Terras raras, estabilidade e economia: o que esperar do encontro entre Trump e Xi Jinping
Com cúpula programada para esta quinta-feira, 24, Trump recebe Xi Jinping em Washington para discussões há muito antecipadas pela comunidade internacional

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping, devem se reunir nesta semana pela segunda vez no ano, em um encontro que pode ser seguido por outras duas reuniões até o fim de 2026. Segundo análise do think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), a disposição dos dois países de manter o diálogo é relevante, mas contrasta com a dimensão dos desafios que exigiriam uma atuação coordenada das duas maiores potências.
Segundo a análise, tanto Washington quanto Pequim têm interesse em evitar uma nova crise bilateral. A economia americana apresenta força nos investimentos em inteligência artificial, mas enfrenta inflação persistente, aumento do desemprego e expansão da dívida, enquanto o mercado de títulos demonstra sinais de preocupação com os fundamentos econômicos.
Com as eleições de meio de mandato se aproximando, uma deterioração das relações com a China também seria inconveniente para Trump.
Pequim teria incentivos semelhantes para preservar a estabilidade. A economia chinesa enfrenta suas próprias dificuldades, apesar dos avanços tecnológicos, e Xi Jinping está nos primeiros meses de preparação para o Congresso do Partido Comunista previsto para o segundo semestre de 2027.
O CSIS avalia que um ambiente internacional estável também favoreceria os interesses políticos do líder chinês, que investe em relações bilaterais harmoniosas, especialmente com o Sul Global.
Trégua
Representação da disputa tecnológica e interdependência entre os Estados Unidos e a China na corrida da inteligência artificial. Além desse setor, todavia, países podem passar a colaborar em outras áreas, como economia e geopolítica (Imagem gerada por IA/Exame)
Nesse cenário, o CSIS espera uma extensão da atual trégua comercial.
A China poderia ampliar o fluxo de terras raras para os Estados Unidos e outros parceiros, enquanto a administração Trump evitaria elevar as tarifas acumuladas sobre produtos chineses acima do nível estabelecido na reunião realizada em Busan, em outubro de 2025. Pequim teria interesse em prolongar o acordo até o fim do governo Trump, enquanto Washington preferiria uma extensão de seis meses.
O encontro, porém, deve ter objetivos limitados. Entre os resultados possíveis estão a redução das tarifas para níveis considerados padrão, com US$ 30 bilhões em exportações de cada país, novos acordos envolvendo aviões e componentes da Boeing, bem como produtos agrícolas, além de uma primeira discussão sobre segurança em inteligência artificial. Também podem surgir ajustes na linguagem relacionada às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
A expectativa é de que Trump e Xi voltem a se encontrar em novembro, em Shenzhen, e em dezembro, em Miami.
Ainda assim, o CSIS avalia que essas reuniões não representam o surgimento de um modelo de governança conjunta entre Washington e Pequim, mas sim uma tentativa de administrar a competição entre as duas potências diante da interdependência econômica e da necessidade de ambas lidarem com problemas domésticos.
Por isso, a relação não configuraria um chamado “G2”, expressão usada para descrever uma eventual liderança conjunta dos Estados Unidos e da China na ordem internacional.
A análise observa que a distribuição de poder está mais fragmentada, as alianças tradicionais estão em mudança e os atores não estatais ganharam importância, o que dificulta a manutenção de uma estrutura baseada exclusivamente nas duas maiores economias mundiais.
Para o CSIS, a própria cúpula representa uma oportunidade perdida de discutir questões que extrapolam a relação bilateral. Entre elas estão os efeitos internacionais dos desequilíbrios macroeconômicos, os riscos associados à inteligência artificial, as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e as mudanças climáticas. Segundo a análise, nenhum desses temas deve ocupar o centro das negociações.
Geopolítica
Xi Jinping, presidente da China, com o presidente dos EUA, Donald Trump, em Pequim (Keny Holston/AFP)
A avaliação também aponta limitações na estratégia externa americana. Segundo CSIS, a política de Trump privilegia a soberania, o poder militar e as relações bilaterais, deixando em segundo plano as normas multilaterais e os mecanismos de legitimidade internacional. A análise também afirma que Washington atribui menos urgência do que outros governos aos riscos relacionados à IA e às mudanças climáticas.
Esse modelo, na avaliação do CSIS, cria dificuldades porque problemas em uma frente podem comprometer objetivos em outra. A trégua comercial com Pequim, por exemplo, pode dificultar a tentativa americana de obter maior cooperação chinesa em questões relacionadas à Ucrânia e ao Irã, enquanto Washington precisa, simultaneamente, administrar diferentes disputas comerciais e de segurança.
A China, por outro lado, poderia assumir um papel mais amplo, mas a análise afirma que Pequim estaria mais concentrada em atravessar o restante do governo Trump, reduzir a pressão dos Estados Unidos e da União Europeia e ampliar gradualmente sua própria visão de governança internacional.
Para isso, utiliza fóruns que lidera, como a Organização de Cooperação de Xangai (SCO) e a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês).
Xi também deverá levar à reunião executivos de algumas das principais empresas de tecnologia chinesas. O CSIS, porém, considera que há risco de eles não terem espaço suficiente para apresentar suas empresas e capacidades, o que reduziria a possibilidade de Pequim usar a visita para mostrar aos americanos uma imagem mais ampla de sua economia e sociedade.
A ausência de acordos ambiciosos não significa necessariamente que a reunião fracassará. Como as expectativas foram reduzidas, avanços pontuais na relação comercial, em questões tecnológicas ou em temas diplomáticos já poderiam ser apresentados por ambos os governos como resultados positivos. Para o CSIS, contudo, isso não elimina a distância entre o que as duas potências podem fazer juntas e a dimensão dos problemas que enfrentam.
Nesse sentido, a cúpula deve funcionar mais como um mecanismo de contenção da rivalidade sino-americana do que como uma tentativa de reorganizar a ordem internacional. O encontro pode preservar a estabilidade entre Washington e Pequim, mas a análise do CSIS sustenta que, sem compromisso de longo prazo das duas partes, continuará existindo uma lacuna entre a importância de sua relação e a capacidade de enfrentar conjuntamente os grandes desafios globais.
