Tesla mostra carro voador após promessa de 10 anos. Ação pode decolar junto?
Analistas veem o carro voador mais como vitrine tecnológica do que como fonte relevante de receita

As ações da Tesla chegaram a avançar perto dos 5% no pré-mercado de Nova York nesta sexta-feira, 16, após a montadora de Elon Musk apresentar a nova geração do Roadster, esportivo elétrico desenvolvido em colaboração com a SpaceX e equipado com propulsores capazes de tirar o carro do chão.
Por volta das 10h30 (horário de Brasília), os papéis (TSLA) subiam 1,43%. Já as ações da SpaceX (SPCX), que participou do desenvolvimento do novo carro, caíam mais de 2%.
ATesla finalmente mostrou o novo Roadster, prometido originalmente há quase uma década. O carro foi apresentado na quinta-feira, 15, em uma instalação de testes da SpaceX em McGregor, no Texas, em um evento que misturou automóveis e tecnologia aeroespacial.
O modelo de dois lugares usa propulsores semelhantes aos utilizados na indústria de foguetes e um sistema de sucção. Durante a apresentação, o Roadster percorreu uma estrutura de cabeça para baixo, saiu do chão, girou no ar e saltou sobre outros veículos antes de pousar.
A Tesla afirma que o esportivo pode acelerar de zero a 97 quilômetros por hora em menos de um segundo e superar 370 quilômetros por hora. A produção, no entanto, está prevista apenas para 2028. A versão mais extrema, chamada Rocket, será oferecida por convite e terá um sistema completo de voo.
A reação positiva não significa que o Roadster tenha mudado os fundamentos financeiros da Tesla. A empresa divulga os resultados do 3º trimestre no dia 21, e números como margem, geração de caixa e gastos com novos projetos devem continuar tendo peso maior.
Josh Gilbert, analista responsável pela região Ásia Pacífico na plataforma eToro, resumiu essa diferença em comentário à Reuters. "Os números de margem e fluxo de caixa terão muito mais peso", afirmou.
Wall Street já esperava um espetáculo
Antes mesmo da apresentação, analistas tratavam o Roadster menos como uma fonte importante de receitas e mais como uma oportunidade para a Tesla recuperar parte da imagem de empresa capaz de surpreender com novos produtos.
Garrett Nelson, analista da CFRA Research, disse à Axios antes do lançamento que o evento poderia interromper a sequência de apresentações de produtos da Tesla que frustraram o mercado.
"Achamos que a apresentação do Roadster pode quebrar a sequência de anúncios decepcionantes de produtos da Tesla", avalia Nelson.
O Roadster oferecia uma oportunidade diferente porque combinava um produto visualmente chamativo com uma tecnologia que a Tesla vinha prometendo havia anos.
Dan Ives, da Yorkville Ives & Co, também havia dito à Axios que o Roadster funcionaria, principalmente, como uma vitrine de alto padrão para a companhia e como um instrumento para reacender o interesse pela marca.A expectativa é que o Roadster deva representar uma parte pequena do volume de vendas da Tesla, mas conseguiu colocar novamente a capacidade de engenharia da companhia no centro das atenções.
Um carro para vender imagem e não necessariamente volume
O potencial comercial limitado do modelo não é novidade, e o próprio Musk já havia minimizado o efeito financeiro do Roadster sobre a Tesla. O executivo disse que o modelo não deveria alterar de forma significativa a receita da empresa.
O analista da Morningstar, Seth Goldstein, classificou o Roadster em uma nota publicada no mês passado como o novo "halo car" da Tesla, expressão utilizada para um veículo de alto desempenho criado principalmente para exibir a melhor tecnologia disponível de uma montadora.
A empresa também vem direcionando cada vez mais sua estratégia para a IA, direção autônoma, robotáxis e robótica, o que reduz o peso relativo de um esportivo produzido em pequenas quantidades dentro das projeções financeiras do grupo.
O que mudou depois da apresentação
Após o evento, o sócio da Deepwater Asset Management e antigo observador da Tesla, Gene Munster, foi direto ao separar o espetáculo tecnológico do potencial comercial do carro.
A alta parece estar relacionada, assim, à capacidade da Tesla de voltar a apresentar uma tecnologia difícil de reproduzir e gerar entusiasmo em torno da marca. Munster também chamou atenção para outro aspecto do lançamento.
"O evento do Roadster é o exemplo mais recente de por que Elon mal pode esperar para unir Tesla e SpaceX", escreveu no X.O movimento acontece em um momento em que Wall Street discute com mais intensidade uma possível combinação entre as duas empresas de Musk. Na véspera do evento, analistas do Barclays afirmaram que uma união entre Tesla e SpaceX poderia ser anunciada ainda neste outono nos EUA.
A inteligência artificial estaria entre as principais justificativas estratégicas para uma eventual operação.
Na avaliação do Barclays, uma empresa combinada poderia integrar de maneira mais próxima os projetos de IA das duas companhias, incluindo os robotáxis e robôs humanoides da Tesla e sistemas de software e IA desenvolvidos pela SpaceX.
Os analistas também observaram que uma combinação poderia simplificar a governança de projetos compartilhados do império de Musk. Não existe até agora um anúncio formal de fusão e qualquer operação desse porte precisaria passar pela aprovação dos acionistas.
*Com agências internacionais
