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06/10/2026
6 min

TOTVS aposta em profissionais 50+ diante dos desafios da longevidade no setor de tecnologia

Com 9% do quadro acima dos 50 anos, empresa busca romper o estigma do 'jovem prodígio': "Diversidade etária é estratégia de governança e futuro do negócio”, diz diretor à EXAME

TOTVS aposta em profissionais 50+ diante dos desafios da longevidade no setor de tecnologia

“A área de tecnologia sempre carregou o estigma do ‘jovem prodígio’ e a crença equivocada de que a agilidade de aprendizado técnico se perde com a idade". 

A avaliação é de Fernando Sollak, diretor de Relações Humanas da TOTVS, em entrevista à EXAME, e ajuda a resumir um dos desafios que o setor tech enfrenta diante do envelhecimento da população: como ampliar o espaço para profissionais mais maduros em um mercado historicamente associado à juventude e à rápida renovação de competências.  

Hoje, trabalhadores com mais de 50 anos ainda são minoria nesse mercado. Um levantamento da Strides Tech Community mostrou que apenas 3% dos profissionais da área estavam nessa faixa etária.

A baixa participação contrasta com uma transformação demográfica que tende a ganhar peso sobre o mercado de trabalho.

Com a população vivendo mais e permanecendo economicamente ativa por mais tempo, empresas começam a lidar não apenas com a necessidade de contratar diferentes gerações, mas também com o desafio de construir carreiras mais longas e manter seus colaboradores atualizados.

Essa é a aposta da TOTVS: tratar a longevidade como parte da estratégia e do futuro do negócio. A gigante do setor no Brasil e América Latina contou à EXAME que passou a olhar para a mudança da pirâmide etária como um fator que deve influenciar a composição das equipes, as competências necessárias e até a relação com seus clientes.

Os números começam a refletir esse movimento. Hoje, profissionais com mais de 50 anos representam 9% do quadro da TOTVS e responderam por 5,4% das contratações realizadas no primeiro semestre de 2026. Nos próximos anos, o plano é avançar mais.

Para o diretor de Relações Humanas, a mudança exige intencionalidade. “Nosso propósito não é apenas um ‘número de cotas’, mas sim o reflexo da expectativa de vida do próprio Brasil e dos nossos clientes”, destacou. 

A estratégia passa por rever processos de recrutamento, combater vieses ligados à idade e tratar a diversidade geracional como algo que vai além de uma política de inclusão.

A própria linguagem usada nas vagas entrou nessa revisão. Segundo o executivo, descrições que buscavam perfis “jovens” ou “acelerados” podiam afastar candidatos mais experientes antes mesmo do processo seletivo. A empresa também passou a trabalhar vieses entre lideranças e recrutadores e a reforçar internamente a ideia de aprendizado contínuo.

Como a TOTVS tenta ampliar o espaço para profissionais 50+

Em 2024, a companhia criou o grupo de afinidade Maturidade na TOTVS, voltado a identificar questões específicas dos profissionais com mais de 50 anos e transformar essas discussões em mudanças internas.

Segundo Sollak, o grupo ajudou a levar para dentro do negócio temas que nem sempre aparecem nas políticas tradicionais de diversidade e inclusão. Entre eles está o impacto da menopausa sobre a qualidade de vida e o desempenho profissional das mulheres.

Desde então, as pesquisas internas de clima passaram a mostrar melhora na percepção de pertencimento e satisfação entre os profissionais 50+ e a empresa afirma que a retenção deste grupo é superior à média geral. 

Outro ponto é evitar que a inclusão de profissionais mais maduros fique restrita a cargos de liderança, mentoria ou posições próximas do fim da carreira.

Na TOTVS, esses trabalhadores também ocupam funções técnicas, como arquitetura de software, consultoria de negócios e especialidades ligadas a dados. Segundo Sollak, eles seguem trilhas de desenvolvimento e podem assumir novos escopos ou receber promoções horizontais e verticais.

