Tesouro americano bate maior nível em 19 anos e força manutenção da Selic; entenda

Os Treasuries de 30 anos atingiram o maior patamar em 19 anos — em 5,2%, nível não visto desde 2007. O que explica tamanho rendimento é uma combinação fatores que passa por questões geopolíticas, déficit fiscal americano, inflação pressionada e dólar ainda forte. Treasuries são os títulos do tesouro americano, considerados um dos lugares mais seguros para colocar dinheiro, fato que chama a atenção para si.
O impacto mais recente, sem dúvida, é a Guerra no Irã. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 25% do petróleo mundial, fez o preço da commodity disparar, com a referência Brent chegando a ultrapassar a casa dos US$ 120 o barril.
Tal movimento, naturalmente, pode ter impactos inflacionários. “O mercado ainda está subestimando esse efeito”, diz Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos.
A inflação ao consumidor nos Estados Unidos acelerou em maio e veio em linha com as expectativas do mercado. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) avançou 0,5% no mês após alta de 0,6% em abril, segundo dados divulgados nesta quarta-feira, 10, pelo Escritório de Estatísticas do Trabalho do Departamento do Trabalho dos EUA.
Apesar do Índice de Preços de Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em português) ser o utilizado pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano) para ser referência da inflação, o CPI já serve como termômetro da situação atual — ou seja, ainda longe da meta de 2%. Com isso, houve uma reprecificação do risco de manter os títulos longos dos EUA num ambiente em que a inflação voltou a preocupar e a curva passou a embutir juros altos por mais tempo.
“O mercado não está dizendo que país virou um emissor arriscado no sentido clássico de crédito soberano, porém está dizendo que o título americano deixou de ser um ativo totalmente sem tensão de preço, porque a segurança de crédito continua alta, mas o risco de marcação a mercado e o prêmio de prazo subiram”, destaca Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil.
A dívida também pressiona os títulos americanos. “Há fatores fiscais, como o mercado exigindo prêmio maior diante do volume de emissão do Tesouro americano e da piora da trajetória da dívida, o que pesa especialmente nos vencimentos longos”, pontua Araújo.
Segundo Villegas, o fato de não haver tanto espaço para queda dos juros de longo prazo nos Estados Unidos, dado o nível de endividamento do país, faz o mercado exigir um prêmio maior.
O efeito dólar
Na visão dos analistas, entretanto, tudo gira em torno do dólar. “A combinação de dólar forte e juros mais altos nos Estados Unidos tem um efeito muito maior sobre os emergentes. O oposto também é verdadeiro. Na minha visão, o dólar pesa um pouco mais do que os juros americanos, embora ambos estejam amplamente correlacionados”, comenta Villegas.
Para Araújo, existe uma relação histórica entre alta dos Treasuries e queda do fluxo para mercados emergentes que é, quando os títulos sobem, o dólar também fica forte e os emergentes tendem a sofrer mais.
“O canal principal costuma ser o dólar e o aperto das condições financeiras globais, não apenas o rendimento em si. Quando a alta dos Treasuries vem acompanhada de dólar fraco, o impacto pode ser bem menor, porém quando vem com dólar forte e aversão ao risco, o efeito negativo costuma aparecer com mais força em emergentes”, afirma.
Ou seja, a alta do juro americano, sozinha, não necessariamente provoca uma fuga forte de capital dos mercados emergentes. Isso porque o investidor não avalia apenas quanto pode ganhar com os títulos dos Estados Unidos, mas também o comportamento das moedas. Se o dólar não estiver se valorizando, mercados emergentes ainda podem oferecer retornos mais atrativos e compensar o risco adicional.
Por isso, o efeito costuma ser mais intenso quando os juros americanos sobem ao mesmo tempo em que o dólar ganha força, tornando os ativos dos EUA relativamente mais interessantes para investidores globais: um dólar forte afasta capital dos emergentes, enquanto um dólar fraco tende a atrair investimentos para esses mercados.
Isso porque muitos investidores olham não apenas para o retorno do investimento, mas também para a variação cambial. Um investidor americano aplica no Brasil e ganha 14,50% em reais. Mas, durante o período, o real desvaloriza 1% frente ao dólar. Na prática, ele perdeu dinheiro quando converte o investimento de volta para dólares. Por isso, um dólar forte costuma ser ruim para emergentes — e o inverso é verdadeiro.
Impacto no Brasil
Para o Brasil, os efeitos aparecem principalmente na bolsa, no câmbio e na condução da política monetária. Com os títulos americanos oferecendo retornos mais elevados, investidores se tornam mais seletivos e exigem um prêmio maior para aplicar recursos em mercados emergentes.
Mas, segundo Araújo, a alta dos juros americanos não explica sozinha os movimentos recentes de saída de recursos da bolsa brasileira (R$ 14,9 bilhões em maio), apesar de contribuir para uma rotação global de capital. "É razoável atribuir parte da saída recente da bolsa à melhora do retorno relativo dos Treasuries, mas não dá para colocar todo o fluxo nessa explicação. Isso acontece também por causa do tema de inteligência artificial e tecnologia, que atrai capital para os EUA", afirma.
Entre os ativos da bolsa, empresas mais dependentes do crescimento doméstico, small caps e setores sensíveis ao ciclo econômico costumam sentir mais os efeitos da redução do fluxo estrangeiro. Por outro lado, companhias exportadoras e com receitas atreladas ao dólar podem servir como proteção parcial em períodos de estresse.
E, na prática, o impacto vai além da renda variável. Quando os rendimentos dos títulos americanos sobem, parte dos recursos também pode migrar da renda fixa e de fundos para ativos denominados em dólar, já que o retorno considerado livre de risco se torna mais competitivo.
Os juros elevados nos Estados Unidos também têm reflexos diretos sobre a política monetária brasileira. Como os títulos americanos são considerados a principal referência global de segurança, outros países precisam oferecer retornos mais atrativos para continuar atraindo investidores.
Na avaliação de Villegas, esse efeito é especialmente relevante para o Brasil, que depende do cenário externo para captar recursos e não atravessa um momento de grande atratividade para a renda variável.
Segundo o especialsita, em um ambiente de juros elevados nos EUA, o Banco Central brasileiro pode ter menos espaço para reduzir a Selic e, em alguns casos, até ser pressionado a manter os juros altos por mais tempo para preservar a atratividade dos ativos locais.
Sendo assim, uma retomada mais consistente do fluxo para mercados emergentes dependeria de uma mudança no cenário global. Um dólar mais fraco, expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos e menor pressão inflacionária tendem a criar um ambiente mais favorável para países como o Brasil voltarem a atrair capital estrangeiro.
