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InvestMercados
08/09/2026
7 min

Trade eleitoral: como pesquisas da corrida presidencial mexem com a bolsa brasileira

Mercado aposta em alternância do poder como solução para problema fiscal e impulsiona Bolsa

Trade eleitoral: como pesquisas da corrida presidencial mexem com a bolsa brasileira

A eleição presidencial de outubro passou a ocupar um espaço cada vez maior nas decisões dos investidores brasileiros. Em pouco mais de duas semanas, o Ibovespa saiu de 166 mil pontos para acima dos 185 mil pontos, em um movimento que coincidiu com a mudança na percepção do mercado sobre a disputa entre o atual governo, que tenta um novo mandato, e os candidatos de oposição.

O movimento ganhou força na quarta-feira, 2, quando o principal índice da B3 avançou 3,05%, aos 185.205 pontos, na maior alta diária em mais de cinco meses.

Naquele pregão, a divulgação da pesquisa Quaest mostrando Lula e seu principal adversário até o momento, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tecnicamente empatados no segundo turno reforçou a percepção de que a eleição está menos definida do que o mercado vinha considerando.

O Ibovespa chegou à 11ª sessão consecutiva de alta e acumulou valorização de 11,34% nos 11 pregões entre 18 de agosto e 2 de setembro. Na quinta-feira, 3, e na sexta-feira, 4, porém, o índice praticamente não saiu do lugar. Ainda assim, encerrou a semana com alta de 5,40%, a maior desde 23 de janeiro.

O comportamento dos ativos ajuda a explicar por que as pesquisas eleitorais ganharam espaço no radar dos investidores. Quando a percepção de uma vitória de Lula diminui, aumenta a expectativa de alternância de poder entre os agentes econômicos e, com ela, a aposta de parte do mercado em uma política econômica mais favorável à redução do risco fiscal, dos juros longos e do custo de capital das empresas.

“Sem dúvidas o cenário eleitoral tem sido um dos principais vetores de preço dos ativos brasileiros”, afirma Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. “A reação deixa isso bastante evidente: depois de a Quaest mostrar Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados no segundo turno, o Ibovespa subiu 3,05%, o dólar caiu para perto de R$ 5,10 e os juros futuros recuaram", afirmou.

Para Lima, o movimento não significa necessariamente que o mercado esteja apostando em uma vitória da direita. A mudança mais importante teria sido na probabilidade atribuída à alternância de poder.

“O mercado não está necessariamente precificando uma vitória da direita, mas aumentou bastante a probabilidade atribuída à alternância de poder. Na prática, quanto menor a vantagem de Lula, menor tem sido o prêmio de risco exigido pelo mercado, o que acaba favorecendo Bolsa e o real e comprime a curva de juros, principalmente nos vencimentos mais longos, mais sensíveis ao risco fiscal”, diz.

A leitura também aparece na análise de Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos. Para o especialista,a principal novidade das últimas pesquisas foi justamente colocar em dúvida um cenário que vinha sendo considerado mais provável pelo mercado.

“As pesquisas eleitorais se mostraram bem intensas em ditar o ritmo do mercado financeiro, bolsa, dólar, juros. Acredito que muito por ter uma percepção nova, de que a eleição não estaria tão definida”, afirma.

Segundo Cruz, boa parte dos investidores vinha consolidando a expectativa de reeleição de Lula. A mudança nas pesquisas, porém, levou o mercado a questionar esse cenário, ainda que o presidente continue com vantagem em alguns levantamentos.

“Boa parte dos investidores estava consolidando a vitória de Lula, agora passaram a questionar. Embora, ainda com grande favoritismo para a reeleição”.

O chamado trade eleitoral

A lógica por trás do chamado “trade eleitoral” é antecipar o que pode acontecer com a economia nos próximos quatro anos. A hipótese predominante entre parte dos investidores é que uma eventual alternância para um governo de centro-direita poderia representar umamudança na trajetória fiscal e no ambiente de negócios, reduzindo o prêmio de risco exigido pelos ativos brasileiros.

“O mercado está negociando hoje uma expectativa de mudança na política econômica, antes de conhecer efetivamente o programa fiscal e sua capacidade de execução”, diz Lima.

Se o risco fiscal percebido pelo mercado diminuir, a curva de juros tende a responder. Juros mais baixos, especialmente nos vencimentos longos, aumentam o valor presente dos fluxos de caixa das empresas e podem favorecer principalmente companhias domésticas mais sensíveis ao custo de capital.

