Tombo de 9% e circuit breaker: Ásia derrete após Nasdaq perder US$ 2,5 trilhões
Kospi aciona circuit breaker, Nikkei cai 6% e Taiwan entra em bear market

- O Kospi, da Coreia do Sul, chegou a cair 8,8% nesta sexta-feira, 6, e acionou o circuit breaker; Samsung e SK Hynix perderam mais de 6%
- O Nikkei, do Japão, recuou 5,96%, e o principal índice de Taiwan caiu 4,5%, entrando em bear market
- Na véspera, a Nasdaq despencou 5,5% e perdeu cerca de US$ 2,5 trilhões em valor de mercado, a maior queda em valor da história do índice
- A vitória democrata nas midterms e a eleição de governadores que prometem restringir data centers alimentam o medo de uma freada na infraestrutura de inteligência artificial
A liquidação global das ações de tecnologia ganhou força na Ásia nesta sexta-feira, 6. O índice Kospi, da Coreia do Sul, chegou a despencar 8,8% e acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende temporariamente os negócios em quedas bruscas. As fabricantes de chips Samsung Electronics e SK Hynix recuaram mais de 6% cada.
No Japão, o Nikkei 225 fechou em queda de 5,96%, aos 57.434,77 pontos, depois de tocar a mínima de 56.745,81 pontos no pregão. O principal índice de Taiwan caiu 4,5% e entrou em bear market, termo usado quando um ativo acumula queda de 20% ou mais em relação ao pico. O índice MSCI Ásia-Pacífico, que reúne as bolsas da região, perdeu 4%.
A exceção foi a Índia. O Nifty 50, referência da bolsa de Mumbai, fechou em alta e foi o único grande mercado asiático no azul. Segundo a Bloomberg, investidores vinham apontando as ações indianas como refúgio caso a aposta global em inteligência artificial desmoronasse, tese que se confirmou nesta semana.
O dia mais pesado em Wall Street desde o tarifaço
O tombo asiático é o eco do que aconteceu em Nova York na quinta-feira, 5. A Nasdaq caiu 5,5% e entrou em correção, quando a queda supera 10% em relação ao recorde, assim como o Russell 2000, de empresas de menor porte.
O S&P 500 recuou 4,4%, e o Dow Jones perdeu 1.833 pontos, ou 3,4%. Para os três índices, foi o pior pregão desde abril de 2025, no choque provocado pelas tarifas de Donald Trump.
A Nasdaq perdeu cerca de US$ 2,5 trilhões em valor de mercado em um único dia, a maior queda da história do índice nessa métrica, segundo estimativa da Dow Jones Market Data.
Só as chamadas Sete Magníficas perderam mais de US$ 1 trilhão. A Nvidia respondeu sozinha por mais de US$ 440 bilhões dessa conta, com queda superior a 9%, e passou a acumular perda de 2,6% em 2026.
Todos os 11 setores do S&P 500 fecharam no vermelho. O de tecnologia da informação caiu 7,30%, o pior desempenho diário desde março de 2020, no início da pandemia.
O VIX, conhecido como índice do medo, saltou 11,57 pontos e chegou ao maior nível desde 31 de março.
O que as midterms têm a ver com isso
A semana começou com outro humor. A vitória ampla do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato, as midterms, levou parte dos investidores a apostar num fim mais rápido da guerra com o Irã. O petróleo caiu com força na quarta-feira, e o Dow Jones registrou a maior alta em quase 19 meses.
O alívio durou pouco. O mercado passou a precificar regras mais duras para os data centers, já que, além da mudança de forças no Congresso, foram eleitos governadores que prometeram restringir esses projetos.
Na quarta, a perspectiva de uma desaceleração nas obras já tinha atingido fabricantes de chips, construtoras e empresas de infraestrutura, enquanto as big techs seguravam os índices.
Na quinta, a venda se espalhou por toda a cadeia, e a recuperação parcial do petróleo abriu espaço para uma liquidação mais ampla.
O Texas, estado com mais projetos de data centers planejados no país, virou o centro das atenções. Wall Street contava que a moratória anunciada pelo governador republicano Greg Abbott era uma jogada eleitoral e seria revertida. Agora, a democrata Gina Hinojosa, eleita para o cargo, defende manter as novas aprovações suspensas até que o Legislativo estadual aprove regras de proteção no ano que vem.
O impacto vai além das empresas de tecnologia porque a infraestrutura de IA, especialmente chips e memória, sustenta boa parte do crescimento de lucros do S&P 500.
Com a virada política, "as projeções de lucro para o próximo ano não são mais confiáveis", afirmou ao Wall Street Journal Mike O'Rourke, estrategista-chefe da JonesTrading. Matt Rowe, gestor da Man Group, disse ao jornal que um projeto que esperava gerar receita em seis a doze meses e passa a levar dois a três anos cria uma série de problemas para quem investiu nele.
As empresas de Elon Musk sofreram mais que as demais gigantes. SpaceX e Tesla, que se uniram para construir a fábrica de chips Terafab no Texas, caíram mais de 9% cada.
Segundo o WSJ, a leitura do mercado é que a proximidade de Musk com o governo Trump pesa contra suas companhias no novo cenário político.
Chamadas de margem e bilionários mais pobres
Investidores pessoa física caminhavam para o maior volume de vendas líquidas de ações desde a pandemia de covid-19, segundo a Vanda Analytics. Ben Emons, da FedWatch Advisors, atribuiu parte do movimento a vendas mecânicas de operadores de opções e de fundos sistemáticos, de acordo com o WSJ.
Na Ásia, gestores de hedge funds e corretoras acordaram com clientes em pânico, segundo a Bloomberg. Clientes de alta renda de Taiwan a Hong Kong enfrentaram chamadas de margem em apostas alavancadas, de acordo com pessoas a par do assunto ouvidas pela agência. Gestoras como ExodusPoint Capital Management e Millennium Management já acumulam perdas com a volatilidade.
Os bilionários da região também sentiram. Pelos cálculos do índice de bilionários da Bloomberg, 22 bilionários da China, do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul que estão entre os 500 mais ricos do mundo chegaram a perder mais de US$ 21 bilhões juntos até as 10h de Hong Kong, antes de reduzir as perdas para pouco mais de US$ 18 bilhões.
O maior perdedor foi Masayoshi Son, fundador do SoftBank, cuja fortuna encolheu US$ 3,9 bilhões, para cerca de US$ 29 bilhões.
Na Coreia do Sul, a virada ganhou contornos políticos. O governo havia transformado a bolsa mais quente do mundo em troféu, e a reversão, que já apagou mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado, provoca reação de pequenos investidores e testa a confiança da população nos seus líderes, segundo a Bloomberg.
Os contratos futuros das bolsas europeias também operam em queda nesta sexta-feira, sinal de que a onda vendedora deve chegar ao Velho Continente.
*com agências internacionais
