Terremoto na Venezuela muda cenário político para Delcy Rodríguez

A devastação causada pelos terremotos que atingiram a Venezuela nesta semana transformou rapidamente o cenário político do país e impôs à presidente interina, Delcy Rodríguez, seu primeiro e maior desafio desde que assumiu o comando do governo.
Empossada no início de janeiro após a prisão de Nicolás Maduro pelas autoridades dos Estados Unidos, Delcy agora precisa conduzir a resposta à maior tragédia natural registrada no país em mais de um século. Além da emergência humanitária, a forma como seu governo administrará o resgate das vítimas e a reconstrução da infraestrutura poderá definir o rumo de sua liderança.
Os dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, deixaram centenas de mortos, milhares de feridos e dezenas de milhares de desaparecidos, segundo estimativas oficiais e de organismos internacionais. Até este sábado, 27, a estimativa mais recente apontava para 920 mortos, 3.360 feridos e cerca de 4 mil pessoas desalojadas. As autoridades também contabilizam 383 edifícios destruídos ou com danos severos e informaram que ao menos 172 pessoas permanecem soterradas.
O Escritório de Coordenação de Ajuda Humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU) estima ainda que mais de 50 mil pessoas ainda estejam desaparecidas. Modelos do governo dos Estados Unidos indicam que o número de vítimas fatais ainda pode crescer significativamente à medida que as buscas avançam.
A dimensão da destruição exigirá um esforço de reconstrução que deve se estender por meses ou até anos. Além de localizar sobreviventes e atender os feridos, o governo terá de recuperar moradias, hospitais, rodovias, redes de energia e outros serviços essenciais em um país que já enfrentava uma prolongada crise econômica.
Para analistas políticos, a tragédia representa um ponto de inflexão para a nova administração. Se conseguir coordenar uma resposta eficiente, Delcy poderá fortalecer sua legitimidade e consolidar sua posição à frente de um governo que assumiu em meio à instabilidade política. Em contrapartida, falhas na condução da crise podem comprometer seu capital político logo nos primeiros meses de mandato.
"O discurso de uma nova Venezuela passa necessariamente pela reconstrução", afirmou à Reuters o cientista político Tony Frangie Mawad. Segundo Mawad, a tragédia cria uma oportunidade para que o governo tente mobilizar a população em torno de um projeto nacional de recuperação, embora o desafio seja agravado pela fragilidade econômica e pela deterioração dos serviços públicos.
Especialistas alertam, no entanto, que a capacidade operacional do Estado foi reduzida após anos de recessão, restrições fiscais e êxodo populacional. A reconstrução dependerá não apenas de recursos internos, mas também da chegada de ajuda internacional e de financiamento externo.
Papel da cooperação internacional
Nesse contexto, os Estados Unidos podem assumir um papel central. Aliada do presidente Donald Trump desde que assumiu interinamente o governo, Delcy Rodríguez já recebeu apoio de Washington para as operações de resgate. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que a assistência americana será ampla e rápida.
Analistas avaliam que essa cooperação poderá estreitar ainda mais a relação entre Caracas e Washington, ampliando a influência dos Estados Unidos sobre a reconstrução do país. Ao mesmo tempo, a dependência de recursos externos pode limitar a margem de atuação do novo governo.
Grandes terremotos alteram o destino político de governos
A história latino-americana mostra que grandes terremotos frequentemente alteram o destino político de governos. Em 1972, a resposta marcada por denúncias de corrupção após o terremoto que devastou Manágua acelerou o desgaste do regime de Anastasio Somoza.
Já no México, o terremoto de 1985 expôs falhas do governo na gestão da crise e é apontado por estudiosos como um dos fatores que enfraqueceram décadas de domínio do Partido Revolucionário Institucional (PRI).
Na Venezuela, o desfecho da maior operação de resgate da história recente do país poderá ter impacto semelhante. Para Delcy Rodríguez, a reconstrução do país deixou de ser apenas um desafio administrativo e passou a ser o principal teste político de umgoverno que começou sob circunstâncias extraordinárias e agora enfrenta uma tragédia sem precedentes.
