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31/08/2026
8 min

Telefónica leva risco climático ao plano global de sustentabilidade após 97 mi de euros em danos

Nova estratégia da dona da Vivo incorpora impacto econômico, adaptação climática e IA responsável: "Clima se tornou um impacto real nos ativos", destaca a diretora global de sustentabilidade à EXAME

Telefónica leva risco climático ao plano global de sustentabilidade após 97 mi de euros em danos

Em 2024, dois eventos climáticos extremos separados por mais de 8 mil quilômetros atingiram a infraestrutura da Telefónica, dona da Vivo no Brasil. Na Espanha, chuvas torrenciais provocaram inundações históricas na região de Valência, enquanto no Brasil as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul afetaram redes e equipamentos.

Juntos, os desastres provocaram danos estimados em 97 milhões de euros aos ativos da companhia. Parte do impacto financeiro foi mitigada por seguros, mas a dimensão dos estragos ajudou a materializar um risco que, até pouco tempo atrás, aparecia em projeções de longo prazo.

Segundo Maya Ormazabal, diretora global de Sustentabilidade da Telefónica, os dois países estão lado a lado em termos de mercado quando considerados clientes, receitas, consumo de energia, materiais e funcionários, e o Brasil é uma peça estratégica para o grupo globalmente.

Agora, adaptação às mudanças climáticas e seus potenciais efeitos sobre os ativos passam a ganhar mais espaço na estratégia global da Telefónica.

A companhia lançou um novo plano de sustentabilidade de 2026 a 2030, alinhado à transformação e crescimento do grupo para os próximos anos. A proposta é aproximar definitivamente a agenda ESG das decisões financeiras e operacionais, a colocando no centro para crescimento, eficiência, gestão de riscos e acesso a capital.

“A visão da criação de valor e a vinculação com o impacto econômico sobre o negócio são novidades deste novo ciclo até 2030”, afirma a diretora, em entrevista exclusiva à EXAME. 

Para a executiva, a mudança também aparece na forma como o grupo trata os impactos da crise climática sobre sua própria operação.

“Antes era um modelo de adaptação, mas agora é um impacto real nos ativos”, diz.

Clima entra na decisão de investimento

Para uma empresa de telecomunicações, os efeitos de um evento extremo vão além dos danos físicos a antenas e outros equipamentos. A interrupção do fornecimento de energia, por exemplo, pode comprometer o funcionamento da rede quando a comunicação se torna ainda mais crítica.

Foi o que ocorreu em Valência, na Espanha, onde Maya atua. Segundo ela, a eficiência energética dos equipamentos ajudou a prolongar a autonomia da rede durante a interrupção do fornecimento de eletricidade.

“A rede telefônica conseguiu funcionar pelo dobro do tempo esperado. As baterias estavam previstas para quatro horas e aguentaram oito”, conta. 

A relação entre eficiência e resiliência ajuda a explicar uma das mudanças pretendidas pela companhia. O risco climático passa a entrar nos critérios usados para decidir onde reforçar equipamentos e instalar baterias de backup.

++ Leia mais: No arco do desmatamento, floresta da Vivo sai do papel um ano após o anúncio

Para Maya, não faria sentido ampliar indiscriminadamente esse tipo de estrutura em toda a rede. A ideia é cruzar dados de exposição climática com a importância dos ativos e direcionar os recursos aos locais de maior vulnerabilidade.

Maya Ormazabal, diretora global de sustentabilidade da Vivo

Maya Ormazabal, diretora global de sustentabilidade da Vivo (Divulgação)

“As decisões de negócio precisam incorporar a sustentabilidade. Para isso, precisamos de dados”, destaca. 

A Telefónica já avalia mais de 100 mil ativos físicos considerando diferentes cenários climáticos. A análise é usada para orientar decisões empresariais de longo prazo e dimensionar riscos e oportunidades relacionados ao clima extremo.

Segundo a companhia, os benefícios econômicos estimados das oportunidades associadas a ação climática são quase três vezes superiores aos custos relacionados aos riscos.

