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InvestMercadosACS
29/09/2026
6 min

Tenda leva tombo de 8% e analistas veem impacto da greve da Caixa na ação

Apresentação da construtora destacou efeitos da paralisação, maior rigor no crédito e risco de aumento dos distratos

Tenda leva tombo de 8% e analistas veem impacto da greve da Caixa na ação

As ações da Tenda (TEND3) fecharam em baixa 4,17%, a R$ 27,37, nesta terça-feira, 29, após a construtora detalhar em apresentação a investidores e analistas, mais cedo, os potenciais impactos operacionais de medidas da Caixa Econômica Federal sobre a construtora. No pior momento do pregão, os papéis chegaram a cair 8,62%, a R$ 26,06.

Entre os pontos destacados pela companhia estão a greve dos funcionários do banco, o maior rigor na concessão de crédito imobiliário e mudanças nas condições de financiamento direto oferecido pela construtora.

Na apresentação, a Tenda afirma que a paralisação da Caixa provoca uma interrupção operacional e um represamento burocrático nas agências responsáveis pelo financiamento. Segundo a companhia, isso pode deslocar o repasse de contratos entre meses. Caso a greve seja encerrada rapidamente, o efeito não deve alterar o fluxo de caixa da companhia no ano.

O problema, porém, pode aparecer na base de vendas já realizadas. A Tenda afirma que o maior tempo para efetivar os repasses pode levar à revisão dessa carteira, com o expurgo de contratos que não se enquadrem nos critérios e, consequentemente, aumento pontual dos distratos.

A paralisação dos funcionários da Caixa ocorre há 20 dias. Os trabalhadores rejeitaram nesta segunda, 28, a segunda proposta apresentada pelo banco para a renovação do Acordo Coletivo de Trabalho.

Além da greve, a companhia destacou o endurecimento dos critérios para aprovação de financiamentos imobiliários pela Caixa. A avaliação da Tenda é que a medida pode reduzir a conversão de vendas, com pressão maior sobre clientes de renda informal ou mista. A revisão da base vendida a repassar também pode elevar os distratos.

Outro ponto citado foi o alinhamento do chamado Pró-Soluto pós-chaves, que representa uma contenção e limitação do financiamento direto concedido pela construtora. A Tenda afirma que a mudança pode reduzir o preço nominal das vendas e pressionar a margem bruta.

Ao mesmo tempo, segundo a companhia, o impacto sobre o valor econômico tende a ser menor, porque uma menor concessão de financiamento direto pode reduzir a provisão para devedores duvidosos (PDD) no futuro. Atualmente, o financiamento direto representa 5% no Rio de Janeiro e 7% no restante do Brasil, segundo a apresentação.

Apesar dos impactos operacionais de curto prazo, a Tenda também apresentou uma estratégia para reduzir os efeitos das mudanças da Caixa no longo prazo. A companhia mostrou em sua apresentação o "rebalanceamento do portfólio Tenda por faixas", com redução da participação da Faixa 1 e crescimento das faixas de renda mais altas.

A Faixa 1 representava 59% do portfólio em 2023 e caiu para 46% em 2025. Para 2026, a projeção é de 40%, chegando a 35% em 2027. Ao mesmo tempo, as Faixas 3 e 4, que somavam 12% em 2023, devem chegar a 28% em 2027, segundo as projeções apresentadas pela companhia.

Analistas veem pressão no curto prazo, mas mantêm tese para Tenda

Para Julio Vieira, sócio-fundador da Acta Partners, a reação negativa da ação está relacionada à apresentação, embora os riscos destacados pela Tenda já fossem conhecidos pelo mercado.

"A Tenda fez uma apresentação em que destacou as consequências da greve da Caixa e do maior rigor na concessão de crédito parao Minha Casa, Minha Vida. Ela tem pelo menos R$ 50 milhões a receber da Caixa. Em tese, ambos são fatos já conhecidos, mas isso pesou sobre o papel no dia", afirmou.

Na avaliação de Vieira, porém, os anúncios não alteram de forma relevante a tese para a companhia. Mesmo considerando um cenário mais negativo, que segundo ele já havia sido antecipado pelo sell side do Safra, a média dos lucros projetados para 2027 chegaria a cerca de R$ 850 milhões.

"Mesmo considerando o pior dos mundos, que já havia sido antecipado pelo sell side do Safra, a média dos lucros projetados para 2027 chega a cerca de R$ 850 milhões. Ainda assim, a Tenda negocia a cerca de quatro vezes o lucro. Isso muda praticamente nada na tese", afirmou Vieira.

Ainda assim, Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos, destaca que a mensagem passada pela construtora foi "cautelosa". "Parte dos clientes que compraram na planta não conseguem aprovar financiamento. E aí a venda é desfeita e os destratos sobem. Então o cliente da Tenda está na faixa de renda mais baixa do Minha Casa, Minha Vida, onde a renda informal é mais comum, e ele acaba sentindo mais", afirma Trotta.

Trotta ressalta, contudo, que apenasa greve não explica a forte queda da ação da Tenda nesta terça.

"Os funcionários [do banco] estão parados desde o dia 10 de setembro, numa disputa principalmente sobre o plano de saúde deles. Isso atrasa a assinatura de financiamento, repasse o dinheiro para a construtora, então o dinheiro não se perde, ele só fica repressado. Hoje à tarde, no TST, o relator votou pelo fim da greve, com a volta ao trabalho até amanhã. Como a greve atinge todas as construtoras sozinhas, ela não explica a tenda cair quase 7% enquanto outras sobem", afirmou.

O especialista faz referência à decisão do Tribunal Superior do Trabalho, em julgamento de dissídio coletivo da Caixa na tarde desta terça, em que os ministros aprovaram por unanimidade o voto do ministro relator, ministro Maurício Godinho.

O relator determinou que a greve dos bancários da Caixa não é abusiva, mas que deverá acabar imediatamente, no máximo até esta quarta, 30, e que os dias parados serão compensados em até 180 dias, sem desconto dos salários. Além disso, o plano de saúde, principal impasse entre a Caixa e a categoria, terá reajuste de 4,6%.

Polo Capital amplia fatia na Tenda

A reação das ações ocorre também um dia após a divulgação de quea Polo Capital ampliou sua participação na Tenda. A gestora passou a deter 20,33% do capital da companhia, equivalente a 24.917.007 ações ordinárias TEND3 mantidas por fundos sob sua gestão.

Segundo comunicado divulgado pela Tenda na segunda-feira, 28, a nova participação foi alcançada por meio de operações no mercado à vista. A Polo Capital informou que o movimento não tem como objetivo alterar o controle acionário da companhia e que não pretende promover mudanças em sua estrutura administrativa.

"A Polo Capital não parece ser uma pressão vendedora que explica a queda de hoje das ações. O movimento parece estar mais ligado à pressão operacional da caixa e aos atrasos do Pode Entrar, com o mercado antecipando um terceiro trimestre mais difícil. A Tenda também tem cerca de R$ 75 milhões a receber da Prefeitura de São Paulo relacionados ao programa", também acrescentou Leonardo Brito, economista da Olimpo Investimentos.

AutorClara Assunção
FonteExame
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