É justamente essa relação que ajudoua alimentar a forte recuperação da Bolsa. Depois de cair 6,55% em 11 pregões entre 3 e 18 de agosto, quando chegou aos 166.335 pontos, o Ibovespa recuperou terreno rapidamente. Em 2 de setembro, voltou aos níveis observados em maio.

A alta também foi disseminada entre diferentes setores. Na quarta-feira, apenas três ações terminaram no campo negativo, enquanto Magazine Luiza, Vamos e Azzas tiveram altas de dois dígitos. Petrobras também contribuiu para o movimento, com as ações preferenciais da companhia fechando a sessão em máxima histórica nominal de R$ 48,20.

O fluxo estrangeiro também ajudou a amplificar a reação, segundo os especialistas. Um gestor de uma grande casa de investimentos, ouvido pela EXAME em condição de anonimato, afirma que o desempenho recente doBrasil precisa ser comparado ao de outros mercados emergentes para separar o efeito externo do componente eleitoral.

Segundo ele, há algumas semanas o Brasil vinha tendo desempenho pior do que seus pares. Na avaliação do gestor, a combinação de maiores chances de continuidade de um governo expansionista, um ambiente externo menos favorável e a venda de ativos brasileiros por um grande investidor estrangeiro ajudou a explicar a piora.

Com o fim desse movimento vendedor e uma melhora relativa do ambiente externo, o cenário mudou. Ao mesmo tempo, as pesquisas passaram a apontar uma disputa mais equilibrada. “Vejo que muitas pessoas acreditam que hoje o Lula é levemente favorito ou é 50-50 mesmo [de probabilidade para o atual presidente e para o senador do PL], mas que nas próximas semanas o Flávio passa”, afirma o gestor.

Oposição agrada ao mercado, mas com ressalvas

A visão sobre a oposição, entretanto, não se resume ao ajuste fiscal. O gestor afirma que o mercado também enxerga uma eventual mudança de governo como uma oportunidade de melhora do ambiente de negócios, incluindo marcos regulatórios, agências reguladoras, licenciamento ambiental e concessões.

Cruz tem leitura semelhante sobre os nomes que aparecem no campo oposicionista. Segundo o estrategista-chefe da RB Investimentos, candidatos como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Dantas (Missão), Augusto Cury (Avante) e Flávio Bolsonaro são vistos por parte do mercado como portadores de um diagnóstico mais adequado dos problemas econômicos brasileiros.

“Conforme qualquer um deles avançar nas pesquisas, os ativos vão reagir positivamente”, afirma.

Mas há uma diferença importante entre o diagnóstico e a capacidade de execução. O próprio Cruz pondera que a maioria dos candidatos não detalha exatamente como pretende enfrentar o problema fiscal. “Mesmo assim, a leitura é que o presidente Lula e seus aliados não possuem um bom diagnóstico do que é necessário fazer para resolver a economia”, diz.

O próximo presidente, quem quer que seja, enfrentará um problema fiscal que não pode ser resolvido apenas com vontade política. Cerca de 90% do orçamento federal é composto por despesas obrigatórias, segundo Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, o que limita o espaço para cortes e exige uma base sólida no Congresso.

“Ganhar uma eleição é diferente de conseguir aprovar um ajuste fiscal. O próximo governo terá que lidar com despesas obrigatórias elevadas, pressões políticas por gastos e necessidade de construir maioria no Congresso”, afirma Lima.

Belitardo, por sua vez, destaca que fatores externos continuam sendo determinantes para a bolsa brasileira. Juros elevados em economias desenvolvidas, dólar global, commodities e petróleo podem se sobrepor ao componente eleitoral.

Há ainda um elemento político que ganhou força nos últimos dias: a crise envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), eo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Para Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, o efeito sobre os ativos tende a ser indireto. “O ponto relevante para o mercado é se o episódio altera intenção de voto, mobilização eleitoral ou a percepção sobre as instituições. Se contribuir para fortalecer a oposição ou aumentar a probabilidade de alternância de poder, tende a reforçar inicialmente o trade que estamos vendo em Bolsa, dólar e juros”, afirma.

O estrategista, porém, alerta para o risco de uma escalada institucional. “Se a crise evoluir para um conflito institucional mais grave entre STF, PGR, Congresso e forças políticas, o efeito pode se inverter. Nesse caso, o mercado deixa de enxergar apenas a eleição e passa a incorporar prêmio adicional de risco institucional”, diz.

AutorClara Assunção
FonteExame
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