Ondas de calor também entram nessa conta. Equipamentos de telecomunicações precisam operar dentro de determinadas faixas de temperatura e, quanto mais quente o ambiente, maior pode ser a necessidade de refrigeração.

Sustentabilidade vira ativo financeiro

O novo plano parte de uma premissa defendida pela executiva: sustentabilidade não deve funcionar como uma agenda paralela ao negócio ou limitada ao cumprimento de exigências regulatórias.

“Queríamos tornar visível como o ESG, ou a sustentabilidade, impulsiona o crescimento. Quando fazemos isso de dentro do negócio, a partir da criação de valor, potencializamos um crescimento diferente”, afirma.

A companhia divide essa criação de valor em quatro frentes: crescimento, eficiência, gestão de riscos e acesso a capital.

Na frente comercial, a Telefónica contabiliza 743 milhões de euros em receitas com produtos e serviços de digitalização voltados à descarbonização, além de 1,789 bilhão de euros em receitas relacionadas à economia circular, equipamentos e ativos.

A empresa também aponta ganhos associados à eficiência energética e à contratação de energia renovável por meio de acordos de longo prazo, os chamados PPAs, com 1,234 bilhão de euros em compromissos de caixa para ajudar a reduzir a exposição às oscilações do preço da eletricidade.

No financiamento, a conexão é ainda mais direta: 40% está associado à sustentabilidade.

"Acreditamos que isso nos dá melhores condições de financiamento e acesso a um universo de investidores mais diverso e mais estável”, afirma Maya. 

Entre os instrumentos estão títulos verdes, dívida sustentável e empréstimos vinculados ao cumprimento de indicadores ESG. A companhia tem, por exemplo, 5,5 bilhões de euros em empréstimos ligados a esses critérios.

O que muda no plano até 2030

Na frente ambiental, uma das principais metas do novo plano é reduzir em 90% as emissões dos escopos 1 e 2 e em 56% as emissões de escopo 3 até 2030, o que exige atuar sobre seu maior desafio rumo à descabonização: a cadeia de valor.

Segundo Maya, atingir as metas climáticas depende de um trabalho conjunto com fornecedores. “É difícil fazer sozinho. Precisamos da cadeia", frisa. Em 2040, [grifar]o compromisso é alcançar emissões líquidas zero. 

A Vivo está em uma trajetória mais acelerada. Enquanto o grupo estabeleceu 2040 como horizonte para o net zero, a operação brasileira antecipou a meta para 2035.

A Telefónica também pretende atingir resíduo zero em 2030, ampliando a reutilização e o recondicionamento de equipamentos, estendendo a vida útil dos ativos tecnológicos e reduzindo o consumo de materiais críticos.

"As metas são globais, mas a maneira de alcançá-las varia conforme as características de cada mercado. No Brasil, um dos exemplos é a geração distribuída de energia renovável, modelo mais disseminado no país do que na Europa", exemplifica Maya.

Na prática, significa que os objetivos são corporativos, mas é preciso "aterrizar na realidade local", complementa.

IA no radar da sustentabilidade

O novo plano também incorpora de forma mais explícita os impactos associados à expansão da inteligência artificial.

A Telefónica prevê um modelo de governança de IA associado a princípios de ética e uso responsável, além de regras de privacidade e segurança.

A discussão também alcança o impacto ambiental da expansão da tecnologia, especialmente diante do consumo de eletricidade e água associado à infraestrutura necessária para treinar e operar modelos.

“Precisamos conhecer melhor o impacto da IA em termos de energia e de recursos hídricos”, ressalta a diretora, reforçando que a análise precisa acontecer antes da implantação de grandes projetos de infraestrutura digital. 

“A sustentabilidade precisa estar incorporada desde a origem. É a única maneira de conseguir resolver os problemas futuros”, diz.

O desenvolvimento sustentável também ganha espaço no Brasil na terça-feira, 1º de setembro, quando a Vivo realiza, em São Paulo, o Encontro Futuro Vivo. O evento reúne especialistas e lideranças para debater caminhos que coloquem pessoas e natureza no centro das decisões dos negócios.

AutorSofia Schuck
FonteExame
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