicial era organizar currículos e ajudar empresas a separar candidatos com base nos requisitos de cada vaga. A Gupy usava inteligência artificial para ordenar os perfis antes de a tecnologia se tornar parte comum de produtos de software.

A partir de 2020, a empresa passou a ampliar o que oferecia. Entraram produtos de admissão, treinamento, pesquisas com funcionários, metas e avaliação de desempenho.

Parte dessa expansão veio de aquisições. A Gupy comprou a Niduu, de educação corporativa, em 2021; a Kenoby, concorrente na área de recrutamento, em 2022; e a Pulses, voltada a pesquisas de clima e engajamento, em 2023.

Agora, a empresa chama essa etapa de uma terceira fase. Na prática, a mudança está menos no nome e mais na forma de usar os produtos.

Em vez de deixar o RH abrir uma tela, executar uma tarefa e passar para a próxima, a Gupy quer que agentes de IA façam parte dessas etapas e entreguem algo mais perto do resultado final.

“Antes, desde que a Gupy nasceu, a gente sempre cobrou por funcionalidades a mais”, diz Mariana. “Isso acabava sendo limitante para a empresa.”

Gupy muda cobrança e libera vagas sem limite

Uma das mudanças está no contrato com os clientes.

Antes, a cobrança podia variar de acordo com a quantidade de vagas abertas ou de contratações. Agora, a Gupy passa a considerar o tamanho da empresa e libera o uso das ferramentas sem limite de vagas.

O acesso ao banco de candidatos também entra no pacote.

Segundo Mariana, a base disponível para busca reúne mais de 20 milhões de pessoas que autorizaram o uso dos dados para contato de empresas. Antes, esse acesso era cobrado à parte.

“Afinal, não queremos ficar vendendo funcionalidades. O importante é fechar a vaga, contratar, engajar, reter”, afirma.

A empresa atende mais de 4 mil clientes, segundo o material divulgado pela Gupy. Entre eles estão 80% das companhias que fazem parte do Ibovespa.

O recrutamento vai para o WhatsApp

Outra mudança é levar uma parte maior do processo seletivo para o WhatsApp.

Nesse modelo, o candidato pode responder perguntas, passar por uma primeira triagem, receber avisos sobre as próximas etapas e enviar documentos pelo aplicativo.

Os agentes de IA recebem os requisitos da vaga, fazem perguntas aos candidatos e separam os perfis que atendem aos critérios definidos pela empresa. A entrevista final continua com uma pessoa do RH ou com o gestor da área.

O mesmo canal pode ser usado depois da aprovação. O candidato recebe a proposta e envia documentos pelo WhatsApp para concluir a admissão.

A Gupy cita a rede gaúcha de farmácias Panvel como um dos primeiros casos. Segundo a empresa, o tempo médio de triagem caiu de 18 para 10 dias no primeiro mês de uso.

Mariana também afirma que o uso do WhatsApp reduziu em 80% a taxa de abandono dos processos em operações testadas pela companhia.

“Em vagas operacionais, você manda e-mail para o candidato e a taxa de abandono é alta”, diz. “No WhatsApp, a pessoa vê que passou para a próxima fase.”

Agentes de IA entram no processo de contratação

O uso de agentes de IA é uma das principais peças do novo modelo.

Um agente é um programa capaz de receber uma tarefa e executar uma sequência de ações com menos intervenção humana. Em um processo seletivo, por exemplo, ele pode criar uma descrição de vaga, publicar o anúncio, analisar candidatos e separar nomes para entrevista.

A Gupy passou a usar esse modelo tanto nos produtos voltados a empresas grandes quanto em uma nova operação para negócios menores.

A companhia também investiu recentemente na Bondy, empresa que desenvolve agentes de IA sob medida.

A função dessa empresa dentro da estratégia da Gupy é adaptar processos para os canais que cada cliente já usa, como WhatsApp, Microsoft Teams, Slack e Google Chat.

Isso permite, por exemplo, criar um fluxo de treinamento no Teams ou uma sequência de mensagens de recrutamento no WhatsApp sem obrigar o funcionário ou o candidato a entrar em outro sistema.

Mais serviços para conectar sistemas que não conversam

A Gupy também está ampliando uma área que antes tinha menos peso dentro da companhia: serviços.

A empresa quer assumir parte do trabalho de integrar seu software com sistemas usados pelos clientes, como folha de pagamento, painéis de dados e ferramentas de transporte ou benefícios.

