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04/08/2026
8 min

Têxteis de SC criaram comunidade pioneira e hoje somam R$ 9 bi em receita

O Santa Catarina Moda e Cultura (SCMC) nasceu em 2004 da aproximação entre Marisol, Hering, Altenburg, Dudalina e Karsten e hoje reúne 49 empresas em torno de inovação, design e gestão

Têxteis de SC criaram comunidade pioneira e hoje somam R$ 9 bi em receita

O avanço dos produtos chineses no mercado brasileiro atomentava a indústria têxtil catarinense em 2004. Empresas centenárias, acostumadas a disputar cada consumidor e a proteger suas estratégias dentro das próprias fábricas, enfrentavam as mesmas dúvidas: como competir com os preços dos importados, preservar empregos e manter relevantes marcas construídas ao longo de gerações?

Foi nesse ambiente de inquietação que presidentes e executivos de empresas como Marisol, Hering, Altenburg, Dudalina e Karsten decidiram fazer algo inédito. Pela primeira vez, dirigentes de indústrias que concorriam diretamente no varejo sentaram-se à mesma mesa, em Blumenau, não para negociar contratos ou defender interesses particulares, mas para falar abertamente sobre aquilo que mais os preocupava.

Naquela conversa, não houve espaço para discursos empresariais ou apresentações formais. Dores e desafios foram compartilhados objetivamente, sem intermediários, e gestores que até então enxergavam uns aos outros principalmente como adversários começaram a perceber que parte das ameaças enfrentadas por suas empresas era comum a todo o setor. Dessa reunião surgiu o Santa Catarina Moda e Cultura (SCMC).

O grupo formado, inicialmente, por seis empresas reúne atualmente 49 associados, responsáveis por um faturamento conjunto superior a R$ 9 bilhões por ano e pela manutenção de cerca de 14 mil empregos.

A força dessa história, no entanto, não se resume aos números: está na decisão, ainda incomum naquele período, de trocar o isolamento pela confiança e construir um espaço no qual negócios, criatividade, cultura e formação profissional pudessem evoluir juntos.

Sem que eles sequer imaginassem, nascia ali aquilo que duas décadas depois se tornaria uma das principais tendências entre as grandes marcas: a criação de comunidades. Ambientes nos quais empresas e pessoas se reconhecem, compartilham valores e constroem uma identidade comum, capaz de gerar vínculos que ultrapassam uma relação estritamente comercial.

Mais do que uma aliança empresarial, o movimento passou a aproximar indústrias, profissionais, estudantes, fornecedores e instituições de ensino em torno de uma visão compartilhada sobre o futuro do setor têxtil catarinense.

O pioneirismo não esteve apenas em transformar concorrência em colaboração. Esteve também em compreender que a evolução da indústria não dependeria somente de escala, produtividade ou eficiência, mas da capacidade de criar, desenvolver design, formar talentos e traduzir a identidade de Santa Catarina em produtos com maior valor e conexão com os consumidores.

A confiança estabelecida nas primeiras conversas logo começou a produzir efeitos concretos. CEOs  e gestores de companhias que disputavam diretamente espaço nas lojas passaram a visitar as fábricas uns dos outros, conhecer processos produtivos, conversar com equipes e observar diferentes maneiras de lidar com dificuldades semelhantes.

Para empresários acostumados a preservar informações, estratégias e métodos de produção, permitir a entrada de um concorrente exigia uma mudança profunda de mentalidade. A abertura das fábricas não significava revelar segredos comerciais ou eliminar a disputa entre as marcas, que continuariam brigando por consumidores, contratos e participação de mercado, mas reconhecer que parte do caminho poderia ser construída coletivamente.

As trocas também avançaram para fornecedores e outros elos da cadeia produtiva. Os executivos passaram a conhecer tecnologias em conjunto, debater gargalos e avaliar soluções que pudessem fortalecer não apenas uma empresa, mas a indústria regional como um todo.

Foi durante esse processo que o grupo identificou uma limitação comum. Competir apenas por preço, volume ou qualidade de produção seria cada vez mais difícil diante da escala internacional e da entrada dos importados, o que obrigava as empresas a encontrar novos elementos de diferenciação.

A resposta não poderia estar somente na quantidade de peças que saíam das fábricas. Precisaria aparecer também naquilo que fazia um produto ser reconhecido, desejado e escolhido pelo consumidor, atribuindo ao design uma posição central na estratégia da comunidade.

Santa Catarina já havia construído uma indústria reconhecida nacionalmente pela capacidade produtiva, pela tradição e pela qualidade. O desafio seguinte era acrescentar identidade, inovação e valor aos produtos, o que exigia olhar para além das máquinas e compreender também comportamento, cultura, linguagem e as mudanças na relação das pessoas com as marcas.

A própria união das palavras moda e cultura no nome do movimento refletia essa ambição. Mais do que fabricar roupas ou artigos para o lar, as empresas precisavam desenvolver ideias, repertório e profissionais capazes de transformar capacidade produtiva em criação.

Para alcançar esse objetivo, as fábricas precisariam se aproximar das salas de aula. O SCMC estabeleceu, então, uma interlocução permanente com cursos de moda e design da região, aproximando estudantes dos desafios reais das empresas e levando novos repertórios para dentro das indústrias.

