TekPix: o que aconteceu com a câmera que faturava milhões por dia e sumiu do mapa
Vendida na TV aberta como um aparelho "9 em 1" fabricado na China, a filmadora virou febre nacional no carisma de um vendedor e no bordão "vamos falar de coisa boa"

Era quase impossível passar pela TV aberta brasileira, nos anos 2000, sem esbarrar nela. Bastava mudar de canal num fim de tarde, numa madrugada, no meio de um programa de auditório, e lá estava: um homem de fala acelerada, cercado de aparelhos sobre uma mesa, diante de um fundo branco, prometendo o mundo em suaves prestações.
"Vamos falar de coisa boa? Vamos falar de TekPix!"
A câmera era, disparado, um dos produtos mais anunciados da televisão brasileira.
Por trás daquela onipresença havia um negócio de margens espetaculares. E uma câmera que, no auge, gerava R$ 4 milhões de reais por dia.
Anos depois, tanto o produto quanto a empresa que o vendia praticamente sumiram, derrubados pelo aparelho que quase todo brasileiro passou a carregar no bolso: o smartphone.
Como era a TekPix
A TekPix era comercializada pela Tecnomania, integrante do grupo Import Express, que apostou todas as fichas num modelo de venda direta pela televisão.
A promessa, no papel, era irrecusável. Um único aparelho que fazia o trabalho de nove. Filmadora digital, câmera fotográfica, MP3 player, MP4 player, gravador de voz, pen drive, webcam, câmera de segurança e conexão VGA, tudo no mesmo dispositivo.
Para um público que ainda não tinha acesso fácil às tecnologias mais avançadas do mercado, levar "nove produtos em um só" por prestações que cabiam no bolso parecia bom demais para recusar.
E toda a comunicação da Tecnomania era construída sobre essa percepção de valor, com um roteiro afiado de gatilhos. Tinha o senso de urgência do "pode começar a ligar antes que as linhas congestionem", o desconto para quem ligasse rápido, o parcelamento em muitos meses.
Cada frase empurrava o espectador para o telefone antes que ele parasse para comparar.
A importadora por trás do fenômeno
A TekPix não nasceu de uma fabricante de tecnologia, e sim de uma importadora.
A empresa por trás dela era a Import Express Comercial Importadora, mais conhecida pelo nome fantasia Tecnomania, fundada em São Paulo em 1991 por um grupo familiar.
Quando a câmera virou febre nacional, nos anos 2000, a Tecnomania já era uma importadora de eletrônicos estabelecida havia mais de uma década.
O negócio da empresa nunca foi propriamente fabricar. Era importar produtos de baixo custo e vendê-los em larga escala, com margens altas, por um canal específico, a televisão.
A prova de que o método valia mais que o produto está numa marca-irmã do mesmo grupo, a Natural Mania, que aplicava a mesma fórmula a suplementos e produtos naturais, como óleo de chia e colágeno, vendidos pelo mesmo telemarketing e nas mesmas condições parceladas.
Foi sobre essa estrutura de importação e venda direta que a TekPix se transformou no maior fenômeno de vendas por TV que o Brasil já viu.
O garoto-propaganda
O maior ativo da marca era, sem dúvidas, o garoto-propaganda. Juarez Aparecido Pontes Fernandes, o "Juarez da TekPix", não começou como apresentador.
Ele era o campeão de vendas do call center da própria Tecnomania. O jeito hiperativo, a fala rápida e a energia fora do comum chamaram a atenção do presidente da empresa, que o convidou para ser a cara do produto. Foi uma decisão de marketing certeira.
Juarez, vendedor da TekPix, ficou conhecido pelo bordão da marca (Captura de tela)
Por mais de 12 anos, Juarez foi o garoto-propaganda do aparelho, e sua presença na TV era tão intensa que, entre 2005 e 2006, ele chegou a ser a figura com mais aparições na televisão aberta brasileira, com quase 500 inserções anuais.
Seus bordões viraram ditado e, depois, meme. Além do "vamos falar de coisa boa", emplacou o "não precisa nem colocar a mão no bolso", o "e não é só isso" e o "ainda não acredito que você tem filmadora". Era uma celebridade construída inteiramente sobre a venda de um produto.
Qual foi o auge
A TekPix era fabricada na China sob o modelo white label, produtos genéricos que recebem uma marca local.
Versões praticamente idênticas eram vendidas no exterior por cerca de 70 dólares. No Brasil, a mesma câmera era anunciada por valores que iam de 958 a 3.516 reais, dependendo do modelo.
A margem era enorme, e o "conceito brasileiro" do produto se resumia, na prática, à estratégia de marketing.
No pico, a Tecnomania chegou a vender cerca de 1.300 câmeras por dia. Segundo levantamento da EXAME, esse volume, multiplicado pelo preço, resultava num faturamento diário estimado entre 2,9 milhões e 4,5 milhões de reais.
O motor nunca foi a tecnologia. Era a máquina de marketing e o modelo de venda direta, via call center e crédito facilitado, que alcançava as cidades do interior e um público de renda mais baixa, ávido por tecnologia e sensível à promessa da prestação que cabia no orçamento.
Como era o produto por trás do marketing
Passada a euforia dos comerciais, a TekPix entregava bem menos do que prometia.
A câmera era fabricada quando a produção chinesa ainda era quase sinônimo de baixa qualidade, e isso aparecia no resultado. Imagens de resolução fraca, com ruído e pouca nitidez.
As funções de MP3, MP4 e webbcam, tão alardeadas, tinham desempenho inferior ao de produtos dedicados. O armazenamento total era de apenas 32 MB, dos quais só 4 MB ficavam disponíveis, e o cartão de memória era vendido à parte.
Havia ainda o preço, que contrariava frontalmente a imagem de pechincha. No fim de 2012, um modelo da TekPix era anunciado por 3.516 reais, enquanto uma câmera mirrorless de marca consagrada saía por cerca de 1.400 reais.
Como foi a queda da TekPix
A queda da TekPix não foi obra de um erro de gestão nem de um concorrente direto. Foi uma mudança tecnológica que apagou a própria razão de existir do produto: o celular.
Um aparelho que se vendia como "nove em um" perdeu qualquer sentido quando praticamente todo brasileiro passou a carregar no bolso um celular que era câmera, filmadora, tocador de música, gravador, webcam e muito mais. A proposta inteira da TekPix evaporou.
A Tecnomania ainda tentou reagir. Em 2013, lançou um tablet com Android, de especificações simples e câmera de 1,3 megapixel, tentando se reposicionar no novo mundo dos dispositivos móveis.
O produto não vingou. No mesmo ano, a empresa encerrou as atividades.
Hoje, a Tecnomania praticamente não existe. De forma quase simbólica, o site da empresa segue no ar, mas exibe apenas o antigo logotipo.