“Não se trata de uma ‘vaga de aposentadoria’”, afirmou. 

A lógica passa por uma mudança na forma de enxergar quais competências realmente envelhecem, e quais podem "ganhar valor com o tempo". 

No setor de tecnologia, ferramentas e linguagens mudam rapidamente. Para a TOTVS, porém, isso não significa que a capacidade de acompanhar essas transformações esteja necessariamente ligada à idade.

“As linguagens de programação mudam, mas a capacidade lógica e de resolução de problemas apenas se fortalece com o tempo”, ressaltou o diretor. 

A ideia se conecta ao conceito de lifelong learning, ou aprendizado contínuo, que a companhia tenta reforçar internamente. Em vez de associar atualização profissional a uma determinada geração, a proposta é tratar a capacidade de aprender como uma exigência permanente ao longo da carreira.

O que a experiência acrescenta ao negócio

A aposta nos profissionais 50+ também tem um olhar econômico. 

A TOTVS atua com sistemas de gestão para empresas de diferentes setores, o que faz com que o conhecimento acumulado sobre determinadas indústrias possa ter valor na relação com os clientes.

Sollak usa a expressão business savvy (visão de negócio) para descrever essa capacidade de compreender não apenas a tecnologia, mas o funcionamento dos negócios aos quais ela será aplicada.

“Nossa essência é entender os desafios e as regras dos clientes para oferecer os melhores sistemas de gestão. Essa vivência contribui para construir uma ponte direta e de alta confiança", garantiu o executivo. 

Na sua avaliação, profissionais mais experientes também podem agregar competências desenvolvidas ao longo da carreira, como capacidade de atuar sob pressão, leitura de contexto e inteligência emocional.

Isso não significa, segundo ele, substituir uma geração por outra. A aposta está justamente na combinação de perfis diferentes.

“É uma via de mão dupla: a bagagem estratégica e a resiliência corporativa se conectam à fluidez de novas ferramentas, perspectivas e metodologias, gerando aprendizado contínuo para todos”, explicou. 

Quando a longevidade chega à governança

A discussão também ultrapassou as fronteiras do RH. Desde a estruturação de seu programa de diversidade e inclusão, em 2020, a TOTVS passou a tratar a atração e a retenção de profissionais mais velhos dentro de sua agenda de sustentabilidade corporativa.

Segundo o diretor, a diversidade etária passou a integrar o pilar social do ESG da companhia, com objetivos levados ao Conselho de Administração e apresentados a investidores e outros stakeholders.

O movimento parte da avaliação de que o envelhecimento da população terá impacto cada vez maior sobre a disponibilidade de mão de obra, a composição das equipes e até o perfil dos próprios consumidores e clientes.

“Entendemos que empresas que não integram trabalhadores maduros perderão competitividade diante da transição demográfica global”, afirma Sollak.

Para além dos muros do negócio

A TOTVS também enxerga a tecnologia como uma possível alternativa de transição profissional para trabalhadores mais maduros. Por meio do Instituto Percorre, antigo Instituto da Oportunidade Social, a empresa apoia iniciativas de capacitação digital e tecnológica voltadas ao público externo.

Para Sollak, ampliar a presença de profissionais 50+ no setor passa não apenas por abrir vagas, mas também por criar condições para que pessoas mais velhas desenvolvam novas competências.

“Acreditamos fortemente que a área de tecnologia é uma excelente alternativa de transição de carreira para pessoas 50+”, destacou. 

Esse talvez seja um dos pontos centrais do debate sobre longevidade no trabalho. À medida que as carreiras ficam mais longas, a ideia de que uma profissão escolhida aos 20 ou 30 anos deve acompanhar o trabalhador até a aposentadoria tende a perder força.

Para um setor acostumado a discutir a velocidade e inovação, o envelhecimento da população adiciona outro desafio: garantir que a capacidade de aprender, mudar de função e construir novas etapas da carreira não tenha prazo de validade.

AutorSofia Schuck
FonteExame
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