Simone Passarin, coordenadora do Moda Amanhã, programa de formação de novos talentos do SCMC (Divulgação/Divulgação)

Com o suporte de profissionais reconhecidos nacionalmente, como o estilista Mário Queiroz e o consultor Jackson Araújo, estudantes passaram a desenvolver coleções e projetos em parceria com as companhias associadas. A experiência exigia que eles fossem além do desenho de uma peça e considerassem materiais, viabilidade produtiva, identidade de marca, comportamento do consumidor e o significado que cada produto poderia carregar.

As empresas, em contrapartida, passaram a conviver com uma geração disposta a questionar padrões estabelecidos e a propor novas formas de criação. A aproximação não produziu apenas trabalhos acadêmicos, mas ajudou a formar profissionais que, anos depois, assumiriam funções criativas e estratégicas dentro do próprio setor.

A trajetória de Simone Passarin mostra como esse movimento saiu do ambiente corporativo e alcançou a vida das pessoas. Antes de conhecer laboratórios de criação, coleções ou estratégias de design, ela teve contato com a indústria dentro de casa, em uma região na qual a atividade têxtil atravessa famílias e diferentes gerações.

“Eu cresci com uma máquina de costura em casa, como boa parte das pessoas aqui no Vale Europeu. Por isso, seguir estudando nessa área foi quase natural”, conta.

Foi durante a faculdade, em 2009, que o contato com o SCMC ampliou a dimensão que Simone atribuía à própria escolha profissional. Ao se aproximar das empresas, ela percebeu que sua atuação poderia ir muito além da máquina de costura presente nas memórias da infância.

“Mas a entrada do SCMC, durante a faculdade, em 2009, foi o que me deu uma real dimensão do que é fazer parte da cadeia têxtil e de design de Santa Catarina. Minha perspectiva se transformou ali: entendi que o que eu poderia fazer ia além da sala da casa da minha mãe e tinha o real poder de transformar o meu lugar”, afirma.

Dezessete anos depois de ingressar no SCMC como estudante, Simone passou a ocupar o outro lado dessa relação. Hoje, é designer de moda e coordenadora criativa do Moda Amanhã, programa do movimento voltado à formação de novos talentos, e retorna às salas de aula para apresentar aos estudantes as oportunidades existentes na indústria catarinense.

A mesma lógica de troca que aproximou indústria e universidade começou a avançar para outras áreas das organizações. A colaboração deixou de envolver apenas presidentes, designers e equipes de criação e passou a incluir gestores dos setores comercial, de tecnologia, branding e recursos humanos.

Essa expansão também levou o SCMC para fora de Santa Catarina. Nos últimos anos, o movimento promoveu missões empresariais para Milão, na Itália, e para a China, aproximando os associados de tendências internacionais de design, tecnologia, produção e comportamento do consumidor.

A viagem à China carrega uma simbologia particular. O avanço dos produtos fabricados no país havia sido uma das principais razões para a criação do SCMC, mas, duas décadas depois, o mercado chinês deixou de ser observado apenas como uma ameaça e passou também a ser estudado como referência em escala, velocidade, tecnologia e transformação industrial.

Outra iniciativa é a Rota do Algodão, realizada em Minas Gerais, que permite aos profissionais das empresas associadas conhecer de perto a origem de uma das principais matérias-primas da indústria. Ao acompanhar etapas anteriores à chegada do tecido às fábricas, os participantes ampliam a compreensão sobre uma cadeia produtiva que começa muito antes do desenvolvimento ou da comercialização de uma peça.

Propósito preservado

Para Marcel Eder Costa, presidente do SCMC, a atuação do movimento se transformou diversas vezes ao longo desse período, mas preservou o propósito que reuniu os primeiros empresários. A evolução, segundo ele, não ocorreu apenas pelo aumento no número de associados, mas pela ampliação do impacto pretendido dentro das empresas e da sociedade.

“Nossa comunidade cresceu muito não só em número de associados — já fomos seis, agora somos quase 50 —, mas também no impacto que queremos promover dentro dos nossos negócios e, consequentemente, na nossa sociedade”, afirma.

O movimento que começou como uma conversa entre presidentes passou a envolver executivos, designers, estudantes, professores, profissionais de tecnologia, gestores de pessoas e equipes comerciais. Ao mesmo tempo, acompanhou mudanças profundas no mercado e desafios particulares enfrentados pelas próprias companhias.“O mercado se transformou intensamente neste período e muitas empresas também viveram seus próprios desafios, muitos deles acompanhados e impactados pelas trocas trazidas pelo SCMC”, diz Marcel.

Para o presidente, a força da comunidade continua ligada ao gesto que marcou seu início: a disposição para uma troca verdadeira entre empresas que permanecem concorrentes, mas compreenderam o valor de construir algumas respostas em conjunto.“Somos uma comunidade que fez algo inédito no pontapé da sua história e segue sendo única na proposta, nos valores e na intensidade das trocas que promove”,  afirma.

O SCMC antecipou esse movimento por um caminho próprio. A comunidade não nasceu de uma campanha de marketing ou da intenção de acompanhar uma tendência, mas da pressão enfrentada por uma indústria que precisava encontrar novas respostas para continuar competitiva.

AutorRafael Martini
FonteExame
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