Tesla divulga balanço hoje: mercado espera lucro maior — mas foco está em outro detalhe

A Tesla divulga o balanço do segundo trimestre nesta quarta-feira, 22, após o fechamento do mercado americano. A própria empresa publicou um consenso de mercado compilado a partir de estimativas de 23 bancos, lucro por ação ajustado de US$ 0,55 e lucro líquido entre US$ 1,27 bilhão e US$ 1,3 bilhão. A receita estimada é de US$ 27,58 bilhões, Já o consenso da FactSet, que abrange um número maior de análises, aponta para números um pouco menores: lucro por ação de cerca de US$ 0,54 sobre uma receita de US$ 27,4 bilhões.
Os números de entregas já foram divulgados e vieram fortes. A montadora entregou 480.126 veículos no trimestre, alta de 25% na comparação anual e bem acima da projeção média de cerca de 406 mil unidades. É o melhor ritmo de crescimento da companhia desde o terceiro trimestre de 2023. O negócio de armazenamento de energia também superou expectativas, com 13,5 gigawatts-hora implantados, salto de mais de 40% frente ao mesmo período do ano passado.
Apesar do resultado operacional forte, a ação da Tesla não reflete otimismo. Os papéis acumulam queda de mais de 13% no ano, o que torna a companhia uma das ações com pior desempenho entre as chamadas "Magnificent Seven" em 2026.
Entregas recordes, mas o mercado já precificou
Para analistas, o mercado já embutiu no preço da ação boa parte do avanço nas entregas. A métrica mais observada agora é a margem bruta automotiva excluindo créditos regulatórios, que deve mostrar se o ganho de volume veio acompanhado de rentabilidade.
A projeção do mercado é que essa margem recue para 18,1%, ante 19,2% no primeiro trimestre, pressionada por condições de financiamento mais agressivas e mudanças na forma de cobrança do pacote de direção autônoma. Caso a Tesla contraria as expectativas com uma alta, a leitura tende a ser positiva. Uma piora, por outro lado, reabre a discussão se a companhia está crescendo sem rentabilidade, tema já explorado pela reação do mercado ao balanço anterior.
O ritmo de investimentos também está no radar. A própria Tesla projeta capex de cerca de US$ 25 bilhões em 2026, ante US$ 8,5 bilhões no ano passado. O banco Morgan Stanley estima gasto ainda maior, de US$ 26,8 bilhões, com queima de caixa livre de US$ 11,4 bilhões ao longo do ano. Para o trimestre, a expectativa é de fluxo de caixa livre negativo em torno de US$ 3,25 bilhões, refletindo cerca de US$ 6,7 bilhões em despesas de capital. A companhia deve encerrar o período com aproximadamente US$ 41 bilhões em caixa.
Robotáxi e Optimus continuam sendo o verdadeiro motor da ação
Analistas de bancos como Morgan Stanley e Barclays reforçam que o desempenho automotivo mais forte ajuda o caixa da companhia no curto prazo e financia os investimentos em inteligência artificial, mas afirmam que são o robotáxi, a direção autônoma e o robô Optimus que definem o valuation da ação.
O serviço de robotáxi da Tesla em Austin, lançado em junho de 2025, opera hoje com cerca de 25 veículos sem supervisão humana, número que sobe para uma faixa de 45 a 50 veículos quando somados os carros ainda com monitor de segurança a bordo. O Barclays estima entre 30 e 50 veículos na cidade, com frotas menores em Dallas, Houston e Miami.
O histórico de segurança da frota também gerou questionamentos. O serviço registrou 14 acidentes entre o lançamento e meados de janeiro de 2026, ao longo de cerca de 1,3 milhão km rodadas pagas, uma taxa de aproximadamente um incidente a cada 91,7 mil km. Pelo próprio relatório de segurança da Tesla, a média de um motorista americano é de uma colisão leve a cada 368,5 milhas, o que coloca a frota de robotáxis rodando a um ritmo cerca de quatro vezes maior de incidentes.
Elon Musk já adiou a expansão em larga escala do serviço sem supervisão para depois da chegada da versão 15 do software de direção autônoma, descrita como uma reescrita completa da arquitetura e esperada entre o fim de 2026 e o início de 2027.
Do lado da produção, a Tesla confirmou que o Cybercab, veículo dedicado ao robotáxi, começou a sair da linha da Giga Texas em 17 de fevereiro deste ano. A capacidade projetada é de dois milhões de unidades por ano, mas o ritmo inicial deve ficar na casa de algumas centenas de unidades por semana. O ponto de atenção não é mais produzir o carro, mas fazê-lo rodar sem motorista em escala.
O que dizem os grandes bancos de Wall Street
Levantamento feito pelo Business Insider reúne a visão de cinco casas antes do balanço.
O Bank of America mantém recomendação de compra e preço-alvo de US$ 391, cerca de 2% acima do nível de negociação mais recente. "Achamos que o foco do balanço vai continuar nas expansões do robotáxi da Tesla", disse o banco, que também avalia que o negócio automotivo segue saudável, com entregas do segundo trimestre acima do esperado.
O Morgan Stanley, por meio do analista Andrew Percoco, reduziu ligeiramente o preço-alvo de US$ 417 para US$ 415, com recomendação equal weight, equivalente a neutra. Segundo ele, entregas mais fortes de carros e energia melhoram os fundamentos de curto prazo, mas o robotáxi e o Optimus continuam sendo os principais motores da ação, com atualizações construtivas esperadas, embora provavelmente insuficientes para uma reprecificação decisiva do papel, disse o analista.
O Oppenheimer, com recomendação neutra e sem preço-alvo definido, elevou sua projeção de capex da Tesla de US$ 18 bilhões para US$ 20 bilhões neste ano. A casa espera que investidores passem a olhar os investimentos em capacidade computacional como um indicador do avanço da companhia rumo à chamada "IA física".
O Barclays é uma das casas mais cautelosas, com preço-alvo de US$ 370 e recomendação equal weight. Para o banco, o mercado já entende que a receita atual da Tesla, majoritariamente automotiva, perdeu relevância diante do foco em robotáxi, direção autônoma e no robô Optimus.
Já a Cantor Fitzgerald é a mais otimista entre as cinco, com preço-alvo de US$ 510, alta de 34% sobre o nível atual, ainda que também com recomendação equal weight. O analista Andres Sheppard destacou o resultado de entregas acima do esperado e a expansão do robotáxi, que a casa enxerga como um modelo de alta margem no formato de software como serviço.
SpaceX entra no radar dos investidores
Este é o primeiro balanço da Tesla desde a abertura de capital da SpaceX, ocorrida em junho, o que deve aumentar a pressão sobre Musk por sinalizações a respeito de uma eventual fusão entre as duas empresas. As companhias já dividem projetos na área de semicondutores e inteligência artificial, incluindo o uso da capacidade ociosa dos computadores dos veículos Tesla.
Com a ação negociada a um múltiplo de 177 vezes o lucro projetado, o maior entre as gigantes de tecnologia dos Estados Unidos, o mercado de opções já precifica uma oscilação de até 8% para qualquer direção após o balanço. Na prática, o resultado de quarta-feira dificilmente será decidido pelas linhas de receita e lucro. A pergunta central é se Musk vai entregar datas concretas para o robotáxi, um cronograma de produção do Cybercab e um horizonte mais claro para a nova versão do software de direção autônoma.
*com agências internacionais