Na rotina de uma empresa, essas informações costumam ficar espalhadas.

Um time pode usar um sistema para contratar, outro para pagar salários e um terceiro para acompanhar indicadores. Quando essas ferramentas não trocam dados entre si, o funcionário precisa repetir informações ou entrar em várias telas.

“Às vezes tem que entrar em 500 mil sistemas”, diz Mariana. “Agora a gente tem uma área que consegue conectar esses sistemas para usar a Gupy em diferentes lugares.”

A companhia também trabalha com uma rede de mais de 50 parceiros para projetos específicos, como integrações, treinamentos, contratação presencial e outros serviços ligados à gestão de pessoas.

Candidato Já mira empresas que contratam uma ou duas pessoas por mês

A quarta frente coloca a Gupy em um mercado que até agora tinha pouco peso dentro da empresa: micro e pequenas empresas.

O produto se chama Candidato Já e foi criado para negócios que fazem poucas contratações por mês e, em muitos casos, não têm uma equipe própria de RH.

O dono de uma padaria, uma loja ou um quiosque, por exemplo, informa o tipo de funcionário que procura e os requisitos da vaga.

A partir daí, um agente de IA cria o anúncio, publica a vaga, faz a primeira seleção e organiza os candidatos.

Segundo Mariana, a promessa do produto é entregar cinco nomes para entrevista em até 10 dias.

“Você vai pedir o que precisa, vai dar os pré-requisitos básicos e o agente de IA vai fazer tudo para você”, diz. “Ele vai criar a vaga, publicar, fazer a primeira seleção e a triagem.”

A cobrança também muda nesse caso. Em vez de assinatura mensal, o cliente paga por vaga. O preço informado pela empresa é inferior a 200 reais.

A operação ainda está no começo. Segundo Mariana, o Candidato Já passou de 300 clientes em menos de 30 dias.

Ela afirma que as vendas da solução crescem entre 80% e 90% ao mês, embora o produto ainda represente uma parcela pequena do negócio da Gupy.

Uma tela passa a reunir vagas, treinamento e desempenho

A quinta frente tenta resolver um problema criado pela própria expansão do portfólio da Gupy.

Nos últimos anos, um cliente podia contratar vários produtos da empresa, mas precisava entrar em cada um deles separadamente.

Um gestor acessava uma área para ver vagas abertas, outra para acompanhar treinamentos e outra para consultar avaliações de desempenho.

A Central de Carreiras reúne essas informações em um único portal.

Para um gestor, a tela pode mostrar vagas pendentes, treinamentos do time, resultados de pesquisas internas e avaliações de desempenho.

Para o funcionário, o sistema pode exibir vagas abertas dentro da própria empresa e cruzar essas posições com informações de treinamento e desempenho.

Se uma vaga interna exige uma habilidade que aquela pessoa ainda não tem registrada, o sistema pode indicar um treinamento relacionado.

“Antes, você entrava em cada um dos produtos separadamente”, diz Mariana. “Agora, você entra em um único lugar.”

Segundo a CEO, as vendas da combinação de vários produtos da Gupy crescem mais de 70% ao ano. A empresa espera manter uma expansão entre 70% e 80% nessa frente no próximo ano.

A IA entra onde antes havia uma pessoa clicando

O fio comum entre os novos produtos é a tentativa de reduzir o número de etapas em que uma pessoa precisa abrir um sistema, preencher um campo ou transferir uma informação.

No recrutamento, o agente conversa com o candidato e faz a triagem. Na pequena empresa, ele cria e publica a vaga. No portal interno, a IA cruza dados de treinamento, desempenho e vagas abertas. Nos serviços, a Gupy conecta esses dados a sistemas que o cliente já usa.

A empresa também acumula dados de outras etapas dessa rotina. Segundo o release, mais de 40 milhões de candidatos já se inscreveram em vagas na plataforma, mais de 100 mil vagas passam pelo sistema por mês e a companhia registra 5 milhões de contratações ao longo de sua história.

A Gupy também acompanha mais de 2 milhões de jornadas de funcionários em produtos ligados a treinamento, engajamento e desempenho.

Para Mariana, esse conjunto de informações passa a ter mais peso à medida que ferramentas de IA ficam disponíveis para um número maior de empresas.

“Tecnologia deixou de ser o nosso diferencial e virou ponto de partida”, afirma.

AutorLeo Branco
FonteExame
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